O inferno dos imigrantes nos EUA

No final do mês passado, milhares de manifestantes foram às ruas de Los Angeles para exigir a reforma migratória nos EUA e prestar solidariedade a Elvira Arellano, mexicana deportada em agosto último. Por Altamiro Borges  ...

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No final do mês passado, milhares de manifestantes foram às ruas de Los Angeles para exigir a reforma migratória nos EUA e prestar solidariedade a Elvira Arellano, mexicana deportada em agosto último.

Por Altamiro Borges

 

No final do mês passado, milhares de manifestantes foram às ruas de Los Angeles para exigir a reforma migratória nos EUA e prestar solidariedade a Elvira Arellano, mexicana deportada em agosto último. Após mais de um ano refugiada num templo metodista em Chicago, ela foi detida pela polícia local. Ao ser enxotada para o México, foi separada do seu filho Saul, de oito anos, e perdeu todos os seus pertences. Em 2002, Elvira já havia sido presa no aeroporto de O’Hare, onde trabalhava na limpeza de aviões. A mexicana foi acusada de usar um documento falso para poder trabalhar. Na seqüência, mais consciente, ela se uniu ao movimento de apoio aos imigrantes.
Por sua militância ativa e corajosa, Elvira Arellano se converteu num símbolo dos imigrantes que lutam contra as bárbaras discriminações e deportações nos EUA – que inclusive separam as mães dos filhos que são considerados cidadãos estadunidenses e são retidos no país. Mas sua história, um martírio de perseguições e humilhações, é a mesma de milhões de pessoas do mundo inteiro que migram aos EUA à procura de trabalho – muitas delas iludidas com o “paraíso do consumo”.
Segundo Luis Bassegio e Luciane Udovic, da Secretaria Continental do Grito do Excluídos, mais de 57 milhões de latino-americanos e caribenhos residem nos EUA. As suas vidas, principalmente dos 12 milhões que não estão legalizados, são um inferno em todos os estágios: ao tentar entrar no “primeiro mundo”, são vítimas de perseguições e morte; ao serem obrigados a trabalhar com salários aviltantes e em condições degradantes; e ao serem presos e deportados como criminosos. Este drama já martiriza mais de 1 milhão de brasileiros, que deixaram o país em busca de um futuro melhor!

A tentativa de ingresso é o estágio mais perigoso. O “muro da vergonha” que separa os EUA do México, também chamado de “muro do império”, coloca em risco a vida destes desesperados. Na parte mexicana, eles são espoliados por máfias criminosas que cobram até US$ 12 mil para a travessia ilegal. Ficam semanas dormindo em barracas de lona, sem qualquer higiene e com péssima alimentação. Já no território ianque, são perseguidos por 17 mil policiais. Milhares são presos e deportados. Só em abril do ano passado, 4.802 brasileiros foram detidos – média de 160 ao dia.
Mais macabra ainda é a ação de empresas paramilitares, como a racista Gatekeeper, que presta assessoria a fazendeiros e ricaços interessados em caçar e matar imigrantes. Desde janeiro de 2001, quando o ex-presidente mexicano Vicente Fox e o terrorista George Bush assinaram um acordo migratório, mais de 2 mil pessoas foram mortas na divisa. No ano passado, foram 441 mortes, sendo 15% de mulheres. A mídia venal, que acusou o famoso Muro de Berlim de ser responsável pela morte de 800 pessoas em 30 anos, nada fala sobre este “muro da vergonha”.
O estágio seguinte, dos que escapam do cerco, também é deprimente. Como relata a jornalista Elaine Tavares, “boa parte dessa gente que chegou ao país vive como ‘ilegal’. São ninguém, pessoas sem documento e sem cidadania. Até hoje têm conseguido viver em empregos subalternos, passando as piores privações. Por serem ‘ilegais’, os empregadores se acham no direito de explorar ao máximo e eles vão se submetendo”. Além do salário aviltante e do trabalho degradante e pesado, o migrante também não tem direito à rede pública de hospitais e escolas.
Toda esta violência, porém, tem gerado maior conscientização e resistência das vítimas. Nas manifestações do 1º de Maio do ano passado, 1,5 milhão de pessoas saíram às ruas em várias cidades para protestar contra a legislação migratória e exigir os direitos sociais e trabalhistas. O protesto, denominado de “Um dia sem imigrantes”, revelou a força destes trabalhadores. Alguns símbolos do império, como a McDonald’s e a rede Wall Mart, foram boicotados. A própria mídia burguesa advertiu para o risco da paralisação da economia, que depende hoje de milhões de imigrantes, e alertou para o “barril de pólvora, que pode explodir a qualquer momento”



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