Os jogos chineses e os fogos russos

A China procura abrir-se para o mundo – obviamente com reservas – e para isso conta simbolicamente com mais de 4 mil anos de história transitada com engenho, criatividade e bom gosto Por Mario Soares  ...

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A China procura abrir-se para o mundo – obviamente com reservas – e para isso conta simbolicamente com mais de 4 mil anos de história transitada com engenho, criatividade e bom gosto

Por Mario Soares

 

Os ventos de verão sempre nos trazem alguma surpresa. Quando os europeus saem de férias e não querem falar de outra coisa que não seja a delícia das praias ou das pousadas nas montanhas invariavelmente surgem acontecimentos que distraem nossa atenção. Desta vez, depois do começo das férias, a atualidade se concentrou em Rússia e China. Primeiro em Pequim, onde se escolheu o número da sorte para os chineses (8) para iniciar os Jogos Olímpicos, no dia 8 do oitavo mês de 2008 às 8h8’8”. Trata-se de um grande acontecimento. A China procura abrir-se para o mundo – obviamente com reservas – e para isso conta simbolicamente com mais de 4 mil anos de história transitada com engenho, criatividade e bom gosto.
O presidente chinês, Hu Jintao, disse antes dos Jogos que “o governo e o povo chinês respeitarão com seriedade os compromissos assumidos perante a comunidade internacional”. Foi feito um esforço – é evidente – para não esquecermos, em matéria de direitos humanos e singularmente no caso do Tibet e de outras minorias, a violência e a brutalidade com que foram contidas as reclamações dessas populações. Por outro lado, precisamente
em Pequim e nas proximidades do estádio olímpico – que é uma jóia arquitetônica de excepcional beleza e originalidade –, foram demolidas centenas de casas de pessoas pobres, deixando seus ocupantes sem moradia. Vemos nisto uma das inevitáveis contradições dos regimes totalitários.
Entretanto, os Jogos Olímpicos de Pequim não podem – nem devem – ser comparados aos Jogos Olímpicos de Berlim, às vésperas da I Guerra Mundial. Neste último caso havia um país totalitário dominado por um ditador, Adolf Hitler, que se preparava ativamente para dominar o continente europeu. Hoje a China não está prestes a declarar guerra alguma. É um país emergente que quer ser reconhecido e respeitado como tal, apesar de seus inúmeros problemas internos e das contradições que não conseguiu superar e que exigem tempo, prudência e paz.
Por isso, o presidente da França, Nicholas Sarkozy, agiu com rapidez – mais notável por estar exercendo a presidência rotativa da União Européia – ao afirmar que não estaria presente na abertura dos Jogos de Pequim por causa do Tibet e de outros atentados aos direitos humanos, para, em seguida, comparecer. Esta contradição entre a palavra e o ato começa a ocorrer com muita freqüência com Sarkozy.
A Rússia, outro país emergente e com população relativamente pouco numerosa devido à sua imensa extensão, suas riquezas naturais (petróleo, gás, minerais, diversas), perdeu, com o colapso do comunismo, seu posto de segunda potência mundial. Desde então, foi sistematicamente humilhada pelo Ocidente. Um erro fatal. O ex-presidente e atual primeiro-ministro, Vladimir Putin, com seu estilo enigmático e reservado, não se deixou abater. Em poucos anos tirou seu país do pântano em que se encontrava, recuperou o orgulho nacional e mostrou ao mundo que a Rússia não pode ser menosprezada e, muito menos, humilhada.
Mas a Rússia tem problemas étnicos, culturais e históricos derivados do complicado xadrez de suas populações que não é fácil de encarar com a força, como nos tempos de Stalin e Brejnev. O caso mais conhecido é o da Chechênia, que causou inúmeras preocupações e está longe de ter sido resolvido. E agora a Rússia e a Geórgia se enfrentaram em uma guerra aberta, extremamente perigosa para os dois países e para o Ocidente, incluindo a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que George W. Bush procura empurrar para esta aventura. O governo de Tiblis, terra de nascimento de Stalin e capital georgiana, investiu contra o enclave de Ossétia do Sul. E a Rússia respondeu enviando suas poderosas forças armadas.
Se levarmos em consideração as dificuldades causadas pelas projetadas bases de mísseis voltados contra a Rússia e a penetração da Otan em países como Azerbaijão, Moldávia, Cazaquistão, Ucrânia (que foi bastante prudente, para não alarmar a Rússia) e agora a Geórgia, parece que se está enchendo um barril de pólvora no Cáucaso, zona rica em hidrocarbonetos. A União Européia assiste aparentemente impávida – ou impotente – a estas operações, em locais onde passam importantes oleodutos (estadunidenses e russos), como se um conflito dessa magnitude não afetasse seus interesses. F



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