O que Dantas representa

O que Dantas representa Editorial de agosto Por   Vez por outra, a mídia brasileira tem surtos de moralidade. Acontece uma operação gigantesca e com graves implicações, como...

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O que Dantas representa

Editorial de agosto

Por

 

Vez por outra, a mídia brasileira tem surtos de moralidade. Acontece uma operação gigantesca e com graves implicações, como a Operação Satiagraha da Polícia Federal, e lá se vão articulistas, colunistas e repórteres fazerem seus pedidos no balcão. Alguns querem prisão, cadeia para todos os envolvidos, sejam eles quem forem e mesmo que não tenham cometido crime algum. Outros são seletivos, exigem punição apenas para alguns, desculpando ou exigindo mais provas contra os outros.
Mas é difícil para a grande imprensa tratar um caso como o de Daniel Dantas. Tomada de assalto, ela estava desacostumada a falar de tal figura, ainda que tenha sido centro de inúmeros escândalos nos últimos anos. Nesse período, CartaCapital à frente, poucos jornalistas e veículos trataram do banqueiro baiano em suas páginas, e agora é complicado explicar a quem consome as notícias de onde surgiu esse tal Dantas.
Fórum já publicou reportagens sobre o caso, sendo o exemplo mais notório a entrevista com Paulo Henrique Amorim, capa da edição 61. Mas, agora, o desafio a que nos propomos é maior. Descrever como surge e em que condições Dantas cresce e consolida o seu poder. E, acima de tudo, não deixar que o assunto morra, tornando-se apenas um escândalo como tantos que se sucedem no país, fabricados ou não, que desaparecem do noticiário depois que deixa de ser “quente”.
Desde o fim dos anos 80, o Brasil tomou uma série de medidas que, paulatinamente, flexibilizaram e liberalizaram os marcos econômicos do país. Financistas ampliaram seu raio de ação e o Estado abriu espaço para que tecnocratas ligados ao mercado tomassem parte das decisões que têm a ver com o desenvolvimento do país, cerceando qualquer discurso em contrário.
Esse pensamento único, que dominou o cenário nacional durante muito tempo, permitiu a Dantas utilizar todos os instrumentos financeiros possíveis, sempre agindo no limite, e muitas vezes além dele, para perseguir seus objetivos. Ocupou todos os espaços que se puseram à sua disposição. Alguns, aliás, que jamais deveriam lhe ter sido oferecidos, principalmente no que diz respeito às relações com o poder público.
Por isso, esse caso é emblemático. É hora de revermos a legitimidade e a pertinência de determinados mecanismos financeiros, e de regras como a frágil quarentena que separa economistas que trabalham em cargos centrais no governo dos bancos e consultorias privados. Além disso, é necessário buscar o aperfeiçoamento do aparato de fiscalização que previne delitos econômicos. Ignorar isso, e tratar o banqueiro como um grande corruptor sem analisar todas as condições que lhe foram favoráveis, é arriscar que outros tantos como ele surjam nos próximos anos. Definitivamente, é tudo o que o país não precisa.



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