O retrato da convergência entre dois mundos

Para preservar tradições e territórios, o povo Aweti procura caminhos de adaptação às regras da sociedade branca, o que traduz uma das facetas vividas pelas populações tradicionais Por Sucena Shkrada Resk...

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Para preservar tradições e territórios, o povo Aweti procura caminhos de adaptação às regras da sociedade branca, o que traduz uma das facetas vividas pelas populações tradicionais

Por Sucena Shkrada Resk

 

Prestes a completar 50 anos em 2011, o Parque Indígena do Xingu revela os novos rumos de povos que vivem em uma área de 2,8 milhões de hectares e que refletem a luta para preservar as tradições de seus ancestrais em comunhão com a modernização imposta pela sociedade branca. Uma realidade que envolve complexos conceitos de gestão e evidencia a dicotomia do processo dito civilizatório, considerado por algumas lideranças indígenas uma das únicas saídas para que as chamadas raízes não se percam, visto que essas populações não vivem mais isoladas.

Essa experiência é vivenciada por uma aldeia do povo Aweti, no Alto Xingu, localizada nas proximidades do rio Kurisevo, a cinco horas de distância por barco da cidade mais próxima, Gaúcha do Norte, no Mato Grosso. Por meio da constituição de uma associação juridicamente formalizada, a comunidade formada por cerca de cem pessoas busca preservar uma das características mais singulares de sua cultura, que é a produção do sal retirado de aguapés.

O cacique Awajatu, 30 anos, conta que a Associação Indígena do Povo Aweti (AIPA) conseguiu implementar em fevereiro deste ano o Projeto Tukyt – Sal do Índio, aprovado pelo programa Projetos Demonstrativos dos Povos Indígenas (PDPI), do Ministério do Meio Ambiente (MMA). A iniciativa, prevista para ser realizada em 18 meses, recebe recursos financeiros provenientes do banco estatal alemão KFW, para que os próprios indígenas providenciem a assessoria técnica e materiais para colocar os objetivos em prática.

A verba destinada foi de R$ 247.400, sendo R$ 180.745 do PDPI com contrapartida de R$ 66.655,00 da Associação, segundo Odair Scatolini, analista ambiental do MMA. Essa contrapartida se dá por meio dos mutirões de serviços dos próprios indígenas, na produção de bijus, trabalho de barqueiros, assessoria antropológica contratada, entre outros. Atualmente cerca de 150 projetos são beneficiados pelo PDPI no país.

De acordo com o cacique Awajatu, essa foi a única maneira encontrada de conseguir avanços para a melhoria da qualidade de vida local do seu povo. “O medo da gente era que os recursos do aguapé, que fica a uns 7 km da aldeia, estavam diminuindo e poderiam acabar. Com o projeto, estamos aprendendo a colocar em prática um plano de manejo e fazer exploração controlada”, diz. Segundo ele, atualmente estão sendo avaliados se os processos de regeneração estão ocorrendo nos aguapés. O conceito de sustentabilidade está incorporado nas etapas de produção. “Também iremos registrar a produção, mitos e usos do sal para passar às novas gerações, para garantir que nossos netos mantenham a tradição”, afirma Awajatu.

As mulheres da aldeia têm um representativo papel neste processo. Dentro das grandes ocas feitas de palha de buriti, onde vivem com suas famílias, ou em espaços externos cobertos colocam a água salinizada em grandes caldeirões, que fervem sobre fogueiras, até chegar ao estado sólido. Depois é seco, e se transforma em pirâmides de sal utilizadas para consumo próprio ou em trocas com outros povos.

 

Do caminhar a quatro rodas

Com o Projeto Tukyt, os Aweti também adquiram o seu primeiro veículo automotor. É uma savana utilizada para o transporte dos indígenas entre as aldeias e da beira do rio Kurisevo até lá, que totaliza uma distância de cerca de 7 km. O percurso que há décadas era feito a pé ainda tem mais uma alternativa de mobilidade – a bicicleta -, que já integra os meios de transporte utilizados por alguns homens da aldeia.

“Antigamente, a gente andava descalço longas distâncias e fazia mais exercícios, carregava as coisas nos ombros. Hoje, o índio moderno usa chinelo e meios de transporte do branco”, reflete o cacique. As mudanças resultam ainda na opção pelo uso de roupas, sabonetes, como linhas e barbantes para serem tecidos no artesanato de palha. Uma das pessoas da aldeia que ainda resiste a todas essas incorporações é a mãe do cacique, que cultiva o algodão e faz sua própria linha, com destreza, girando o carretel e formando o fio.

Mais flagrantes da introdução da modernidade são incorporados aos meios de comunicação, além do rádio comunicador, que é a maneira em que eles se contatam, há anos, entre as aldeias, o posto Leonardo (um ponto de referência do Parque) e com indígenas, em Gaúcha do Norte. Muitas famílias já adquiriram televisão e parabólica. A energia é restrita, com placas solares, o que faz com que à noite, a única luz que se veja nas grandes ocas, partam de fogueiras acesas para aquecer os corpos dos indígenas, que deitam em redes, nas noites frias e úmidas, uma característica constante, por estarem em uma região de mata nativa.

Brevemente a internet deverá chegar à aldeia, o que hoje é privilégio de acesso principalmente de integrantes da liderança, quando vão ao Posto Leonardo ou em viagens externas, de negociações políticas, culturas ou para as vendas dos artesanatos Aweti, predominantemente de cestaria e tapeçaria. E o audiovisual, como já acontece entre outros povos o Xingu, promete trazer mais uma revolução nos costumes locais. “Neste ano, alguns índios de nossa aldeia participaram de uma oficina para aprender a operar vídeo, que faz parte do projeto Vídeo nas Aldeias, do Coletivo Kuikuro. Já compramos o equipamento, que logo nos será entregue”, explica Awajatu. Eles deverão ser os autores dos registros da comunidade.

Tupi e português

Hoje cerca de 40 índios Aweti, além do tupi (tronco-línguistico), aprendem português. As aulas de alfabetização são ministradas por Awajatu e pelo seu primo Tié. O cacique cursa o terceiro ano do magistério intercultural, que é ministrado na Faculdade Indígena Intercultural, da Universidade Estadual de Mato Grosso (Unemat). “Em dois anos, devo me formar. Levar esse conhecimento do português é uma forma também de ajudar as crianças e jovens a preservarem nossa cultura e saber defender o território em diálogo com os brancos”, pondera Awajatu.

O levantamento das tradições culturais e da língua tupi dos Aweti foi feito pelo linguista alemão Sebastian Velten Drude, doutor em Linguística, da Universidade Livre de Berlim e pesquisador-visitante ao Museu Paraense Emílio Goeldi. “Realizei a documentação entre 2001 e 2005 e o material está inserido no programa DOBES – DOkumentation BEdrohter Sprachen, da Fundação Volkswagen da Alemanha, com visitação controlada e que, futuramente, deverá ser gerido pelos próprios Aweti”, explica o linguista, que os visita anualmente.

Na avaliação de Drude, muitos aspectos, especialmente da cultura material, são influenciados pela sociedade nacional e global, no modo de vida atual dos indígenas. “Isso envolve recipientes, ferramentas, roupas, utensílios em geral, tecnologia inclusive de comunicação e entretenimento. Tem seus reflexos nas atividades econômicas, que hoje incluem a necessidade de ganhar dinheiro, e os papeis sociais de chefia, entre outros”, diz.

De acordo com o especialista, essas influências resultam, inclusive, no surgimento de novos papeis e profissões, pagas ou não, como professor e assistente de saúde. “Mas em geral a forma de subsistência (pesca, cultivo da mandioca etc.), o cotidiano, a educação das crianças, a organização social em famílias extensa, as moradias, e em particular o universo espiritual e religioso (xamanismo, festas e rituais) estão pouco afetados”, afirma.

Por outro lado, alguns aspectos culturais foram enfraquecidos ou perdidos. “Isso ocorreu, menos pela influência imediata dos “brancos”, mas antes pela drástica catástrofe demográfica, nos anos 1890 a 1950, que essa população sofreu. Por exemplo, a rica tradição de cantos foi completamente perdida quando os últimos cantores Aweti morreram nos anos 50”, conta.

Na avaliação de Drude, os efeitos da educação bilíngue dependem, em grande parte, do que se entende por este conceito e como é colocado em prática. “Há muitos exemplos em que a opção bilíngue prejudica a língua tradicional em vez de fortalecê-la. Em geral a educação (pública) direcionada aos povos indígenas tem muitas carências, desde o planejamento e entendimento do que seria uma proposta intercultural de verdade, sem falar da infraestrutura, formação de professores e financiamento em geral muito precários”, comenta.

O antropólogo Rinaldo Sérgio Vieira Arruda, coordenador do Núcleo de Estudos de Etnologia Indígena, Meio Ambiente e Populações Tradicionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), analisa que as imposições na modernidade interferem de maneira concreta no modo de vida indígena. “A organização tradicional não é reconhecida ainda hoje no Estado brasileiro se não tiver registro no cartório”, explica. Esse perfil, segundo ele, difere de países como a Bolívia e Colômbia, que já apresentam aberturas em alguns aspectos de suas legislações.

“A dicotomia sempre irá existir. Às vezes causa conflito interno, que é inevitável, mas por mais profundo que possa ser, não tende a anular a raiz, mas transformá-la”, acredita.

A jornalista Sucena Shkrada Resk visitou com recursos próprios, a Aldeia Aweti, entre 1º e 3 de agosto deste ano, à convite do cacique Awajatu



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