O Rio em busca do legado

Sociedade fluminense terá que se mobilizar para que Copa e Olimpíadas deixem uma herança positiva para a cidade Por Thalita Pires   A história mostra que, mesmo...

432 0

Sociedade fluminense terá que se mobilizar para que Copa e Olimpíadas deixem uma herança positiva para a cidade

Por Thalita Pires

 

A história mostra que, mesmo em períodos de pouca abertura democrática como foi o final do Estado Novo, é possível levar a vontade popular em conta, em processos decisórios. Isso ocorreu, por exemplo, na construção do estádio municipal Mário Filho, o Maracanã, que sediou a final da Copa de 1950. Não é, no entanto, o que se vê agora. Apesar de a organização popular ser forte em todas as cidades que receberão os jogos do Mundial de 2014, tudo que envolve os megaeventos no país é encoberto por uma névoa difícil de desvelar.

No Rio de Janeiro, por exemplo, o projeto da reforma do Maracanã, com todas as mudanças previstas no estádio e a justificativa dos gastos, não é acessível. O traçado dos corredores de ônibus que estão sendo construídos para melhorar a acessibilidade da Barra da Tijuca, onde ocorrerá a maior parte das provas dos Jogos Olímpicos em 2016, tampouco é totalmente conhecido. O número de moradores removidos de suas casas por conta das obras nunca foi divulgado pela prefeitura. Sem saber onde acontecerão as próximas desapropriações, os movimentos populares não conseguem apresentar sua própria estimativa. O número varia entre 30 mil e 100 mil famílias, mas é provável que o real impacto para os moradores da cidade só seja conhecido depois do evento. A prefeitura afirma que já reassentou 12 mil famílias.

O problema não é apenas o desconhecimento quase total sobre as transformações na cidade, mas também a falta de debate sobre o que deve ser feito. A população não foi consultada para discutir opções alternativas aos projetos ou a destinação do orçamento de cada um dos eventos e isso é, na prática, parte inerente daquilo que se entende por megaevento hoje no mundo. Para funcionarem de acordo com a vontade de seus promotores, eles não podem ser transparentes. “Comparo acontecimentos como Copa e Olimpíadas às guerras modernas. Os dois têm que ser vendidos para irem adiante. O marketing feito para convencer a população a aceitar um megaevento é parecido com aquele feito para dar apoio à guerra”, afirma Christopher Gaffney, professor de Planejamento Urbano da Universidade Federal Fluminense (UFF). “Isso acontece porque há interesses financeiros pesados nesses eventos que não podem ser divulgados”, diz..

Há uma série de táticas usadas para impedir a participação das pessoas no processo. O processo de propaganda é longo. Normalmente, há uma empresa de marketing internacional contratada para realizar o plano, apoiada pelos setores que vão de fato se beneficiar do evento, como a construção civil e os comitês organizadores. “Os estudos econômicos usados para convencer a população de que o evento é bom são realizados por empresas privadas contratadas pelos próprios beneficiados”, explica Gaffney. Outro exercício retórico comumente usado é a venda de uma ameaça inexistente, um processo mais sutil. “A população é ameaçada com a ideia de que os benefícios da Copa ou das Olimpíadas vão para outra cidade ou país, o que geraria perdas econômicas e a inexistência de um legado positivo”, conta.

O legado das obras

Normalmente, Copas do Mundo trazem atreladas à sua imagem benefícios para a mobilidade urbana, enquanto as Olimpíadas, além da mobilidade, teriam potencial de desenvolvimento de áreas específicas da cidade, como é proposto em Londres e no Rio de Janeiro. Além disso, há a propaganda de ganhos econômicos e do aumento sustentado do turismo, entre outros benefícios.

Só que esse legado pode não corresponder ao anunciado pelos governos das cidades sede. Em relação aos benefícios físicos – as obras – é muito difícil que aquelas escolhidas como prioritárias para a Copa guardem relação com as que seriam as mais necessárias para a cidade. No Rio de Janeiro, estão sendo construídos três corredores de ônibus semelhantes aos de Curitiba, com estações de embarque no canteiro central e cobrança de passagem fora dos veículos. O Transoeste, que ligará toda a Barra da Tijuca até Santa Cruz, bairro no extremo oeste da cidade, será importante para os cariocas mesmo depois dos Jogos Olímpicos. A Zona Oeste é a região que mais cresce na cidade, mas suas conexões de transporte com o Centro estão muito aquém do necessário. Já o Transcarioca, entre a Barra e o aeroporto do Galeão, e a Transolímpica, que liga a Barra a Deodoro, não atendem às necessidades reais de transporte da cidade. “A prioridade de transporte no Rio deveria estar na conexão da Baixada Fluminense com o Centro. No dia a dia, as pessoas não vão para o Galeão”, acredita Christopher Gaffney.

Se o benefício dos projetos de transporte é duvidoso, o investimento em arenas para os esportes olímpicos é ainda mais controverso. Um exemplo do que pode ser considerado desperdício de recursos é a construção do um novo complexo de esportes aquáticos. O Centro Aquático Maria Lenk será usado apenas para as competições de polo aquático e saltos ornamentais, enquanto o novo complexo abrigará a natação e o nado sincronizado. A questão é que o Maria Lenk foi construído para os Jogos Pan-Americanos de 2007, o que significa que em menos de dez anos a obra se tornou obsoleta. Da mesma forma, é possível questionar a necessidade de reformas no velódromo, também construído para o Pan, e do Maracanã, que já passou por grandes obras em 1999 e 2005. Além disso, o planejamento do uso futuro dessas arenas deve ser cuidadoso. As instalações olímpicas de Atenas, por exemplo, estão em sua maioria abandonadas. Aliás, Atenas foi uma das cidades com mais problemas pós-Olimpíada. “Os investimentos feitos lá previam um grande retorno em turismo. Só que a crise que começou em 2008 destruiu essa possibilidade”, diz Gaffney. “Quando as pessoas não têm dinheiro, a primeira coisa que cortam são as viagens. O turismo é um dos setores mais frágeis da economia”, avalia.

Uma pesquisa elaborada por Patrick Bond, da Universidade de KwaZulu-Natal, na África do Sul; e de Eddie Cottle, do Labour Research Service, na Cidade do Cabo, sustenta que os estudos de viabilidade econômica feitos para justificar a Copa do Mundo na África do Sul têm defeitos conceituais que levaram o país a superestimar o legado do evento. Em primeiro lugar, a estimativa de gastos dos participantes do evento é bruta, e não líquida. Além disso, tal estimativa inclui gastos com consumo dos moradores locais, que movimentariam a economia mesmo que a Copa não acontecesse no local.

Outro equívoco é a alta expectativa em relação ao número de turistas. Isso normalmente acontece porque os turistas regulares evitam o país na época da Copa, por conta dos preços altos. Por último, o efeito multiplicador na economia é frágil, em parte porque não conta com a remessa de lucros das empresas para fora do país e também porque a criação de empregos locais é menor do que o esperado. Em um evento tão curto, é mais fácil aumentar a carga de trabalho daqueles que já estão empregados do que abrir novas vagas. A possibilidade de lucro para o país também é diminuída pelas isenções de impostos exigidas pela Fifa para si e seus patrocinadores.

Na África do Sul, ainda é impossível medir de maneira objetiva os lucros com a Copa. Algumas pistas, no entanto, mostram que o cenário é bem distinto do que o imaginado antes do evento. Em 2003, os gastos estimados do país com o evento foram calculados em cerca de US$ 280 milhões. Esse número subiu para US$ 2,1 bilhões em 2007 e, finalmente, em 2010, para US$ 3,7 bilhões. A contribuição para o PIB do país, prevista para atingir 3%, ficou entre 0,2% e 0,3%, de acordo com o Conselho para Pesquisa em Ciências Sociais do país. É importante lembrar que esse cálculo não leva em conta os prejuízos sociais causados pelas remoções de milhares de famílias de suas casas nem outras violações de direitos humanos, como prisões sumárias, feitas sem julgamento.

A organização do Pan-Americano de 2007, no Rio de Janeiro, teve problemas muito semelhantes aos vistos na África. “O orçamento final foi dez vezes maior do que o original”, afirma Brian Mier, coordenador do Direito à Cidade da Action Aid Brasil. “Mas não podemos analisar o prejuízo só pelo lado do orçamento. Os abusos aos direitos humanos aconteceram no Pan e estão ocorrendo outra vez para a Copa e Olimpíada”, crê. No dia 26 de junho de 2007, dias antes da cerimônia de abertura do campeonato, uma megaoperação no Morro do Alemão deixou 19 mortos e marcou o início de uma política de segurança baseada no confronto. O relatório Segurança, Tráfico e Milícias no Rio de Janeiro, da Justiça Global Brasil, defende que “a política de segurança, visando à realização dos Jogos Pan-Americanos, transformou-se, progressivamente, no tubo de ensaio que permitiu, ao seu término, a transformação da execução sumária em política de segurança”. No ano do Pan, 1.330 civis foram mortos pela polícia do Rio, um recorde no estado.

As oportunidades

Se é consenso entre os especialistas que a falta de transparência acompanha todos os níveis da preparação para os Jogos Olímpicos e Copa do Mundo no Brasil, a pergunta premente é: é possível organizar um megaevento sem atropelar a soberania do país e respeitando a vontade dos cidadãos? Por incrível que pareça, a resposta geral é sim. “A Fifa e o COI exigem muito do país na hora da escolha da sede. Durante a organização, é a hora do país barganhar a seu favor e negociar certas condições”, comenta Christopher Gaffney. De certa forma, é isso que o Brasil está fazendo nesse momento, ao debater, ainda que de maneira tímida, pontos controversos da Lei Geral da Copa com a Fifa.

Erick Omena, pesquisador do Observatório das Metrópoles/Ippur e da Biblioteca Nacional, lembra que a participação popular nunca é dada de mão beijada e deve ser perseguida pelos cidadãos. “Uma maneira de conseguir informações é se aproveitar das arestas que existem entre os entes organizadores, como o embate entre a Fifa e o governo brasileiro em relação à Lei Geral da Copa”, afirma. Outra disputa que pode render frutos para a sociedade se dá entre Globo e Record em relação aos direitos de transmissão do futebol. “O Movimento Fora Ricardo Teixeira ganhou notoriedade na TV por conta dessa disputa”, lembra Omena. O ponto-chave é a sociedade exigir transparência nos processos. “O acesso a informações de obras e processos públicos é um direito constitucional. Deixar a organização acontecer em segredo é antidemocrático”, argumenta o pesquisador.

A população do Rio e o Maracanã

Um debate público profundo e inclusivo fez parte da preparação da cidade do Rio de Janeiro para a Copa do Mundo. Os principais jornais tomaram posição e discutiram as diversas questões envolvidas, como a localização e o tipo de financiamento dos empreendimentos necessários para o evento. Essa situação parece, em 2011, fazer parte da ficção, tendo em vista a preparação do Brasil para a Copa de 2014 e do Rio de Janeiro para o Mundial e as Olimpíadas de 2016. Todas as decisões são tomadas em gabinetes e a transparência passa ao largo do processo. Por isso, revisar a própria história pode ser útil. Mas a discussão que parece interdita hoje ocorreu há mais de seis décadas no Brasil.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisas e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) buscou resgatar a história do estádio mais famoso do mundo, construído para a Copa de 1950, realizada aqui, e mostrou que, apesar da democracia incipiente à época, a participação da sociedade civil no processo foi maior do que agora. “É verdade que grande parte da participação popular na escolha do projeto do Maracanã foi uma estratégia populista, mas, no final das contas, a vontade dos moradores foi mais respeitada no fim dos anos 1940 do que na atual democracia”, afirma o autor do estudo, Erick Omena, pesquisador do Observatório das Metrópoles/IPPUR e da Biblioteca Nacional.

A história da construção do Maracanã começa em 1946, com a escolha do Brasil para ser sede da Copa. Quase imediatamente, a imprensa carioca começou a debater as alternativas possíveis para a construção de um novo estádio na cidade. Até então, o maior estádio disponível era o de São Januário, considerado inapropriado para o evento. Os dois principais veículos que entraram nesse debate foram o Jornal dos Esportes, capitaneado por Mário Filho, e o Correio da Manhã, cuja principal voz era Carlos Lacerda. Sem um projeto imposto pelo poder público, houve espaço para a discussão de diversos aspectos da construção do estádio.

O primeiro deles foi a necessidade ou não de um estádio. Essa questão não tinha apenas a ver com a capacidade da arena, mas também com a defesa da prática de esportes, em alta na época. O custo da oportunidade de tamanho investimento também foi discutido, ou seja, quais poderiam ser as outras destinações do dinheiro usado na construção do novo estádio. Outro ponto dizia respeito à forma de financiamento. As opções apresentadas eram financiamento público ou privado e, se público, bancado pela União ou pelo município.

A questão mais importante do debate, no entanto, se referia à localização. No começo, as opções ficaram restritas a dois locais: a Barra da Tijuca – então conhecida como Restinga de Jacarepaguá – e o Derby Club, no bairro do Maracanã. O projeto da restinga, defendido por Carlos Lacerda, previa a construção de um complexo olímpico. Depois de lançada a pedra fundamental da construção do novo estádio, outro parque olímpico foi sugerido, desta vez em Irajá, às margens da Avenida Brasil. “O projeto do Maracanã defendia, ainda que de forma populista, a interação entre todas as classes sociais. A geral é um exemplo disso”, afirma Omena. “Já a ideia do parque olímpico flertava com o nazismo e com ideais de eugenia”, completa.

A discussão evidentemente não ficou restrita à imprensa. Ary Barroso, que era vereador, advogava na Câmara em favor do projeto no bairro do Maracanã, enquanto Carlos Lacerda, que também era vereador, tentava defender os projetos de seu jornal. A decisão final foi tomada em 1947, quando Barroso levou à Câmara uma pesquisa de opinião realizada pelo então nascente Instituto Ibope, mostrando que a população da cidade apoiava, em sua maioria, a construção de um estádio público no bairro do Maracanã. “Essa pesquisa foi essencial para a aprovação do projeto da forma como aconteceu. Apesar de não ter acontecido uma consulta popular estritamente falando, essa pesquisa foi importante para a decisão”, conta Omena.



No artigo