O diário de Yoneda

Há mais de 65 anos, um homem perdeu toda a família em Hiroshima, após o ataque nuclear feito pelos EUA. E conseguiu registrar por escrito toda a sua perplexidade e dor diante da tragédia Por...

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Há mais de 65 anos, um homem perdeu toda a família em Hiroshima, após o ataque nuclear feito pelos EUA. E conseguiu registrar por escrito toda a sua perplexidade e dor diante da tragédia

Por Mouzar Benedito

Imagine um jovem que deixou sua cidade para fazer o curso universitário na capital. O país está em guerra. Um dia chega a ele a notícia de que um novo tipo de bomba destruiu sua cidade. Ele tenta ter notícias e não consegue nada objetivo. Quer voltar à sua cidade e não pode, não o deixam entrar. Então vai para uma cidade próxima e encontra parentes que o recebem com a notícia: “Estão todos mortos”. Sua mãe e dois irmãos estão entre os mortos. Sobreviveram os familiares que estavam fora da cidade.

Hiroshi Yoneda, hoje com 88 anos de idade, tem essa história para contar.

Angustiado, ele escreveu um diário na época. Seu filho, Kiyoshi, o traduziu para o inglês, e Mary Lou Rebelo, sua nora, esposa de Kiyoshi, traduziu para o português. Esta é a tradução de trechos desse diário. A casa de sua família ficava em Hiroshima, mais ou menos a 300 metros do centro da explosão da bomba atômica, atualmente dentro do Parque da Paz. Na época, ele era estudante em Tóquio, por isso conseguiu escapar do genocídio.

Conheci Yoneda em 2002, quando ele veio ao Brasil. Já beirando os 80 anos, era animado, dinâmico, inteligente e, surpreendentemente, um homem sem raiva, sem ódio. A paz em pessoa, pensei. Até hoje continua assim. Morando num asilo de idosos cujo nome traduzido para o português é “Jardim das Laranjeiras”, em Funabashi, na província de Tiba, perto de Tóquio (Kiyoshi mora em Fukuoka, no sudoeste do país), Yoneda convive com um pessoal bem mais jovem, com sessenta e poucos anos, pois os seus contemporâneos vivem reclusos, pouco dispostos, enquanto ele pratica esportes (natação e tênis), viaja e tem uma enorme sede de novos conhecimentos. Imagino como está se sentindo agora.

Assim escreveu Hiroshi Yoneda

Diário escrito no Japão em 1945, perto do fim da Segunda Guerra Mundial

Novo tipo de bomba inimiga lançada em Hiroshima. Ataque-surpresa por um pequeno número de aviões B-29. Estragos consideráveis, detalhes sob investigação.”

Estas são as manchetes de um recorte do jornal Asahi Shimbum colado no meu diário na página do dia 8 de agosto de 1945. A notícia, divulgada pelo Quartel General às 15h30 do dia 7 de agosto, é sobre o lançamento da bomba um pouco depois das 8 horas da manhã do dia 6 de agosto.

Eu estava, na época, no segundo ano do curso de Construção Naval, na Segunda Escola de Engenharia da Universidade Imperial de Tóquio, cujo campus ficava na cidade de Chiba. Eu morava na cidade de Ichikawa. Nós, estudantes, tínhamos sido mobilizados para trabalhar em locais como canteiros navais ou fábricas da Marinha. Meu local de trabalho ficava no próprio campus da universidade e eu ajudava um professor na sua pesquisa, subsidiada pela Marinha. Eu devia comparecer ao trabalho diariamente e recebia um salário de 40 ienes por mês.

Manhã, 8 de agosto de 1945, tempo nublado

Finalmente chegou a vez de Hiroshima. E com um novo tipo de bomba, provida de um paraquedas, explodindo no ar. O rádio informa que muitos edifícios foram destruídos e que houve um grande número de vítimas. Que aflição!

Noite, 8 de agosto de 1945

Na escola, Ootomi e Yamazaki mencionaram várias vezes a possibilidade de que minha família em Hiroshima tenha sofrido com a bomba. Fiquei respondendo a eles “Sim, é possível” e outras coisas do gênero, até que eles disseram: “Você parece excepcionalmente calmo a respeito disso”. E eu respondi: “Claro que estou preocupado!”. Eles começaram a rir. Me senti insuportavelmente só.

Talvez seja um tipo de inveja, mas não consigo dizer que estou preocupado com aqueles que procuram demonstrar compaixão por mim. Porém, sinto vontade de chorar como uma criança. Ainda bem que Hiroko-san não diz nada. [Nota do tradutor: Hiroko, uma das filhas da dona da casa onde ele morava quando estudante, depois tornou-se sua esposa]

Isto é uma espécie de provação para mim. Vou tentar me comportar da seguinte maneira: não demonstrar minha ansiedade, não apenas para Hiroko-san, mas para todos à minha volta, até que eu tenha notícias de Hiroshima.

Eu não devo me preocupar nunca a respeito de coisas sobre as quais não posso fazer nada para mudar. Vou viver cada dia com alegria. Não devo pensar no que vai acontecer amanhã e, menos ainda, sobre o que aconteceu ontem. Viver somente o agora, fazendo o melhor que puder neste momento.

Talvez eu tenha me tornado uma pessoa bastante infeliz, mas, até que eu saiba o que aconteceu com certeza, vou imaginar que todos os que eu conheço, minha mãe e meus irmãos, estão salvos. E tomarei cuidado para que as pessoas à minha volta não fiquem tristes por minha causa.

Sexta-feira, 10 de agosto de 1945, tempo bom

Meu 22º aniversário terminou com uma notícia angustiante. O novo tipo de bomba, chamada de bomba atômica, me tirou, com 80% a 90% de certeza, minha mãe, possivelmente junto de dois dos meus irmãos. Dizem que o centro da explosão foi em Danbara; outros afirmam que foi no quartel-general da divisão. Em qualquer um dos casos, a situação é desesperante para os de Tenjin-machi. Vejo a minha mãe e meus dois irmãos, Yoshikiyo e Hidesou.

Domingo, 12 de agosto de 1945, tempo bom

Mãe foi morta no maior massacre da história da humanidade. Sem que se esperasse. Posso apenas imaginar a agonia pela qual ela passou. Deve ter me chamado pelo nome neste momento. Quando penso nos sentimentos dela, não consigo ficar parado.

Segunda-feira, 13 de agosto de 1945, tempo bom

Sinto que o fim da guerra está próximo. As pessoas perderam o espírito de luta por causa da bomba atômica e da entrada da URSS na guerra. Eu mesmo já perdi a guerra, de certa forma.

Quarta-feira, 15 de agosto de 1945, tempo bom

Perdemos a guerra. A causa direta foram as bombas atômicas. Escorrem lágrimas ao escutar a mensagem do imperador.

Um novo início. Não estou desanimado.

Quarta-feira, 22 de agosto de 1945, tempo nublado

Ontem à noite soube por Tajima-san que o centro da explosão da bomba foi na ponte de Aioi, um pouco ao sul do Prédio de Promoção à Indústria. Ou seja, exatamente em volta de nossa casa em Tenjin-machi. Chego à lamentável conclusão que todos devem ter morrido.

[Nota do autor: O dr. Eizou Tajima, atualmente na Comissão de Segurança de Energia Atômica, morava nessa época perto de mim e pesquisava sobre a energia atômica. Foi através dele que tive informações sobre o novo tipo de bomba, o que me deixou receoso e desesperado.]

Domingo, 26 de agosto de 1945, tempo nublado

Uma carta de Mineko-san. Mãe foi encontrada carbonizada na cozinha; os corpos dos meus irmãos não foram encontrados. Assim, os três que moldaram minha vida se foram. E todos os três ao mesmo tempo. Como Mineko-san e Kishiko-san devem ter sofrido! Imagino todo o sofrimento que ainda terão de passar. Chorei a não mais poder. Sempre que vejo o rosto de Hiroko-san, não consigo deixar de chorar. Então é essa a minha voz quando choro? É a primeira vez que choro assim em voz alta. E continuei a chorar.

Tudo se acabou. Mãe e meus dois irmãos não mais existem, nunca mais.
É como se fosse um pesadelo, mas eles não existem mais. Me lembro do que eles fizeram por mim.

[Nota do autor: Mineko é a esposa de Yoshikiyo; Kishiko, a de Hidesou. Elas estavam fora de Hiroshima e sobreviveram.]

Segunda-feira, 27 de agosto de 1945

Recebi um certificado da escola, me isentando da mobilização de estudantes. Tentei comprar um bilhete de trem para Hiroshima, mas não consegui.

Terça-feira, 28 de agosto de 1945

Comprei um bilhete de trem em Chiba para Koi.

Quarta-feira, 29 de agosto de 1945, tempo bom

[Nota do autor: O que se segue é um rascunho de uma carta endereçada à dona da casa onde morava em Ichikawa. Casei-me com a filha dela, Hiroko, em 1947.]

Deixando para trás duas lágrimas nos olhos de Hiroko-san, o trem começou a se mover de maneira desajeitadamente suave.

Em Osaka, fui para a casa do meu irmão Masao; cheguei lá tarde da noite. Disse “Konbanwa” (boa noite) e a voz de Masao-san respondeu: “Donata” (quem é?). Ao ouvir o meu “Hiroshi desu” (É Hiroshi.) ele veio correndo para fora da casa e disse, com uma voz oca: “Minna shinda yo” (Todos morreram!).

Conversamos até muito tarde. Perguntei como tinha sido. Ele me contou o que tinha escrito numa carta para mim e que deve estar chegando aí agora. Fiz uma pergunta atrás da outra e ouvi-o atentamente. Nós dois sozinhos — sim, éramos tantos irmãos naquela foto tirada por ocasião do 13º aniversário da morte do meu pai. Agora só nós dois. Quando soube que minha avó também tinha morrido, senti como se minha vista escurecesse de repente. E acrescentei mais uma parte ao obituário que a senhora tinha preparado para me presentear.

Sexta-feira, 31 de agosto de 1945, chuva

[Nota do tradutor: rascunho de uma carta para sua senhoria Tokiko, minha avó materna. Ver início do dia 29 de agosto.]

A atmosfera de Hiroshima era muito angustiante e não apenas para os habitantes da cidade. No dia 6, quase todas as famílias que moravam em volta da cidade tinham enviado alguém para o centro de Hiroshima. Trabalhadores recrutados, soldados, estudantes mobilizados, pessoas a serviço etc. A maioria morreu. Tomei a linha Kabe. O trem estava cheio. Talvez 90% das pessoas neste trem tenham perdido alguém de sua família.

Cheguei a Kabe, mas minha cunhada tinha ido para Kaitaichi. Sakie, Seisou e Motoko estavam todos lá. Fui recebido com alegria. Sakie começou a preparar arroz para mim. Seisou trouxe um montão de coisas para me mostrar. Todos pareciam bem, levando-se em consideração o que tinha acontecido. As crianças estavam tristes pela morte da avó. E tentaram me consolar: “É muito triste para você, mano, que a avó tenha morrido. [Nota do autor: naquela época eu era chamado de irmão (mano), em vez de tio.]

Soube a respeito de minha mãe pelo meu irmão Masao e pelas crianças. Ela tinha preparado tudo tão bem para nós, para mim especialmente. Descobriram isso quando cavaram o chão queimado. Cada vez que ouvia essa história, sentia vontade de chorar. Mãe! Por que você pensava tanto em mim e nem um pouco em si mesma? Os livros que eu tinha lhe pedido para guardar foram encontrados no canto mais fundo do abrigo. Havia três pilhas de coisas cuidadosamente arrumadas ali no abrigo. E ela havia preparado grandes potes cheios d’água para evitar que a louça se quebrasse com os bombardeios. Ela vinha comprando coisas aos poucos, como xícaras de café, para mim e minha futura noiva. Tinha até mesmo dado o número da minha conta no banco para minha cunhada, para qualquer eventualidade. Tinha feito tudo isso por mim. Minha cunhada, seus filhos, todos pareciam pensar somente em mim.

Quando entreguei as peras para as crianças, as cartas de Reiko-chan e Atsuji-chan, meias para Motoko, saias etc., todos ficaram felizes. [Nota do tradutor: Reiko e Atsuji são, respectivamente, irmã e irmão de Hiroko.]

A cunhada chorou de gratidão quando viu os presentes que vocês tinham mandado — e eu trouxera — para os mortos, como peras, incenso e velas. Foi muita delicadeza da parte de vocês.

A capitulação incondicional do Japão do tipo “façam-o-que-quiserem” entrou direto no meu coração. No momento, não possuo nada além da possibilidade de implorar piedade a todo o mundo. Pensei sobre mim, caminhando neste mundo atemorizante, com somente aquele pouco conhecimento que consegui na escola, como minha única posse. A expressão inglesa “at the mercy of” (à mercê de) veio à minha cabeça e afaguei essa ideia dando-lhe várias interpretações: faça como quiser; por piedade; despreocupação; liberdade para você; as coisas vão mudar; até a última gota; e assim por diante.

[Nota do tradutor: o autor foi o único dos quatro irmãos e duas irmãs que pôde receber educação superior, principalmente por ser o mais moço. Ele sentia gratidão por ter tido essa oportunidade.]

Terça-feira, 25 de setembro de 1945, tempo bom, passando a nublado

O Japão inteiro está culpando e criticando o passado, reclamando daqueles que iniciaram e conduziram a guerra.

No meio disso tudo, é como se eu estivesse sozinho com meu espírito crítico perdido. Não consigo deixar de pensar desta maneira. Tojo-san foi um homem infeliz que, sozinho, assumiu toda a responsabilidade da guerra. O grupo de militares consistia também de pessoas sem sorte, que continuaram conduzindo a política de maneira prática, numa época em que não havia outra saída. E eles não tiveram outro jeito a não ser fazer o que fizeram.

Foi a sina do Japão. Não consigo deixar de imaginar que foi o destino que fez com que minha mãe e meus irmãos tenham desaparecido e que eu sofra com isso. Como poderia eu me poupar pensando de outra maneira? Caso eu pensasse de maneira diferente, teria que viver o resto da minha vida amaldiçoando o governo, guardando rancor contra os Estados Unidos.

Meus sentimentos não me permitem considerar os Estados Unidos responsáveis pelo assassinato de minha mãe e de meus irmãos. Menos ainda os estadistas japoneses. Gostaria de considerar tudo isso como uma consequência da passagem do tempo, que não é humano, que não pode ser influenciado o mínimo que seja pelo poder humano. É algo que o poder humano não alcança.

O dano que sofri vai persistir em meu cérebro para o resto da minha vida. O tempo vai me permitir esquecer aos poucos. É provável que eu consiga esquecer quando estiver feliz. O fato, porém, permanece. Ah, se eu pudesse esquecer que perdi minha mãe e meus dois irmãos queridos ao mesmo tempo!

[Nota do autor, feita em 1985: Esta é a ideia que eu tenho a respeito da guerra até o presente momento. Não são muitas as pessoas que aceitam essa ideia. Mas não é desespero o que está escondido no fundo do coração de muitos?]

   NAMI  NAMI TO
MIZU SONAEKERI
GENBAKU-KI
Hiroko [Hamada] Yoneda

Copiosamente
Ofereço água
Aos mortos da bomba atômica

Motivação para a tradução para o inglês

Um trecho do diário do meu pai foi publicado na Shuukan Asahi, do dia 16 de agosto de 1985. Shuukan Asahi é uma revista semanal da mesma empresa do jornal Asahi Shimbum. O que li não parecia ter sido escrito por meu pai. Comentei com ele: Eu sabia que você era mais romântico do que minha mãe, mas não tinha ideia de que você fosse TÃO melodramático. Então, ele me mostrou o manuscrito original, que parecia mais com ele. O jornalista tinha cortado tudo, menos as partes dramáticas.

Mandei uma tradução em inglês do artigo publicado para um velho amigo meu em Los Angeles, que me pediu a permissão para publicá-la num jornal local. Senti-me mal por ter traduzido uma obra tão mutilada. Por isso, resolvi fazer um trabalho melhor. Muitas pessoas me ajudaram. E eu agradeço.

Kiyoshi Yoneda

Tradução portuguesa [Mary Lou Rebelo]

A tradução em inglês do Diário de Yoneda foi divulgada no Japão pela rede internacional de comunicações por computador Twics BeeLINE, em Tóquio, que a distribuiu em seguida para algumas redes americanas. Muita gente demonstrou interesse pelo assunto, gerando vários comentários sobre o trabalho. Pensei, então, em traduzi-lo para o português para poder dar divulgação desse depoimento sobre a bomba atômica para o público de língua portuguesa.

Não existem muitos testemunhos escritos por pessoas que sofreram a perda de seus entes queridos pela bomba atômica que não sejam apelativos. Considero o que Hiroshi Yoneda relatou de grande importância para que não caiam no esquecimento episódios dramáticos como o bombardeio de populações civis, com uma arma de efeitos tão destrutivos, a curto e longo prazos. Que ninguém mais possa ainda alegar que não sabia. Este é o nosso objetivo.

Mary Lou Rebelo

Nota da tradução portuguesa

Os nomes japoneses foram escritos da forma em que normalmente são romanizados no Japão. A pronúncia deles, porém, difere da pronúncia brasileira. Por exemplo, Masao se pronuncia como se fosse Massao; Seisou é pronunciado Seissou; Hiroshi seria Riroshi; Tenjin-machi seria Tenjin-mati etc.

 



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