O legado de 1968

Editorial de maio Por   Quando se olha para o passado, sempre há o risco de estigmatizá-lo ou vê-lo de forma mais doce. No caso do emblemático...

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Editorial de maio

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Quando se olha para o passado, sempre há o risco de estigmatizá-lo ou vê-lo de forma mais doce. No caso do emblemático ano de 1968, muitos tentam reduzi-lo apenas a uma espécie de revolução estética, dada a efervescência cultural vivida em quase todas as áreas. Logo vêm à mente ritmos, sons e cores, muitas cores. No entanto, quando se pensa no lado da ação política, na intensa movimentação de estudantes e trabalhadores, a imagem que surge é em preto-e-branco, em tons de sépia, algo emoldurado e estático que ficou para trás.
Esse tipo de visão acaba por impedir uma reflexão mais profunda sobre os importantes significados do que aconteceu naquele ano. Em plena ditadura, quem se opunha ao autoritarismo do regime encontrava formas inovadoras de enfrentamento, inspirando-se em movimentos similares que ocorriam no mundo, mas sem copiá-los. Ali, a luta política adquiriu uma dimensão única e a esquerda foi obrigada a repensar suas estratégias, seus métodos de ação e até mesmo seus objetivos.
E talvez isso tenha sido o principal legado dos dias turbulentos de 1968. Os movimentos que, à primeira vista, sofreram uma derrota, já que o AI-5 sufocou as vozes dissonantes e as empurrou para a clandestinidade, preparavam o terreno para a futura democracia. E quando se diz isso, não se trata apenas de um exercício de retórica ou mesmo de “celebração dos derrotados”, como adverte o historiador Daniel Aarão Reis, mas sim de uma análise do quanto as forças do campo progressista aprimoraram seu pensamento e linhas de ação desde então. Foram aquelas manifestações que criaram o ambiente para surgirem mais à frente outras tantas, como o movimento contra a carestia e as greves de operários do fim da década de 70.
Aqueles jovens não quiseram apenas mudar. Eles agiram para que isso acontecesse. E, hoje, diante de um contexto completamente distinto, a esquerda deve refletir a respeito de suas metas e também sobre como alcançá-las. Achar o(s) caminho(s) que não desemboque(m) no devaneio idealista e muito menos no cômodo pragmatismo. Lutar, sem desaprender a sonhar. Como em 1968.



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