O hibridismo musical de Marcos Valle

O compositor multifacetado nunca foi somente um, a ponto de ser difícil assimilar que o autor de “Samba de verão” é o cantor de “Viola enluarada”, compositor de “Black is Beautiful”, forjador de “Um...

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O compositor multifacetado nunca foi somente um, a ponto de ser difícil assimilar que o autor de “Samba de verão” é o cantor de “Viola enluarada”, compositor de “Black is Beautiful”, forjador de “Um novo tempo” e criador de Vila Sésamo. Confira a trajetória de um músico que seguiu uma estrada própria para divulgar sua “revolução orgânica”.

Por Pedro Alexandre Sanches

 

O pai e a mãe dele eram paraenses. Os tios eram cearenses. A avó, índia amazônica. O avô, alemão fugido do nazismo que veio desembarcar no Brasil. Parece a letra de “Paratodos”, de Chico Buarque, mas é a árvore genealógica do músico carioca Marcos Valle, que seguiu pela vida transformando em música a misturança do DNA.

Só carimbó paraense ele ainda não praticou. Filhote da bossa nova, cravou já aos 22 anos o clássico de fossa “Preciso aprender a ser só” (1965). Garoto de praia alocado entre o Arpoador e Búzios, modulou o ultracarioca “Samba de verão” (1965), que foi parar nos Estados Unidos encantados pela bossa, na voz de Johnny Mathis, “So Nice (Summer Samba)”. Rapagão de montanha que cresceu nas cachoeiras de Nova Friburgo, cantou música interiorana à época rotulada de “toada moderna”: “Viola enluarada” (1968), em dueto em branco-e-preto com Milton Nascimento, futuro semideus do clube da esquina.

Loiro e de olhos claros, compôs “Black is Beautiful” (1971), hino soul gravado pela branca de alma negra Elis Regina: “Hoje cedo, na rua do Ouvidor, quantos brancos horríveis eu vi/ eu quero um homem de cor”. Virou trilheiro da Rede Globo, e nessa posição criou com o irmão letrista Paulo Sérgio Valle os temas de tolerância que moveram uma geração de crianças, na versão brasileira de Vila Sésamo (1972-1974).

Em 1971, compôs a melodia que, sob letra de Nelson Motta e Paulo Sérgio Valle, fincaria morada até aqui eterna nos finais de ano da Rede Globo. Era “Um novo tempo”, você conhece: “Hoje é um novo dia/ de um novo tempo/ que começou nesses novos dias/ as alegrias serão de todos, é só querer/ (…) hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa, é de quem quiser”.

O otimismo hipertrofiado de “Um novo tempo” soava como adesão à ditadura, pela boca de quem já havia feito canção de protesto sobre reforma agrária (“Terra de ninguém”, de 1965, gravada por Elis) e canção de protesto contra a canção de protesto (“A resposta”, do mesmo ano, com os versos “falar de terra na areia do Arpoador/ quem pelo pobre na vida não faz nem favor/ falar do morro morando de frente pro mar/ não vai fazer ninguém melhorar”).

Em 1974, exilou-se nos Estados Unidos e compôs músicas para a cantora de jazz Sarah Vaughan, a banda de pop-rock-jazz Chicago, o soulman Leon Ware (parceiro de Marvin Gaye). De volta ao Brasil, cantou funk-baião: “Paraíba não é Chicago” (1981). Um funk feito em parceria com Ware explodiu no Brasil de 1983 como trilha sonora suada para academias de ginástica: “Estrelar”, dos famigerados versos “tem que correr, tem que suar, tem que malhar, vamos lá/ musculação, respiração, ar no pulmão, vamos lá”. Com “Estrelar” e sua sucessora, “Bicicleta” (1984, “bicicleta/ pedalando com você/ numa bicicleta”), fez dinheiro se apresentando em bailes funk de subúrbio, funk carioca antes do funk carioca como hoje o conhecemos.

Nos anos 1990, jovens DJs de música eletrônica, em especial da Inglaterra e do Japão, redescobriram a obra antiga de Marcos, notadamente a da fase soul. Junto com o passado do artista, resgataram seu presente, e ele voltou aos estúdios de gravação a bordo de uma Nova Bossa Nova (1998), essencialmente uma mistura entre todas as fases anteriores, que mais recentemente rendeu Estática (2010), editado originalmente na Europa e só lançado neste ano no Brasil natal.

Marcos Valle era todos esses: ele nunca foi somente um. A mestiçagem genética se traduziu em hibridismo musical, a ponto de ser difícil assimilar que o autor de “Samba de verão” é o cantor de “Viola enluarada”, é o compositor de “Black is Beautiful”, é o forjador de “Um novo tempo”, é o criador de Vila Sésamo, é o ginasta de “Estrelar”…

“Eu gosto do contraste, da polaridade”, explica, feliz com a reedição, na caixa Marcos Valle Tudo, de sua discografia nos dez anos que trabalhou da gravadora Odeon, entre 1963 e 1974. “Gosto de ter um negócio pra ter o oposto, de entrar numa sauna pra tomar um banho gelado, de tomar um banho gelado pra depois vestir uma roupa quentinha. O contraste me provoca, me dá uns choques. Eu não sei ficar na mesma coisa.” Diz isso referindo-se ao amor simultâneo por Búzios e Friburgo, e não propriamente à música. Mas bem poderia estar falando de música.

Marcos começou a aprender piano aos seis anos, mas em Friburgo, na adolescência, tocava acordeon, ao lado do mais tarde popularíssimo cantor Benito di Paula. No mesmo cenário, convivia com o futuro virtuose Egberto Gismonti. Alguns dos primeiros passos musicais foram dados num trio ao lado dos mais tarde defensores da pureza emepebista Edu Lobo e Dori Caymmi. “Nos apresentavam assim: ‘Com vocês, Dori Caymmi, filho de Dorival Caymmi, Edu Lobo, filho de Fernando Lobo, e Marcos Valle, filho do advogado Eurico Paulo Valle. Como se alguém soubesse quem era meu pai”, diverte-se. Diferenças à parte, os três são amigos até hoje, e o efêmero trio de juventude pode voltar qualquer hora dessas, segundo ele revela.

A esquerda e os calçadões de Ipanema

A partir de 1958, a bossa nova faria de tudo para aposentar da música brasileira o acordeon, entendido então como instrumento rude, grosseiro. Marcos seguiu os ditames, mas a sanfona nunca saiu de dentro dele. “Meu pai tinha discos de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. A primeira coisa que me chamou atenção na minha vida em música foi aquela sonoridade de acordeon que acompanhava o baião. Depois é que veio o samba, mas a primeira coisa mesmo foi o baião. Mais tarde, quando ouvi Chiquinho do Acordeon tocar, achei moderno demais. Aquilo tinha tudo a ver, até com Tom Jobim. Pra mim era uma coisa só, não via nenhuma impossibilidade de juntar as coisas”.

O pai, que costumava obrigar os filhos a fazer muitos exercícios, talvez pensasse em Luiz “Lua” Gonzaga quando batizou de “Viola enluarada” a toada escrita pelos filhos. “A mão que toca um violão/ se for preciso faz a guerra/ mata o mundo/ fere a terra”, dizia a letra, já impregnada da inevitabilidade do protesto na MPB esquerdista dos anos 1960.

Apenas dois anos antes, os irmãos Valle haviam ensaiado entrar na briga entre a bossa nova dita “alienada”, jobiniana, e a dissidência de Carlos Lyra e Nara Leão, em íntima ligação com o samba do morro e as necessidades sociais do protagonista idealizado de toda a arte de esquerda da época: o povo. “Quando começaram a chamar de alienado quem não fazia aquilo, e chamaram de alienado o próprio Tom Jobim, nós ficamos chateados. E fizemos ‘A resposta’, sacaneando. Pô, falar de pobre morando de frente pro mar?”

As patrulhas ideológicas já eram ativas (embora ainda não tivessem esse apelido), e os garotos praianos de classe média tiveram rapidamente de se informar, se politizar. Do mesmo ano de 1965 eram “A resposta”, a surfista “Vamos pranchar”, os temas de favela “Maria da Favela” e ”Tião Braço Forte”, as toadas agrárias desconjuntadas “Terra de ninguém”, “Gente” e “Deus brasileiro”. A seguir, os Valle fariam música sobre o assassinato de Che Guevara (“Réquiem”, 1968, cantado em dupla com Milton) e sobre a Passeata dos Cem Mil (“Dia de vitória”, 1969, com o conjunto de jovem guarda Golden Boys).

Seria a guinada dos calçadões de Ipanema para a esquerda um resultado de pressão, da necessidade de acompanhar o rebanho MPB? “Não mudei no sentido que exigiam, ‘agora só pode fazer música sob fundo social’. Isso pra mim não dava. Continuava a achar que a música tem que ser emoção, não posso fazer a melodia de ‘Preciso aprender a ser só’ falando de ‘terra de ninguém’”, diz.

Em 1966, partiu para temporada de dois anos nos Estados Unidos, porque o produtor Ray Gilbert queria fazer dele o novo Tom Jobim. Lançou dois discos lá e quis voltar. Trouxe no avião a melodia de “Viola enluarada”, e aqui concebeu o LP homônimo, mais uma pérola de hibridez, com canção de protesto e o fascínio pela nascente Tropicália convivendo lado a lado, principalmente na futurista “Próton elétron nêutron”.

Influenciado ao mesmo tempo pela Tropicália de Gilberto Gil e pela pilantragem de Wilson Simonal (que em 1963 o apadrinhara na Odeon), Marcos começava a inventar uma identidade própria e original, que não era bossa nova nem jovem guarda, canção de protesto nem Tropicália, pilantragem nem samba-rock. Não era nada disso, e era tudo isso ao mesmo tempo.

Acima de tudo, era uma música fundada em temática comportamental. Nisso, parecia mais Simonal e Caetano Veloso que Jobim, Geraldo Vandré ou Roberto Carlos. Começou criticando espirituosamente a sociedade de consumo, em “Mustang cor de sangue”, “Tigre da Esso que sucesso”, “Os dentes brancos do mundo”, todas de 1969. Para Simonal, entregou “Deixa o mundo e o sol entrar” (1970), grave balada pós-bossa sobre a necessidade de romper um romance que já se desgastou: “Siga minha amante enquanto houver o amor/ abra as portas todas deste quarto/ deixa o mundo e o sol entrar”. A revolução hippie invadia com tudo a obra dos irmãos Valle.

Ironicamente, eles ao mesmo tempo sobreviviam à custa de jingles publicitários, de “Um novo tempo”, das trilhas sonoras para as novelas Véu de noiva (1969), O cafona (1971), Selva de pedra (1972), Os ossos do Barão (1972). A Globo divulgava crítica comportamental pelas frestas, como em “Capitão de indústria”, tema de Francisco Cuoco em Selva de pedra: “Eu me encontro perdido nas coisas que eu criei (…)/ acordo pra trabalhar/ eu durmo pra trabalhar/ eu como pra trabalhar”. “O personagem era aquele cara que era dono de um monte de indústrias, não pensava em mais nada a não ser ganhar dinheiro, sacaneava todo mundo, não se divertia.

A gente conseguiu ter muita liberdade para criar as trilhas, hoje provavelmente não teria”, afirma.
Com Paulo Sérgio, Nelson Motta e o então presidente da gravadora Philips, André Midani, Marcos fundou nessa época a agência publicitária Aquarius, sob égide da qual foi criado o jingle “Um novo tempo”. Os personagens de canções como “Capitão de indústria” pareciam refletir os próprios criadores, expostos à contradição e à ambiguidade da dupla face em que viviam, ao mesmo tempo hippies e ajustados à máquina de produção e consumo.

“Corro por dinheiro/ até jogar no chão meu corpo inteiro”, desnudava-se a genial faixa-título do genial álbum Garra (1971). “Não confio em ninguém com mais de 30 anos/ não confio em ninguém com mais de 30 cruzeiros”, contradizia-se na ultra-hippie “Com mais de 30”, no mesmo disco.

Tudo ao mesmo tempo agora, “Revolução orgânica” pregava a microbiótica, “Nem paletó nem gravata” (1973) preconizava a vida anticapitalista (“não gosto de acordar cedo/ não gosto de pensar no futuro/ eu vivo agora”), “Casamento, filhos e convenções” (1974) agredia a hipocrisia da sociedade.

“Flamengo até morrer” (1973) descortinava-se para profunda ambiguidade. “Que sorte eu ter nascido no Brasil/ até o presidente é Flamengo até morrer/ e olha que ele é o presidente do país”, cantava. O presidente do país era o sanguinário Emilio Medici. E o samba oscilava entre parecer ufanista e querer ser sutilmente crítico. “Eu como um prato a menos/ trabalho um dia a mais/ e junto um trocadinho pra ver o meu Flamengo (…) o resto a gente sabe, mas não diz”. A capa de Previsão do tempo, o disco que começava com essa canção, mostrava Marcos mergulhado numa piscina, em imagem que, voluntária ou involuntariamente, evocava uma sessão de tortura nalgum porão da ditadura.

A intenção, diz, era fazer protesto, mas ele assume a bipolaridade. “Os caras mais radicais diziam que não podia torcer pela seleção brasileira, que você estaria ajudando a fazer a alienação total, que era servir ao governo… Mas é minha alegria do dia a dia, é onde eu me divirto, pô. Até onde posso dizer que sou brasileiro, que gosto do Brasil? Torço ou não torço? Logicamente as pessoas acabavam torcendo, mas havia protestos”.

Marcos era muitos em música, e a multiplicidade respingava no cotidiano. “O conflito é inerente ao ser humano, a não ser quando você tem uma meta na vida, é fanático religioso ou político. Se você é mais aberto, vive conflitos. E acho que deve viver, vai resolver os conflitos durante a sua vida, ou vai expor, ou errar, ou acertar. É muito difícil você querer justificar tudo que fez na sua vida, se fizer isso você fica bobo”, diz.

Em tempos acirrados como aqueles, a luta política dominava tudo, a ponto de a MPB inteira ter se reconstruído como militante contumaz contra a ditadura. Nesse contexto, os que optavam pela crítica comportamental não eram bem aceitos, respeitados nem levados a sério, fosse pela direita ou pela esquerda. Até hoje, Marcos Valle é poucas vezes citado no panteão dos “maiores” de nossa música, apesar do legado riquíssimo.

Ele não era radical à direita ou à esquerda, nem na politização nem no desbunde (herança do pai esportivo, nunca foi afeito às drogas). Seguindo uma estrada própria, paralela, pôde divulgar sua “revolução orgânica”, interior, em nichos prosaicos como o do infantil Vila Sésamo, à época rejeitado pela esquerda como imperialista.

“Eu sou o Funga-Funga e sou um pouco diferente/ mas não entendo por que todo mundo me olha como se eu não fosse gente”, protestava o monstro Funga-Funga, na canção homônima. “A imaginação fica dentro da cabeça/ com ela a gente faz o que bem quer/ com ela eu olho pra dentro de mim e vejo coisas lindas, vejo o que eu quiser/ tudo a gente pode, de tudo a gente é capaz/ basta que a gente acredite em tudo que a gente faz”, pregava “Imaginação”. “Nem todas as coisas são fáceis de fazer/ mas querer é poder/ tudo nesta vida que você quiser fazer/ você vai ter que acreditar em você”, sonhava “Querer é poder”.
Intuitivos, os irmãos Valle praticavam o que hoje chamaríamos de agenda afirmativa, pregando tolerância e respeito às diferenças. Pareciam morar no século XXI, este que ainda hoje lutamos para adentrar.



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1 comment

  1. rubens gandelman Responder

    Excelente matéria. Conta a história de um dos grandes nomes de nossa MPB.


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