O triunfo de Evo

Reportagem da Fórum viaja pela Bolívia e traz um retrato do país que reelegeu Evo Morales, as razões do sucesso do líder indígena e as prioridades do país nos próximos anos Por Natalia Viana, da...

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Reportagem da Fórum viaja pela Bolívia e traz um retrato do país que reelegeu Evo Morales, as razões do sucesso do líder indígena e as prioridades do país nos próximos anos

Por Natalia Viana, da Bolívia

 

Pouco antes das eleições presidenciais de 6 de dezembro, caminhar por Santa Cruz de la Sierra, centro-leste da Bolívia, era testemunhar uma síntese do sentimento oposicionista. Pelas ruas da cidade, pichações contra o presidente Evo Morales enfeitavam os muros: “Evo ladrón”, “colla (indígena) maldito”. Mas nos escritórios da afluente elite agrícola, o tom era outro. “Não se pode criticar muito”, disse à reportagem Juan Carlos Quevedo, presidente da Unisoya, associação de produtores de soja do norte do departamento. Como ele, muitos dos agricultores que antes formavam o núcleo da ferrenha oposição preferiam dosar as críticas quando o gravador estava ligado.

Fato é que a oposição chegou enfraquecida às eleições e saiu delas humilhada. Morales – primeiro presidente indígena a governar um país onde 60% da população se diz indígena – arrebatou 63,4% dos votos dentre mais de 5,1 milhões de eleitores, recorde histórico de votantes inscritos. Além de vencer no primeiro turno, o partido governista Movimento ao Socialismo (MAS) garantiu 2/3 tanto na Câmara de Deputados quanto no Senado. O segundo colocado, Manfred Reyes Villa, do Plano Progresso Bolívia-Convergência Nacional (PPB-CN), obteve 27,1% dos votos. Morales só perdeu, com pequena margem, em três dos nove departamentos – Beni, Pando e, claro, Santa Cruz.

O ápice da disputa que prenunciava o fracasso eleitoral da oposição aconteceu no final de 2008, quando os governos dos departamentos da chamada meia-lua (Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija) pararam a Bolívia para protestar contra o corte da receita petrolífera destinada aos governos departamentais. Instalações do governo foram ocupadas e saqueadas por grupos radicais. Um atentado ao gasoduto Brasil-Bolívia causou a redução do fornecimento de gás ao país vizinho. Em Pando, apoiadores de Morales foram massacrados por grupos armados; cerca de 20 pessoas foram mortas e mais de 40 feridas.

Depois de decretado estado de sítio no departamento, o governador Leopoldo Fernández foi preso sob acusação de estar por trás do massacre. E o embaixador estadunidense, Philip Goldberg, foi expulso do país sob acusação de conspiração. Era o começo de uma verdadeira “caça às bruxas” contra líderes da oposição. Os processos judiciais claramente politizados que se seguiram restauraram a ordem em um país à beira da guerra civil. Foi o xeque-mate de Morales.

“Este governo se encarregou de destroçar a oposição. Persegui-la, amedrontá-la e colocar processos em cima dela, acabando com as instituições democráticas. As lideranças que poderiam estar participando da eleição estão exiladas ou foragidas”, disse à reportagem o presidente do Comitê Pró-Santa Cruz, Luis Nuñes Ribera. O seu antecessor, Branco Marinkovic, também teve mandado de prisão decretado sob acusação de arquitetar o atentado contra o gasoduto. Atualmente, está foragido no Brasil, segundo fontes ouvidas pela Fórum.

No pomposo escritório do Comitê Central, sentado à frente de duas bandeiras do departamento de Santa Cruz, Ribera já admitia o fracasso na semana anterior às eleições. Para ele, parte da iminente – e amarga – derrota da oposição se devia à sua própria inabilidade política. “A oposição sofreu um duro golpe nas urnas na última eleição, e desde então tem sido difícil encontrar novos líderes para serem protagonistas de melhora nas perspectivas políticas.”

Crescendo na crise
Mais que a inabilidade da oposição, a prosperidade econômica foi o fator decisivo. Em média, durante o governo Morales, o PIB boliviano cresceu 4,9 % por ano, segundo estudo do Center for Economic and Policy Research, em Washington. Em 2009, ano de crise mundial, a economia do país cresceu mais de 3%, maior índice entre as nações latinoamericanas – palavra do FMI.

“Há mais investimentos públicos, mais obras, isso gera mais trabalho, e assim vamos ganhando apoio de outros setores”, diz Julio Salazar, presidente das Seis Federações Cocaleiras do Trópico de Cochabamba. Para ele, a condução da economia pelo Estado acabou por se mostrar acertada, angariando a simpatia dos eleitores das cidades que anteriormente viam o MAS com “preconceito”. “Antes o partido era impulsionado pelos cocaleiros e por alguns setores, mas agora temos mineiros, comerciantes, intelectuais de classe média.”
Salazar, então candidato a senador pelo MAS – hoje eleito – conversou com a reportagem logo depois do último comício eleitoral no pequeno povoado de Colcapirhua, na periferia de Cochabamba, berço político do presidente cocaleiro. Como em centenas de povoados em todo o país, o encerramento da campanha foi uma festa. Crianças, idosos, estudantes, gente de todas as idades lotavam a pequenina praça, abanando animados as bandeiras azuis do MAS. O clima era de vitória – e olho no futuro.

“Agora é hora de nos prepararmos para a campanha para as prefeituras e governos”, gritava ao microfone o líder departamental do partido governista Movimento ao Socialismo, Feliciano Vegamonte, em meio a coloridos fogos de artifício. Uma das preocupações do MAS para as eleições regionais, que acontecem em abril de 2010, é conquistar as administrações que ainda servem de esteio para a oposição. A grande maioria dos trabalhadores do campo apóiam o MAS, mas a cidade ainda é um desafio para o partido.

Nascido do movimento sindical rural, com os cocaleiros, Evo Morales – que ainda hoje é presidente de honra das seis federações do trópico de Cochabamba – tem o trunfo de ter cumprido muitas das promessas da campanha anterior. A política antidrogas, raiz da popularidade de Morales e da força do movimento cocaleiro, teve uma guinada. Em 2008, os oficiais da DEA americana (Drug Enforcement Agency) foram expulsos do país sob acusação de espionagem. As erradicações forçadas feitas pelo exército foram abandonadas. No ano seguinte, Evo mastigou folha de coca diante de um painel da ONU para pedir formalmente que a planta seja descriminalizada e retirada da lista de estupefacientes pesados. O bordão “coca não é cocaína” virou slogan do governo federal.

“A vida dos cocaleiros teve uma verdadeira reviravolta”, conta Salazar. “Antes havia permanente conflito com o governo, uma briga pela total submissão dos cocaleiros. Agora estamos em paz. As forças-tarefas continuam, mas em coordenação com os movimentos sociais. E nós assumimos um compromisso com a comunidade internacional e especialmente com o nosso governo de controlar o cultivo”, conta Salazar.

Os números impressionam. Segundo dados oficiais em 2008, o nível de erradicações de coca chegou a 6.272 hectares, alcançando a meta de 5 mil hectares e batendo recorde no último quinquênio. Se para a ONU “preocupa” o aumento de 6% nos cultivos de coca em 2008, para o governo ele não chega a ser significativo, e acaba por demonstrar que a presença americana tinha motivações “imperialistas”, termo adotado sistematicamente pelo presidente.
“Estamos melhor sem os americanos”, disse Evo às vésperas da eleição.

“Não mais de joelhos”

Embora tenha amanhecido com cara de feriado, a capital La Paz assistiu à presença massiva dos eleitores às urnas (em todo o país a presença foi de 90%). Pela manhã, as filas dentro das escolas eram enormes e um tanto confusas. Nas ruas, cholas – indígenas Aymará, com as famosas saias rodadas e chapéu-coco – vendiam refrigerantes e salgadinhos para os poucos pedestres sob sol forte.

Grande parte dos que acorreram às urnas no domingo, dia 6, votavam assumidamente por gratidão. Mais que o crescimento da economia, os bônus doados pelo governo no último ano se traduziram em uma significativa melhoria na vida de grande parte dos mais pobres.

“Você já viu aqui em volta? Viu as casas, que pobreza, a rua sem asfalto?”, perguntava Julia Salaba Quispe, sentada no pátio da escola Bautista Savedra, no município periférico de El Alto. “Evo tem que ganhar. É o único que nos dá dinheiro, os outros não davam nem centavo!”. Vendedora de verduras nas ruas da cidade, a família desta senhora de 51 anos recebe 600 bolivianos por mês (cerca de 150 reais) graças à bolsa Juancito Pinto dada aos três filhos. A bolsa, que beneficia mais de um milhão de crianças desde 2006, é um incentivo para que permaneçam na escola.

Sentado em um banco de concreto, com a pele escurecida pelo tempo, o indígena Jairo Huancachui, originário de uma comunidade à beira do lago Titicaca, orgulhava-se dos seus 79 anos. “Antes nós, os indígenas, não podíamos aprender a ler e escrever. Era proibido. Eu vi isso e me lembro”, dizia ele. “Agora há mudanças, estamos sendo reconhecidos. Hoje nós é que governamos. Apoio Evo Morales para o indígena se apoderar da Bolívia”. Como milhares de idosos em situação de pobreza, ele recebe o Bono Dignidad, de 200 bolivianos por mês (cerca de 50 reais) – cuja verba vem justamente da receita petrolífera que antes ia para os departamentos.

Um pouco adiante, Juan Saire Quispe, de 22 anos e alguns amigos mostravam o dedão pintado de azul depois da primeira votação de suas vidas. “Nunca tinha me registrado para votar antes porque não me interessava muito”, diz ele, para quem os governos anteriores “embolsavam todos os recursos da Bolívia”. A diferença, para este ajudante de pedreiro, é que o emprego aumentou: em El Alto, obras públicas de novas escolas e hospitais trouxeram mais trabalho. “Evo está botando a Bolívia de pé, não estamos mais de joelhos”.

A meia hora dali, na zona sul da cidade de La Paz, o colégio Amoretti recebia filas menores de profissionais para depositarem o seu voto. O clima calmo mal escondia a frustração. Muitos, como a psicóloga Ana Maria Calancha, de 54 anos, já se resignavam com o continuísmo, mas declaravam rancor contra o atual governo: “Eu odeio esse homem”, disse ela, para quem a administração teria estimulado o ódio racial. Agora, os mais brancos estariam sendo “preteridos” em cargos públicos e sofrendo preconceito aberto. “Voto nulo, nenhum deles me convence”.

Um país em construção

À noite, após a vitória nas pesquisas de boca-de-urna, Morales discursou diante do balcão do palácio presidencial, ao lado do seu vice-presidente, Álvaro Garcia Linera, e de alguns ministros de Estado. O tom do discurso foi moderado e a festa ficou longe do que seria a celebração de uma “revolução” rumo ao socialismo.

Enquanto um grupo de música andina tocava uma saudação ao antigo império Inca, a fala do presidente reeleito passou longe do tema indígena ou do característico tom de confrontação. Em vez disso, Morales se dirigiu aos “empresários, intelectuais e governantes” da oposição, pedindo que “venham trabalhar pelo povo boliviano, à margem de qualquer reivindicação de caráter regional”. Para surpresa de muitos, ele garantiu que sua gestão será um “governo de diálogo” e saudou em especial seus novos eleitores afluentes: “Diziam que a classe média tinha abandonado o presidente. Falso. Aí está a classe média”.

Na semana seguinte, os escritórios governamentais estavam agitadíssimos. O respaldo nas ruas provara o apoio ao projeto de Morales e um voto de confiança. Mas, para quem conhece a conturbada história do país, isso significa também que os eleitores esperam ver cumpridas as promessas de campanha.

“O compromisso com as comunidades foi feito com base na palavra, não temos nada escrito”, diz Saul Villegas, diretor de exploração das reservas de lítio da estatal Corporação Mineira de Bolívia. “Os moradores do Salar de Uyuni, onde vamos explorar o lítio, estão nos apoiando de boa-fé. Mas sabemos que temos que mostrar trabalho, e trazer melhorias logo, senão eles se voltam contra a gente”.

Além da promessa de industrializar o país com base no gás, no ferro e no lítio – a Bolívia possui a maior reserva mundial do mineral, usado em baterias de longa duração – o MAS tem à frente a tarefa de reescrever todas as leis nacionais, que agora devem se adequar à nova Constituição aprovada este ano.

A Carta Magna estabelece, por exemplo, a eleição para magistrados, o direito das comunidades sobre recursos e o reconhecimento da justiça comunitária praticada por algumas etnias indígenas. As novas leis devem regulamentar tudo, desde o funcionamento dos três poderes até as Forças Armadas e polícia, o comércio e o sistema educativo. Duas semanas depois da eleição, os deputados do MAS já se reuniam em Cochabamba para discutir a nova lei eleitoral. “Agora temos a enorme responsabilidade de aprofundar, de acelerar este processo de mudança”, resumiu Evo durante seu discurso da vitória.

A muitas horas de viagem por uma das estradas de terra mais irregulares do país, a construção da planta experimental no Salar de Uyuni, no sudoeste boliviano, parecia ecoar exatamente as palavras do presidente.

Duzentos operários ajudavam a pôr de pé o enorme prédio que vai servir de local para a primeira etapa de industrialização do carbonato de lítio, a partir de 2010. Toda essa etapa, incluindo a obtenção de magnésio, boro e potássio, será realizada pelo Estado Boliviano. “Cem por cento estatal”, diz Villegas.

Em meio ao som metálico da construção frenética, sob o sol forte e o clima seco do maior deserto de sal do mundo, o engenheiro responsável Marcelo Castro tinha os olhos vermelhos, a fala pausada e o semblante obviamente exausto. “Aqui não vai ter Natal, nem festas, nem ano-novo”, conta. “Trabalhamos 21 dias e folgamos uma semana. Até março a parte de construção vai estar pronta, e em maio, a parte mecânica.”

Olhando para o esqueleto do prédio em construção através de uma janela de vidro, ele poetizava: “O lítio será a luz que vai levar a Bolívia ao desenvolvimento”. Ainda mais agora: “O triunfo de Evo nos obriga a acelerar as obras, a industrializar já, não podemos parar nem demorar. É um compromisso que a gente tem que realizar em nome de todos os bolivianos”.

Casado, pai de três filhas, Marcelo encarna pessoalmente o espírito incansável que se espera do segundo mandato do presidente indígena. Não tem um só dia em que, além de coordenar a construção da planta experimental, não receba pelo menos um grupo de jornalistas – japoneses, estadunidenses, europeus. Mora na fábrica, e raramente consegue voltar para sua casa, em Sucre, onde vive a família. “Primeiro está o país”, diz ele.

O medo dos agricultores de Santa Cruz
“A maioria dos brasileiros prefere não dar entrevistas”, diz o curitibano Cesar Tillman, produtor de soja radicado na Bolívia há 15 anos. Ele conversou com a reportagem na sede da Unisoya, um espaçoso escritório em uma das largas avenidas de Santa Cruz, dias antes da eleição. Principal produção agrícola para exportação, a soja rende cerca de 400 milhões de dólares por ano à Bolívia. Cerca de 30% da superfície cultivada pertence a brasileiros, segundo a Associação Nacional dos Produtores de Oleoginosas (Anapo).

De certa forma, Santa Cruz tem mais a cara desses sojeiros do que dos indígenas do altiplano ligados a Morales. O clima quente, as gigantes picapes 4×4, as lojas de grife e os diversos restaurantes de comida brasileira lembram mais o Mato Grosso que a Bolívia. “Aqui me sinto boliviano, brasileiro, nem sei, mas aqui me sinto em casa. Nós raramente vamos a La Paz, lá é tudo diferente”, diz Raul Amaral Campos Filho, presidente do Fiocruz, instituto dedicado à pesquisa e ao desenvolvimento de grãos de soja.

Sejam brasileiros ou bolivianos, os agricultores de Santa Cruz mantêm as críticas e temem o segundo mandato de Morales – mas, diante da atual conjuntura, preferem ser moderados nas palavras. Para eles, o maior problema é o limite de 5 mil hectares para novas propriedades agrícolas, estabelecido pela Constituição aprovada em 2009. “Não vou nem falar de terra, porque tem problema aqui, já não pode ter muita terra”, diz Raul Amaral Campos Filho, ao ser questionado sobre suas propriedades. “São 5 mil hectares, né?”.

Outro grande problema é o que chamam de “insegurança jurídica” causada pela nova Constituição, que também diz que as propriedades têm que cumprir função não só econômica, mas social. “Se você não está em dia com os impostos ou se tem uma multa não paga, nem tem negociação, já pode ser motivo para tomarem a terra. E é difícil adequar tudo, é muito desordenado”, diz Cesar Tillman.

Além disso, ele resume o sentimento de muitos quando diz que o governo de Morales acirrou os ânimos dos indígenas locais. “A gente já ouvia coisas como ‘vocês vêm aqui roubar nossa terra’, mas agora ouve mais”. Acuados, os agricultores preferem esperar para ver. “Ainda não sabemos que tipo de governo ele vai ser, se vai mais pro lado do Chávez ou do Lula. Espero que seja mais moderado”, resume Raul.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 82. Nas bancas.



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