O medo dos empresários acabou

Tucanos perdem influência entre os capitães da indústria paulista e assistem a uma mudança histórica no discurso do setor Por Pedro Venceslau Eram por volta das 18 horas do último dia 11 abril quando...

582 0

Tucanos perdem influência entre os capitães da indústria paulista e assistem a uma mudança histórica no discurso do setor

Por Pedro Venceslau

Eram por volta das 18 horas do último dia 11 abril quando Paulo Skaf desceu para a sala de imprensa improvisada no subsolo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Apenas sete jornalistas, quase todos da plataforma online, aguardavam o presidente da entidade para sua primeira entrevista coletiva depois de ser reeleito para mais um mandato, o terceiro, à frente da entidade.

Pouca coisa ali indicava que uma das mais poderosas organizações da indústria brasileira passara o dia com suas urnas abertas. Ao perceber o diminuto número de repórteres, Skaf dispensou o microfone, o púlpito e engatou uma conversa quase informal. A preocupação geral era só uma: precisávamos de um lead. A primeira informação foi o número de votos contabilizados na chapa única, que teve Benjamin Steinbruch como 1º vice-presidente, João Guilherme Sabino Ometto como 2° vice-presidente e o mineiro Josué Gomes da Silva, filho mais novo de José Alencar, na 3° vice-presidência. “Dos 125 eleitores aptos a votar, 121 votaram na chapa. Um deles não compareceu por motivo de doença, outro por viagem e dois votaram em branco”, avisou prontamente uma assessora.

Diante do clima de quase informalidade, a primeira pergunta soou estranha. “O que mudou na Fiesp desde 1989, quando Mário Amato afirmou que 800 mil empresários deixariam o Brasil se Lula vencesse a eleição?”. A resposta foi protocolar. “Amato foi um grande presidente, mas os tempos são outros”. Os jornalistas então arriscaram uma questão mais direta. Afinal, era preciso escrever alguma coisa a tempo do fechamento. “Pretende concluir o mandato na Fiesp até 2015 ou vai se licenciar para disputar a prefeitura em 2012 ou ao governo em 2014?”. Mais uma vez, o prolixo presidente da Fiesp saiu pela tangente. “Não tenho vergonha de estar envolvido com política. O setor produtivo defende a democracia e não existe democracia sem política. Esse paradigma foi quebrado.” Não foi dessa vez. O lead só surgiu quando Skaf se viu obrigado a comentar os rumores de que estaria deixando o PSB para ingressar no PMDB a convite do vice-presidente Michel Temer. “Não digo que é impossível. Tenho filiação partidária no PSB, mas não estou militando no partido. Só tenho que agradecer o carinho do PMDB”. Bingo. Habemus lead.

No dia seguinte, porém, a repercussão foi quase nula. A terceira reeleição de Skaf nem de longe lembrou sua primeira vitória, em 2004. Na ocasião ele venceu Claudio Vaz, que fora apoiado pelo tucano Horácio Lafer Piva, em uma disputa apertadíssima. Aquela foi apenas a quarta eleição na história da entidade em que houve disputa de chapas. “Na falta de um candidato com perfil político forte, a situação optou por um técnico competente. O Claudio Vaz tinha conteúdo, mas não tinha perfil para articulação”, conta uma antiga assessora da Fiesp que acompanhou de perto as eleições de 2004. Resultado: Skaf conseguiu articular os sindicatos patronais e venceu na Fiesp, que é uma entidade sindical, enquanto Vaz angariou apoio apenas entre diretores e venceu na Ciesp, o braço “civil” da indústria. Em 2007, Skaf foi reeleito, só que dessa vez para os dois cargos, como em 2011. Nesse período, a aproximação entre a Fiesp e o Palácio do Planalto foi rápida.

Guinada

Quem acompanha a política de perto certamente reparou a ausência da Fiesp nas eleições do ano passado. A mais poderosa organização empresarial brasileira quebrou sua tradição histórica e não promoveu debates entre os presidenciáveis, redigiu documentos públicos aos postulantes ou exerceu qualquer tipo de pressão. “Acéfala” devido à candidatura de seu presidente, Paulo Skaf, ao governo paulista pelo PSB (Partido Socialista Brasileiro), a federação evitou tomar partido oficialmente. Mas, na prática, o que se viu foi o “socialista” Skaf trabalhando intensamente por Dilma Rousseff. Em outra frente, o interlocutor entre o petismo e os industriais paulistas era Antonio Palocci. A pergunta que se fazia era: quem tinha mudado, os empresários ou os socialistas?

Depois da derrota para Geraldo Alckmin, Skaf reassumiu rapidamente a presidência da Fiesp. E pouco antes do fim do ano, quando Dilma já estava eleita, recebeu Lula para uma derradeira visita na imponente sede da entidade, na avenida Paulista. Sentado ao lado de Skaf e do presidente de El Salvador, Maurício Funes, e diante de uma plateia atenta de empresários dos dois países, Lula declarou: “Já vim mais à Fiesp do que fui à CUT (Central Única dos Trabalhadores) durante meu governo”. Não foi um exagero verbal. A proximidade entre Skaf e o presidente era tão grande que por diversas vezes Lula usou a sala dele na Fiesp para despachar com chefes de Estado e receber empresários.

Para o professor Antonio Carlos Alves, coordenador do curso de Economia e Comércio Exterior da PUC-SP, os primeiros sinais de mudança no perfil radicalmente conservador da Fiesp aconteceram no final dos anos 1970 e começo dos 1980. Nessa época, Lula despontava como líder sindical e se reunia discretamente com a entidade para negociar com o então presidente, Luís Eulálio Bueno Vidigal. “A fase mais dura da Fiesp, o pós-ditadura, termina quando o Vidigal assume. Foi o começo lento e gradual da renovação do pensamento da indústria”. Para o cientista político Rudá Ricci, autor do livro Lulismo: da Era dos Movimentos Sociais à Ascensão da Nova Classe, o ano que marca o primeiro dissenso da Fiesp é 1977. “O Vidigal marca um ciclo mais técnico na Fiesp. Mas ele também tinha habilidade política de negociação e não via as greves como um perigo comunista”.

Anos duros

O auge da radicalização ideológica da entidade, que foi criada em 1931, aconteceu entre 1968 e 1970, quando seus dirigentes eram os principais financiadores da temida “Operação Bandeirantes”, a Oban, o mais violento aparato civil da ditadura. Os cheques que seriam entregues aos militares eram coletados em reuniões na sede da entidade pelo mais popular diretor da Fiesp, Hening Boilensen, do grupo Ultra, que acabou executado pela Ação Libertadora Nacional em 1971. Essa passagem é contada com riqueza de detalhes no premiado documentário Cidadão Boilensen.

Em agosto de 2002, poucos meses antes da primeira vitória de Lula à presidência, a revista Veja conseguiu uma entrevista exclusiva – e rara – com o empresário Mario Amato, que representou outro momento de radicalização da entidade. Em 1989, quando presidia a Fiesp e o Brasil passava pelas primeiras eleições diretas pós-ditadura, Amato disse a antológica frase: “Se Luiz Inácio Lula da Silva vencer as eleições, 800.000 empresários deixarão o Brasil”. Há nove anos, o maior desafio do PT era justamente enfrentar o preconceito dos capitães da indústria e todos queriam saber o que pensava o mitológico ex-dirigente da Fiesp. Então com 83 anos, Amato disse que nunca se arrependera da frase e voltou à carga. “Essa nova estampa é uma fantasia de Lula”. Depois da retumbante vitória petista, os colunistas mais apressados passaram a pregar como um mantra a tese de ruptura do empresariado leal a FHC com as ideias tucanas. De fato, Lula conseguira a façanha de atrair a simpatia de empresários arredios ao petismo, como Emílio Odebrecht.

Depois de passar por uma fase de descompressão ideológica no pós-ditadura, a Fiesp foi duramente atingida pela crise do governo Sarney e o desastroso Plano Cruzado. “A federação perdeu influência política, especialmente no período Collor. Os empresários estavam mais preocupados em sobreviver”, diz o professor da PUC-SP. Ele lembra que, nos oito anos de FHC, os empresários paulistas se mantiveram próximos ao governo federal, mas a relação era bem menos intensa do que com o seu sucessor. “Lula tem uma visão mais pró-indústria que o FHC. O PSDB é um partido complicado, que expressa uma direita anti-nacional.” Rudá Ricci, por sua vez, lembra que a gestão Lula foi marcada por uma relação umbilical do governo com os empresários, demonstrada na criação do Conselho de Desenvolvimento Social. “O Gerdau é, hoje, o ícone do ‘lulismo’. E o Palocci é o homem do alto empresariado de São Paulo no governo. Toda a pauta da indústria passa por ele.”

Até representantes de setores historicamente refratários ao petismo, como o agronegócio, hoje têm um discurso muito diferente. “O nosso setor tem hoje uma boa relação com o governo. Não há preconceito de nenhuma das partes. Antes, ruralistas pareciam uma coisa do mal, um nome feio. Estamos desmistificando isso”, reconhece o deputado federal Moreira Mendes (PPS-TO), presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária da Câmara dos Deputados. Um bom sinal da mudança é a inusitada aliança entre os comunistas do PCdoB e os representantes do agronegócio em torno do Código Florestal. O que diria Mario Amato sobre isso?

Socialismo de resultados

As boas relações de Paulo Skaf com o governo federal e o PT fazem com que ele sonhe alto na política.

A derrota nas eleições para o governo paulista deixou claro que ele só teria alguma chance se tentasse novamente por outra sigla maior e com mais tempo de TV que o PSB. Desde que reassumiu a Fiesp, Skaf envia diversos sinais de fumaça. Chegou a flertar com o PSD de Gilberto Kassab, de quem teria ouvido promessas de voos altos. Mas achou melhor não arriscar. Para Fórum, o senador Valdir Raupp, presidente em exercício do PMDB, reconheceu que ele e Michel Temer “estão conversando” com Skaf, e ambos receberam “sinais claros” de que o industrial tem pretensões em São Paulo.
A notícia foi um alívio para a deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP), que nunca engoliu a presença do presidente da Fiesp no partido. “É natural que ele vá para o PMDB. Skaf está no partido errado e estará mais confortável lá”, afirma. Embora não tenha chance de disputar pelo PT na capital, Skaf conta com dois aliados de peso no partido: Aloizio Mercadante e Antonio Palocci. O problema é que, se decidir concorrer ano que vem, o presidente da Fiesp terá novamente que se licenciar da entidade, o que causaria muito desgaste com seus pares.



No artigo

x