Os ecos de uma história que não acabou

Fernando Morais, autor de Os últimos soldados da Guerra Fria, livro que conta a história da contra-espionagem de Cuba em solo estadunidense e da rede terrorista que tinha como objetivo desestabilizar o regime cubano,...

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Fernando Morais, autor de Os últimos soldados da Guerra Fria, livro que conta a história da contra-espionagem de Cuba em solo estadunidense e da rede terrorista que tinha como objetivo desestabilizar o regime cubano, fala sobre a obra, jornalismo, novas tecnologias e direitos autorais

Por Glauco Faria e Renato Rovai

Fórum – Em que momento você percebeu que os personagens que estão em Os últimos soldados da Guerra Fria tinham um contexto possível de se romancear?

Fernando Morais – Só fui descobrindo na medida em que fui trabalhando e descobri que a história era muito melhor do que imaginava originalmente. E na hora em que eu ouvi a noticia da prisão deles, estava dentro de um táxi, em 1998, e ela apareceu em meio a um monte de notícias sobre diversas guerras, pois era noticiário internacional, e o locutor falou que dez cubanos acabavam de ser presos em Miami pelo FBI, acusados de infiltração. E comentei com a minha mulher que era uma história terrível.

Vou muito a Cuba, e cada vez que eu ia lá, batia na porta de meus amigos e dizia que queria saber dessa história. No começo, eles sequer reconheciam que os caras eram agentes. Depois, disseram para eu “tirar o cavalo na chuva”, porque não daria para apurar. Mais à frente, acho que entendi porque eles demoraram tanto para me liberar o material. Eles eram originalmente treze, e três escaparam na hora da detenção, porque as prisões foram feitas simultaneamente, e como foram feitas na madrugada de sexta para sábado, três não estavam em casa e conseguiram escapulir. Muito provavelmente, ficaram algum tempo nos Estados Unidos tentando sair, porque a vigilância aumentou muito, e a polícia já sabia quem era.

Provavelmente os cubanos não quiseram mexer nesse assunto enquanto não tirassem esses três caras de lá. Acho que foi isso. Mas, de qualquer maneira, eles só disseram que estava autorizada a liberação da documentação secreta em 2007, muitos anos depois. E por essas “leis de Murphy da vida”, quando eles autorizaram, não pude pegar, porque estava trabalhando na biografia do Paulo Coelho, já tinha recebido dinheiro da editora, e precisava entregar a mercadoria. Pedi que jurassem que segurariam aquilo para mim.

Cumpriram o prometido e só em 2008 comecei a trabalhar. E aos poucos fui descobrindo que não só tinha um livro, mas um livro muito sedutor, porque ao mesmo tempo em que tem uma coisa política da primeira à última linha, também tem muita coisa humana, do traço latino dos agentes. Estamos acostumados com aquela frieza, aquelas coisas impessoais; lá os caras sentem saudades, se apaixonam, pedem autorização para casar, entre outros. E fui aos poucos descobrindo que tinha uma história com muitos ingredientes saborosos, com fundo político, e cada entrevista a mais que eu fazia surgia um novo enfoque, uma nova passagem.

Fórum – Ali, você achou que poderia nem dar um livro?

Fernando Morais – Achei que podia nem dar um livro, ou talvez desse uma matéria. Mas, na primeira viagem que fiz a Cuba descobri que era livro, e descobri que não bastava Cuba para eu escrever este livro, metade da história estava nos Estados Unidos.

Fórum – Você foi quantas vezes a Cuba e Miami na época?

Fernando Morais – Acho que perto de vinte vezes. E a grana começou a acabar, porque era tudo muito caro, passagem de avião, hotel, comida, táxi, tudo isso. E eu tinha recebido um adiantamento bom da Companhia da Letras, mas moí em pouco tempo. O dinheiro acabou, e corri o risco de morrer no meio do caminho. Quando falei com o Luiz [Schwarcz], da Companhia das Letras, e ele falou “olha, tem um cara aqui em São Paulo, jovem, não deve ter nem trinta anos, que é muito parecido com o Kaká, jogador de futebol. Ele é um jovem investidor que compra argumentos para transformar em filmes”. Tive um encontro com ele e não tinha nada escrito. Já tinha a história quase toda na cabeça, ainda tinha muita gente para entrevistar, mas sabia que era uma tremenda história. Então, fiz uma sinopse de uma página para ele, que comprou. Salvou o livro. Foi isso que permitiu que eu terminasse o trabalho, não imaginei que fosse conseguir vender uma adaptação sem ter uma linha escrita.

Fórum – Você entrevistou longamente a mulher do piloto que parecia o ator Richard Gere, Ana Margarita Martínez, e você mostra muitos detalhes, como o que ela pensava naquele momento…

Fernando Morais – Até a última trepada deles ela me contou, e ela pensou em ter um filho dele depois que ele voltasse daquela viagem…

Fórum – É um contexto de uma investigação que envolve o governo cubano, o FBI, ou seja, as pessoas, imagina-se que ela estivesse mais fragilizada para essa entrevista.

Fernando Morais – Nesse caso, particularmente, é como se ela tivesse feito psicanálise, e na maioria dos casos isso acontece. Com os mercenários, por exemplo, mesmo depois que já tinham liberado as documentações, eu queria entrevistar um deles que foi preso em decorrência da atividade. Se pudesse escolher, gostaria de falar com o Cruz León, por uma bobagem, mais porque eu tinha conseguido uma foto dele como guarda-costas do Ricky Martin, e pensei, “bom, pelo menos tenho uma foto desse cara antes; dos outros, não vou ter fotos do antes e depois”.

Fui entrevistá-lo e confesso a vocês que achava que ficaria lá meia hora. Nós fomos sozinhos, não sei se tinha grampo, se não tinha, ou microfone escondido, e a primeira coisa que eu perguntei foi se ele estava ali para falar por vontade própria ou se o tinham forçado. Porque, se ele não quisesse, disse que ficaria ali cinco minutos e sairia dizendo aos caras que estava tudo resolvido. E continuei: “o crime que você cometeu, já está pagando por ele, não precisa falar comigo se não quiser”. E ele respondeu que estava precisando desabafar. Fiquei um dia com ele, o que me rendeu dois capítulos. A história dele dá um livro. É impressionante, tem a morte do pai, militar em guerra… Então eu disse “poxa, Raúl, você me parece ser um cara inteligente, como você aceitou matar gente por 1.500 dólares, pessoas que você nunca viu na vida? E não só tirar a vida dos outros como correr o risco de tirar sua própria vida, como o que está acontecendo agora. E ele respondeu que não havia feito isso por dinheiro, nem por qualquer ideologia, e disse nem saber que o segundo homem de Cuba era seu xará (referência a Raúl Castro, irmão de Fidel). E ele respondeu que fez isso, pois queria parecer o Silvester Stallone no filme O especialista. E então, comecei a pesquisar sobre o Stallone, quais filmes o tinham inspirado etc.

Acho que se você consegue transmitir certa sinceridade, um sentimento de honestidade para o entrevistado, e cria uma cumplicidade naquele momento, como com a mulher do [Juan Manuel] Roque foi a mesma coisa. Fui honesto com ela e disse que já o havia entrevistado, em Cuba. Ela deu a entrevista com muita raiva dele, queria desabafar. Não é incomum encontrar entrevistados que estão querendo um pouco de psicanálise na hora que falam com você. No fundo, falam com eles próprios. É o se ouvir falar de si mesmo. Isso ajuda muito a tirar intimidades como estas, nunca havia visto aquela mulher na vida, e ela ali me contando o que estava sentindo enquanto o cara dava a última trepada com ela, minutos antes de abandoná-la para sempre. Estava considerando como uma lua de mel, eles casam, ele pega emprestado um avião, pilotando, e vão passar a lua de mel em uma ilha nas Bahamas, quase como um sonho. Uma pessoa que saiu de Cuba pequena e passou a vida naquele inferno…

Fórum – Essa Operação Vespa, que você investigou, na sua opinião foi uma das muitas operações que Cuba teria mantido nos Estados Unidos ou foi uma ação isolada?

Fernando Morais – Não, a Operação Vespa foi uma ação isolada, mas deve ter havido outras, até porque eu já tinha desenterrado uma história dessas. Em 1977, estava esperando o Fidel – e foram dois meses esperando – para que ele saísse em uma capa da Veja, e um jovem diplomata me acompanhava, me levava para os lugares, e marcava entrevistas para mim. Não tínhamos o que fazer, então íamos jogar sinuca no lobby do hotel esperando que alguém do palácio me chamasse pra dizer que iria acontecer a entrevista.

Entre as conversas que tínhamos, ele me contou a história do pai, que era uma história incrível. O pai foi lutar na Serra Maestra e desceu de lá com a patente de comandante, não eram muitos, eram poucos que tinham essa patente. Foi ser ministro dos Transportes, algo do gênero. Era do primeiro escalão do governo revolucionário, e foi se afastando do governo, primeiro por conta dos fuzilamentos; depois pelo socialismo. Foi para os Estados Unidos, depois recrutado pela CIA, e começou a fazer viagens de lancha rápida, levando armas e outros equipamentos para Cuba até que a CIA o matou em alto mar, bombardeando a lancha em que ele estava. Ele era um infiltrado. Foi preparado pelo Fidel, pelo Raúl, não me lembro quanto tempo, um ou dois anos, passou esse período transmitindo informações da CIA para Cuba, prevenindo ações contra o país, até que a CIA descobriu que ele era um agente e o matou em alto mar.

Fiz essa matéria, e a vendi para alguma revista do Brasil, 30 anos atrás. Isso me leva a supor que hoje não tem tantos motivos para que haja grupos infiltrados cubanos, pois os ataques acabaram depois da Operação Vespa, e após o 11 de setembro, que acabou aumentando um pouco o rigor em relação aos grupos aramados. E até porque tem um negócio impressionante. No informe que o Fidel manda para o então presidente Bill Clinton, no último parágrafo, diz o seguinte, não exatamente com essas palavras: a desenvoltura com que os grupos terroristas se organizam e circulam pela Flórida, com a leniência do governo americano, hoje, é um problema para Cuba, mas isso está se convertendo em um problema para os Estados Unidos. Este é um documento de 1998. Três anos depois, a Al Qaeda joga os aviões nos prédios e no Pentágono, e onde é que todos os caras viviam? Na Flórida. Onde eles fizeram curso de pilotagem? Na Flórida.

É um negócio profético, Fidel cantou a bola dizendo que ia acontecer, e não deu outra. Depois, os Estados Unidos aumentaram muito o rigor com a questão das armas, dos explosivos. Nessa época, você podia comprar em Miami, uma AK-47 pela internet, bastava um documento de identidade e não ter folha corrida na polícia. Chegava na sua casa uma semana depois. Era uma liberaridade muito grande, e os Estados Unidos têm um negócio muito grande com as armas. Mas não era um revólver que o cara coloca na cintura ou deixa guardado em casa para se proteger, é uma AK-47, uma submetralhadora.

Isso tudo passou a ter um controle maior. E por isso não vejo onde Cuba possa ter hoje infiltrados, porque a Guerra Fria acabou mesmo.

Fórum – Sobre a questão do “fazer o livro”, você mencionou que você trabalhava com um material sensível para as autoridades de Cuba, mas para os Estados Unidos também. Como que foi essa relação com as autoridades para obter as histórias, os documentos, tanto da parte de Cuba como dos Estados Unidos?

Fernando Morais – Quanto às autoridades cubanas, depois que me prometeram que iriam entregar todo o material que tinha sido autorizado, demoraram alguns meses, anos eu diria, para depois me entregar três coisas. Uma foi a cópia do dossiê que o Fidel mandou para Bill Clinton – na verdade o que o Gabo [Gabriel Garcia Marquez] leva é o envelope com sete páginas datilografadas escritas pelo Fidel, sem assinatura, mas o dossiê é um contêiner, um caixote. E eu queria cópias disso com papeis e com discos, CDs de áudios e imagens. Os grampos, as transcrições em papel e o áudio. Tinha fotos e vídeos feitos clandestinamente de encontros dos patrocinadores com os mercenários. Enfim, uma série de documentos. Assim, primeiro, eles demoraram para me dar isso; segundo, a cópia do informe do Gabo, que ele escreveu para o Fidel, de aproximadamente 4 mil palavras, após o fim da operação; e a terceira dificuldade foi entrevistar o mercenário.

Nos Estados Unidos, primeiro, havia certo mal-estar do pessoal de extrema- direita, porque eu telefonava e pedia para marcar audiência e, claro, jogavam meu nome no Google e criavam empecilhos. Pedi ajuda para os jornalistas americanos ou correspondentes estrangeiros com quem eu tinha feito relações para me ajudar na aproximação com esses caras.

O pessoal do FBI que eu procurei, que fizeram a primeira campana e depois as prisões, quase todos estão aposentados, e sempre era necessária a apresentação de alguém. Os primeiros que procurei sempre diziam que não podiam falar, que era proibido, e mesmo estando aposentado o contrato impede que você trate publicamente de assuntos desse objeto de investigação. Até que eu peguei um de origem cubana, mas norte-americano, que foi menino para lá e que já tinha estado no Brasil. Quando mataram a irmã Dorothy Stang, ele veio oficialmente ao Brasil como funcionário do FBI. Ele me deu dicas como, por exemplo, as tais informações que eu deveria levantar com a pasta de número tal, se eu estava procurando tal coisa sobre X, para eu ir ao arquivo da Justiça federal de Miami. Dizia também, vai a Nova York e fala com fulano de tal.

Quem me ajudou bastante também foi o Larry Rother. Liguei para ele, mandei um e-mail, alguma coisa assim, e ele foi muito gentil, me recebeu no jornal e foi uma entrevista muito legal. Também me deu dicas, me perguntou qual era minha lista de entrevistados, mostrei e ele disse: fala com fulano, beltrano etc. Fui meio que construindo do lado de Miami algumas relações, firmando algumas bases de apoio que me ajudaram muito. Além disso, tinha uma jornalista colombiana ágil, esperta, que é correspondente em Miami de um jornal da Colômbia que começou a trabalhar para mim, remunerada, marcando entrevistas, já que tinha muitas relações com a comunidade cubana. Facilitou muito as coisas.

Fórum – Depois de fazer o livro, hoje, você tem um palpite para o fim dessa história? E aquele rapaz que poderia ser executado em Cuba, a pena dele foi comutada para perpétua?

Fernando Morais – Não, foi comutada para trinta anos, em 2028, ele será solto, vai sair de lá um ancião. Agora, o que eu acho que pode acontecer: se o Obama for reeleito no ano que vem, pode fazer uma troca, uma coisa que era muito comum na Guerra Fria. A Flórida é bastante importante para as eleições norte-americanas, foi lá que o Bush Jr. ganhou do Al Gore. Se ele fizesse isso agora, mexesse nas penas ou fizesse as trocas entre eles, ele declararia guerra à Flórida, à comunidade cubana do estado. Como nos Estados Unidos o sujeito só pode se eleger duas vezes, mesmo que não seja sucessiva, ele não pode mais ser candidato, não tem mais que beijar a mão da tigrada de Miami, pode tomar certas atitudes como liberar pessoas. O Jimmy Carter é um defensor disso, participei de uma coletiva que ele estava dando, não fiz perguntas, pois não estava como jornalista, mas o ouvi. E ele declarou que chegaria a Washington e iria procurar o presidente Barack Obama e propor um indulto já que esses prisioneiros em nenhum momento espiaram os Estados Unidos, só analisaram as organizações que estavam colocando bombas em Cuba. E, além do mais, é preciso considerar que houve um erro judiciário.

Então, acho que se o Obama se eleger no ano que vem, vai soltar todos. E Renê será libertado agora, em outubro, mas vai ter que ficar três anos ainda nos Estados Unidos em liberdade condicional.

Fórum – Existe essa percepção também em relação à questão do estado palestino, de que o Obama teria mais liberdade em um segundo mandato…

Fernando Morais – Eu sempre faço essa referencia, só tem um lobby nos Estados Unidos que é mais forte que o cubano, o lobby judaico.

Fórum – Você acredita que o Obama em um eventual segundo mandato possa ter mais liberdade. Inclusive para distensionar, até chegar a acenar com o fim do bloqueio?

Fernando Morais – Acho, sim. O Jimmy Carter disse outra coisa, nessa mesma coletiva em Havana, que ele considera um erro do Bill Clinton ter assinado a lei de Helms-Burton, porque na verdade é a implantação de fato do bloqueio. E o próprio Clinton reconhece que tinha também razões eleitorais envolvidas, ele diz na sua autobiografia que, além de dar uma lição aos cubanos, não poderia deixar de confessar que aquilo ali poderia ajudar, afinal de contas era um ano eleitoral. Eram razões subalternas, que não têm nada a ver com Cuba, com o socialismo, com o comunismo. Razões que têm a ver com a economia doméstica dos americanos.

Fórum – E como você analisa a situação de Cuba hoje?

Fernando Morais – Olha, está começando a se produzir mudanças lá dentro, de natureza econômica, que no fundo são correções de rumos. O processo de implantação do socialismo em Cuba foi de um radicalismo só visto em revoluções como a Revolução Russa e semelhantes. Eles estatizaram tudo, não ficou um pé de couve privado. Um negócio impressionante, as primeiras vezes que fui a Cuba, tinha meia dúzia de táxis, que era o que sobrava do capitalismo, o cara ser dono do seu próprio táxi, e todos caindo aos pedaços. Tem um caso que me parece muito exemplar dessa situação: existia em Cuba antes da Revolução uma rede de quiosques e carrinhos, tipo carrinho de pipoca, que era de um único dono, um velhinho riquíssimo que não fugiu e está hoje em Cuba, é gerente de um restaurante, funcionário do Estado. Quando triunfa a Revolução, é criado um organismo no ministério da Alimentação para administrar essa rede, o “Rei da Papa Frita”. Não podia dar certo, não é? Isso está acabando.

Agora, quanto à mudança política não vejo nenhuma perspectiva enquanto tiver bloqueio. Liberdade de imprensa, como o mundo ocidental conhece, liberdade de organização ou pluripartidarismo… Cuba entende a relação com os Estados Unidos como um estado de guerra, e tem montanhas, cordilheiras de razões para se pensar assim. Conheci pessoalmente algo que eu conhecia até agora por leituras. Quando o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial, o Getulio [Vargas] proibiu o jornal de japoneses, italianos, alemães, eram inimigos. Isso não significa que seja favorável, mas eu entendo. Entendo e sei por que é assim. Pode ser que amanhã os fatos me desmintam.

Fórum – Há pouco tempo, Cuba tinha uma juventude muito desencantada, isso ainda permanece? A revolução envelheceu ou não?

Fernando Morais – Pois é, mas se você atravessar o estreito da Flórida e for a Miami, vai ver um fenômeno muito parecido com esse, com polo invertido. Agora, depois que eu publiquei o livro, o Pablo Milanez foi cantar em Miami, na Arena American Airlines, e tinha meia dúzia de velhinhos do lado de fora protestando e quinze mil jovens lá dentro batendo palmas, chorando, se emocionando. E o Pablo é um cara unha e carne com a revolução. Essas mudanças econômicas que o Raúl está começando a implantar pode ser que de novo capturem os jovens. Também tem uma coisa que precisamos considerar: a geração anterior viveu os dois períodos, viveu o momento que Cuba era tratada como país de quarta categoria e, de uma hora para a outra, houve uma revolução que deu tudo para todo mundo. Esses que chegaram agora já têm educação garantida, com saúde garantida, com tudo garantido, e querem mais. Não importa que sejam óculos Rayban, não importa que seja calça jeans, não importa que a menina esteja querendo calcinha de nylon, ou perfume. Obviamente que ninguém vai defender que isso seja o motor e o objetivo da vida de uma pessoa, mas faz parte, é natural que um jovem queira guitarra, que queira essas porcarias de Ipod, Iphone. É natural que se queira.

Fórum – E tem as restrições à liberdade de imprensa.

Fernando Morais – E além das limitações, é uma imprensa horrorosa do ponto de vista jornalístico. Dizia a algumas pessoas do governo cubano para que me ajudassem nas entrevistas, mas falava que não iria fazer um editorial do Granma, e sim um livro-reportagem. Eles estão acostumados com outro tipo de jornalismo. Tem mazelas, horrorosas, mas você não pode ver só um lado das coisas.

Fórum – Sim, mas para nós, que trabalhamos com a informação…

Fernando Morais – Mas, antes da existência da internet, que liberdade de imprensa existia? Você vai trabalhar na Folha e dizer que o Otavinho é ladrão? Você vai trabalhar na Abril, na Veja, e denunciar que qualquer um deles é ladrão?

A liberdade de imprensa que o mundo ocidental conhece é a liberdade de quem paga as contas no final do mês. A imprensa está a serviço da ideologia de quem paga o salário. Você pode até fazer uma pequena concessãozinha, colocar um cara de esquerda para escrever em um jornal conservador, mas sem dúvida a imprensa está a serviço e junto dos interesses de quem paga as contas. A internet provocou uma revolução nisso, eu achava que a liberdade de imprensa nos meios eletrônicos ia ser conquistada nas tribunas, nas bancadas, nas passeatas e a tecnologia andou mais rápido que a ideologia. Com a internet, você pode ser o seu próprio Roberto Marinho. Se tiver uma linha telefônica, um notebook e o que dizer, no dia seguinte tem um milhão de espectadores e leitores. Nós, os jornalistas, empregados e patrões, ainda não percebemos a dimensão disso.

A internet deve pulverizar os conceitos que nós temos de liberdade de expressão, o que é ótimo. Sou um apaixonado por internet. Sou um pouco troglodita ainda, não tenho Twitter, nem Facebook, não sei como funciona. Em relação ao blogue, agora estou pensando em começar. Tenho um sitezinho, que é um site de autor, onde as pessoas compram meu livro, tem um local para quem quiser mandar algum recado para mim, mas estou pensando em fazer outra coisa. Sou um entusiasta da facilidade da internet. Os blogues mais vistos no Brasil chegam a ter por dia 1 milhão, 1,5 milhão de acessos, e se você juntar os três maiores jornais do Brasil, não chega a um terço disso. É um negócio avassalador. 77 milhões de brasileiros veem a internet todos os dias.

Fórum – Mas tem outro lado, aqui no Brasil, por exemplo, se permite propriedade cruzada dos veículos de comunicação, e tem a televisão que pauta muito a internet. E você também faz parte do conselho da Telesur. Como você vê essa experiência e a questão da concentração da mídia aqui no Brasil?

Fernando Morais – A Telesur é a nossa Al-Jazeera, com uma vantagem sobre a Al-Jazeera. A Al-Jazeera é de um governo, do governo do Catar e, portanto, é propriedade do príncipe. Já a Telesur é propriedade de seis países, seis governos, que contribuem para ela funcionar. Está em Caracas, porque está, poderia estar em Buenos Aires, em Assunção. O Brasil não quis entrar, acho que foi um erro, pensava-se que iria ter outra TV da América Latina, que não vingou. E a Telesur está dando furo no mundo inteiro; na Líbia, todos os dias você via imagem da Telesur. Trata-se de uma experiência riquíssima, que só teria sido possível em uma América Latina com a cara que ela passou a ter nos últimos anos. É uma pena que não seja transmitida no Brasil, que não faça parte das grades das televisões a cabo.

Quanto ao problema da propriedade cruzada, o Brasil talvez seja um dos poucos países do mundo em que isso ainda seja permitido. Se você é dono de uma televisão, de um jornal e da rádio, você mata o jornal vizinho. O Globo teria se transformado no jornal que se transformou se não fosse da Rede Globo? Dificilmente. Isso é danoso para a sociedade.

Fórum – Agora temos um debate sobre regulamentação da mídia.

Fernando Morais – Sou favorável, já disse isso. Acho que tem que ter, como tem no resto do mundo civilizado, e não estou falando de Cuba, estou falando dos Estados Unidos. Se você conseguir implantar no Brasil a regulamentação dos Estados Unidos sobre meios de comunicação eletrônicos, é uma revolução. Primeiro, porque uma televisão de alcance nacional não pode produzir sozinha o seu conteúdo o dia inteiro, tem que dar uma porcentagem, que é cada dia mais alta, para a produção regional. Para quê? Para evitar uma espécie de colonização interna, não se pode transmitir para o sujeito que está no interior da Amazônia ou no interior do Rio Grande do Sul o Ipanema’s way of life, ou o Morumbi’s way of life, são outras culturas. E é bom para que as pessoas que estão em Ipanema ou no Morumbi saibam o que é a vida das pessoas que estão na Amazônia ou em outros lugares do Brasil.

Acho que a tendência vai ter que ser essa. Só que eu acho que isso, depois de um certo tempo, vai perdendo a importância diante da internet. Meios como TV e rádio vão perder a importância diante da internet. O computador está cada dia mais barato, você compra um por R$ 60 por mês nas Casas Bahia, uma linha telefônica por R$ 20.

Fórum – Você também acompanhou um pouco os debates sobre os direitos autorais…

Fernando Morais – Estou pensando em fazer uma experiência, que só não coloquei em prática porque estava terminando o livro e depois no lançamento não parei em São Paulo, estou viajando para diversos lugares. Pretendo pegar um dos meus livros, disponibilizar na rede e dizer o seguinte: esse é o meu trabalho, não tenho banco, não tenho boi, não tenho indústria, vivo disso. Pague o que achar justo. Se você não tiver dinheiro e quiser ler, leia sem pagar. O meu objetivo é atingir o maior número de pessoas possível, e vou poder medir, até esse livro entrar na web, quanto é que ele estava vendendo nas livrarias, e quanto foi lido depois.

Fórum – Isso você vai negociar com a editora?

Fernando Morais – Não, posso até pegar uma hora que acabar o vínculo, os contratos são de cinco, sete anos, renováveis, e posso dizer que não quero renovar. Então, vamos supor que vença o contrato de Corações Sujos. Explico para o Luiz [Schwarcz] que quero fazer uma experiência por três anos, colocar o livro na rede dizendo que, se o leitor fosse comprar em livraria seria tanto, mas naquele espaço ele pode pagar o que considera justo. E dependendo do resultado, pode ser que eu escreva um livro exclusivamente para disponibilizar na rede, não coloque em livraria. Se não der certo, suspendo.

Agora, tem uma coisa que precisamos considerar. As grandes editoras brasileiras que puseram o livro dos seus autores em versão e-book, e até agora é um desastre. Sei de editoras gigantes, que até agora venderam de todos os autores, 6 mil exemplares. Vi o Ruy Castro fazendo uma coluna sobre isso, dizendo que outra grande editora de livros vendeu até agora 700 exemplares de e-book.

Fórum – Um livro como esse que você está lançando agora, além de um investimento pessoal, tem um investimento financeiro. Quanto custa fazer um livro desses?

Fernando Morais – Esse livro custou mais ou menos uns R$ 250 mil, fora o meu trabalho, aí estou colocando uma remuneração pequenininha. Na verdade, me mantenho com minha lista de livros, como o livro do Paulo [Coelho], que está publicado em 41 países, e a cada três meses chega um relatório da agência com um dinheiro satisfatório. Mas é um negócio que é muito imprevisível, porque o livro pode não dar certo.

Fórum – Você já teve experiências negativas?

Fernando Morais – Não. Tenho dez livros, e nenhum dos meus dez livros deixou de entrar em listas de mais vendidos. O que é uma sorte. Não é que estou fazendo livros de piadas, por exemplo, são livros até densos demais para a média do padrão brasileiro. Às vezes até acontecem casos curiosos, em que o veículo ignora solenemente o livro, e é obrigado a me engolir na lista de mais vendidos. Na Veja, por exemplo, com esse livro, não tem uma sílaba sobre ele e entrei pela porta da frente, estou na lista de mais vendidos. Mas, na primeira semana que o livro saiu nada se falava.

Fórum – E que experiência que você tem tido na divulgação desse livro? Você tem sido procurado por outro tipo de veículos de comunicação?

Fernando Morais – Existe um subsolo de comunicação que eu não tinha experimentado nem no livro do Paulo Coelho. Estou impressionado com a rede. Quando estou para ir a algum lugar como, por exemplo, Recife, uma semana antes começam inúmeras citações. E, depois que eu saio de lá, ocorre a mesma situação. Em geral tem muita gente que leva a câmera, filma e coloca no YouTube e em outros lugares, e começa a circular. Outra coisa que a internet também trouxe para o mundo dos livros é a venda. Os sites anunciam a pré-venda do seu livro, fulano está escrevendo tal livro, na livraria estará R$50, quem quiser encomendar por aqui, ficará R$40. Com os custos todos que os livros trazem às editoras como estoque, consegue-se um excelente desconto. Ou seja, isso pode dar uma mexida no universo dos livros no Brasil. Quanto mais barato o livro for para o consumidor, maior tiragem o editor pode fazer. Se você vai publicar um livro e a sua editora chega para a Submarino, ou para a Saraiva, e diz o seguinte, nos primeiros dez dias só você vende o livro, mas para isso você tem que comprar 5 mil. As contas da editora e do autor já estão fechadas. E se o livro der certo, o site também ganha dinheiro. A internet está mudando completamente o negócio da cultura.

Passo em uma livraria vejo um livro e compro, mas 90% dos livros que tenho comprado são pela internet, tanto daqui como do exterior. Compro por um preço razoável, chega em dois, três dias. Vi uma estatística hoje que aponta que 46% dos brasileiros compram seja o que for, não pela internet, mas atraídos para comprar pela internet.

Fórum – Entre seus livros, o Olga chegou a 1 milhão de exemplares?

Fernando Morais – O Olga, se for contar Brasil e exterior, foi 1 milhão, aqui no Brasil parei de contar, deve ter chegado a uns 700 mil. Parei de contar porque é muito difícil ter controle sobre isso. Hoje tem mais profissionais, pessoas que têm condição de checar um livro vendido na Rússia, se o cara disse ter vendido 10 mil, o agente vai checar se foram 10 mil mesmo. Hoje, o controle já é bem maior, mas devo ter sido muito roubado no começo, eu e todo mundo.

Viver de livro no Brasil era um negócio que até pouco tempo atrás você conseguia contar nos dedos de uma mão. E hoje as vendas são maiores, estou falando de livros de autoajuda, tipo Gabriel Chalita; de padres, como Marcelo Rossi, que vende horrores. Não sou contra isso não, acho que é a porta de entrada. Principalmente para os jovens, como foi Monteiro Lobato, Tesouro da Juventude, é bom, é saudável. O Paulo Coelho está trazendo um benefício para literatura brasileira que é incorporar para muitos o mundo dos livros, gente que provavelmente não lia antes.

Fórum – E você declarou que está flertando com uma biografia do Lula. Tem data pra sair?

Fernando Morais – Não, nós não estamos namorando não, nós estamos “ficando”. Eu e o Lula (risos). Almocei com ele e ainda não sabemos o que é, a ideia que ele tem é de fazer um pouco a história dos oito anos de governo dele, e em vez de fazer um negócio maçante, com muitos números, a ideia é pegar personagens que tenham tido suas vidas transformadas com projetos do seu governo, desde o sujeito que não tinha luz em casa e passou a ter, até o empresário que plantava manga para vender na feira em Caruaru e com o dinheiro do BNDS hoje exporta manga para o mundo inteiro. Pegar determinado número de histórias humanas e no meio delas ele me contaria os bastidores das dificuldades dos planos, das lutas, dos grandes interesses, o choque dentro do governo, o que tal ministro queria, o que tal não queria. É um plano de fundo das histórias.

Ele me contou um negócio ótimo sobre a luz elétrica de quando ele era pequenininho em Pernambuco e o Miguel Arraes, que era governador pela primeira vez, criou o programa de luz elétrica. Por acaso, no dia em que o Arraes foi inaugurar a rede de luz elétrica, foi à casa da tia do Lula e apertou o interruptor. A tia tomou um susto tão grande que saiu correndo. Nunca tinha visto aquilo na vida. E o Lula falou que isso ficou na cabeça dele o resto da vida. Chegou um dia que ele chegou para o presidente da Eletrobrás e perguntou: quantos brasileiros não têm luz elétrica em casa? E esse número foi reduzido pela metade no governo dele, não sei se os números são exatamente esses. É isso, contar uma história humana com os bastidores políticos. O que é difícil é que o Lula não tem tempo para nada, amanhã vai para França, por exemplo.

Fórum – E você começou a fazer a história do Zé Dirceu e do ACM, mas nenhuma das duas saiu?

Fernando Morais – Não, a do ACM eu ainda vou publicar, tenho uma coisa que ninguém tem e nem terá, são nove anos de gravações com ele. E, além disso, tenho um negócio saborosíssimo que ele me deu, que a família pode até dar para alguém, mas não acredito que dê, que são as 192 pastas com 192 nomes de gente da vida pública brasileira do Juscelino até o Lula. Isso é ouro, e está tudo aqui comigo. É ouro puríssimo.

O Zé [Dirceu] é o seguinte: não perdi a esperança de fazer a biografia dele, tem tremendas histórias, começamos a trabalhar antes da crise do mensalão, chegamos a ir a Cuba juntos, fui visitar o local em que ele foi treinado, fui visitar a velhinha que levava sopa para ele. E lá eles o chamam de Daniel. Um dia que eu e ele fomos almoçar com o Fidel, abriram a porta da sala onde tinha sido posta a mesa, o Fidel o viu e falou: Daniel!! Fiz com ele coisas muito interessantes. E aí ele foi cassado, e quando isso ocorreu, balançou todos os projetos, tudo que estava em andamento. A gente pensou em fazer outro livro enquanto isso, que era um livro chamado Trinta Meses, contando o período dele no governo, e começamos a gravar. Nós gravamos quinze dias e não saiu um grão de areia. Ele é um profissional, no 15º dia, apertei o botão do gravador e falei: “Zé Dirceu, daqui não sai livro não”. Mas vamos ver, ele também não tem tempo. Está primeiro cuidando da vida dele e depois tratando de cuidar do processo no STF. Parece que julgam até o começo do ano que vem, e então, independentemente do resultado, a ideia é propor a ele que a gente volte a gravar pensando na biografia.



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