Os novos ares franceses

Suely Rolnik testemunha as transformações no meio universitário francês, ocorridas após maio de 1968 Por Maurício Ayer   O Núcleo de Estudos da Subjetividade, na Pontifícia Universidade...

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Suely Rolnik testemunha as transformações no meio universitário francês, ocorridas após maio de 1968

Por Maurício Ayer

 

O Núcleo de Estudos da Subjetividade, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), é hoje um dos centros mais criativos em pesquisas das políticas de subjetivação, sendo uma referência em estudos de filósofos como Deleuze e Foucault, entre outros autores, no Brasil. Professora neste núcleo e uma de suas fundadoras, Suely Rolnik exerce intensa atividade tanto em universidades, como professora, e no meio artístico, como crítica de arte e curadora, principalmente no Brasil, na Espanha e na França.
Suely dá aqui um testemunho sobre a nova universidade francesa que surgia no pós-Maio de 68, que freqüentou como estudante. O depoimento foi dado na praça do Relógio, na Cidade Universitária de São Paulo, entre os eventos de um seminário que reunia no Museu de Arte Contemporânea artistas conceituais da América Latina.

Contracultura e política
Eu fazia Ciências Sociais na USP e estava intensamente envolvida com a contracultura, mas uma contracultura que tinha uma dimensão sensivelmente política, ou micropolítica, porque se tratava fundamentalmente de implodir a política de subjetivação burguesa, com tudo o que isso implica, o tipo de percepção, o tipo de cotidiano, de sexualidade etc. etc., e experimentar, com todos os riscos do mundo, outros modos de viver e outra relação com a alteridade.
Mas era uma certa vertente, porque havia uma vertente totalmente despolitizada, muito identificada com o movimento hippie norte-americano, sem uma noção da inscrição histórica daquele que se propunha transformar a estrutura na qual a gente foi formada.
Por conta desse meu envolvimento com a contracultura, eu fui presa, em janeiro de 1970, fiquei dois meses e, por uma manobra do advogado, o processo foi arquivado uma semana e consegui sair com passaporte. Aí me exilei na França por dez anos. É uma lacuna na história do período no Brasil o movimento contracultural como um movimento político da maior importância, que sofreu a mesma violência que a militância.

Por uma outra alteridade
Chegando em Paris, imediatamente eu me inscrevi [na Universidade de Paris] em Vincennes, pra continuar as Ciências Sociais. Aí comecei a freqüentar as aulas do [Gilles] Deleuze, do [François] Lyotard, as aulas do [Michel] Foucault no Collège de France, e encontrei aí o ambiente que eu necessitava para começar um processo de elaboração disso, e reproduzir, teoricamente, qual é a potência política dessa proposta de experiência existencial.
Nas aulas do Deleuze tinha de tudo, tinha psicóticos, tinha de tudo. Ali o que se estava experimentando era uma outra forma de relação com a alteridade, uma outra abordagem, ou ainda uma outra maneira de se produzir conhecimento, que explorava uma dimensão do sensível que estava muito desativada na vida burguesa.
Esse novo afetar-se se torna uma realidade viva dentro de seu corpo, que se agrega à sua estrutura sensível. E aí não tinha essa hierarquia das subjetividades que seriam apropriadas ao conhecimento universitário e outras que não. E se criava abertura e espaço para a expressão desse tipo de subjetividade, como a dos psicóticos, que antes ficava totalmente confinada.
Lygia Clark e o ensino de Artes Plásticas Outra experiência universitária que tive foi a Faculdade de Artes Plásticas, na Paris I. Até então o ensino das Artes era confinado às Escolas de Belas Artes, totalmente conservadoras, ignorantes, desvinculadas das questões contemporâneas. Então, após Maio de 68, surgiu essa escola que, pelo menos nos seus primeiros anos, foi um campo de experimentação total, em que se introduziram todas as pesquisas em arte contemporânea, e para a qual a Lygia Clark foi convidada a dar aulas e onde desenvolveu uma parte importante dos experimentos dela.

Ciências Humanas Clínicas A terceira experiência universitária que eu tive foi quando decidi estudar Psicologia. Então eu fui fazer Paris VII, mas é muito interessante porque a faculdade, que também foi fundada depois de 68, não se chamava Psicologia, ela se chamava Ciências Humanas Clínicas. Então essa visão de que a clínica é ciência humana vem dali também, não é. Numa salinha a gente tinha aula de psicometria, que são aqueles testes eletrônicos, e num auditório enorme tinha aulas que demoliam completamente a psicometria.
Mas isso durou a primeira metade da década de 70, porque depois tudo isso começou a ser convertido para a política de subjetivação neoliberal. Foi se convertendo, porque não dá para dizer que veio um monstro de fora e cooptou, não, foi mesmo uma parte dessa geração que converteu isso e que veio a se constituir como o novo regime capitalista, que é o neoliberalismo.

Maoísmo Havia também os maoístas, os trotskistas, até figuras que hoje são intelectuais conhecidos, como [Alain] Badiou, e que intervinham agressivamente. Entravam nas aulas de outros colegas, xingavam o Deleuze. Aquilo tinha um peso, uma adesão, mas para mim era uma grande chatice. Era uma falta de flexibilidade, uma rigidez moral que se sobrepunha completamente à experiência e ao que se criava a partir dela. Assim como eu nunca suportei os setores da contracultura que não tinham a menor consciência política, também tive uma rejeição quase alérgica a essas tendências militantes que do ponto de vista micropolítico se mostravam totalmente reativos e conservadores. F

Maio de 68 e a universidade francesa
1968 foi um ano de transformações radicais em todo o mundo, quando todo um modelo de sociedade que se desenvolvia desde o pós-Segunda Guerra entra em colapso. Mas a intensidade que o embate entre a velha e nova sociedade adquiriu no mês de maio na França talvez não encontre paralelo em qualquer outro local, com greves gerais, milhões de pessoas protestando nas ruas, barricadas e violentos embates com as forças da “ordem” policial. As mobilizações acabam afetando toda a sociedade, mas a explosão tem início na universidade, em particular na unidade de Nanterre, bairro periférico de Paris, onde a proximidade geográfica entre estudantes e operários proporcionava um terreno fértil para a polarização das reivindicações libertárias.
A universidade francesa, naquele momento, tem uma estrutura bastante conservadora, sem mudanças substanciais desde o final do século XVIII e início do XIX, logo após a Revolução Francesa, quando se fundam algumas das principais escolas superiores, como a Escola Normal Superior e a Escola Politécnica. A característica principal é a centralização administrativa, a delimitação clara dos campos de estudo e conhecimento – algo inovador no século XIX, mas pouco condizente com a realidade da década de 60, em que a interdisciplinaridade ganhava força –, a separação entre pesquisa e ensino e a pouca ou nenhuma participação de estudantes e funcionários nas instâncias de debate e decisão administrativo-pedagógicas. Além disso, algo que também entra em crise internacionalmente e que será muito criticado pelos estudantes de então é a falta de vínculo entre a produção de conhecimento universitário e a realidade, seja esta local, nacional ou internacional.
A explosão de maio se inicia com manifestações em março de 68, em Nanterre. Após vários embates, os estudantes invadem o edifício da universidade, e sua retirada é feita pela polícia em 2 de maio, fechando-se o local. Estudantes da Sorbonne vão se juntar em apoio aos colegas de Nanterre, e o movimento começa a se alastrar. As manifestações anárquicas, mesmo duramente reprimidas, acabam por desestabilizar o governo do general Charles de Gaulle e causam o fechamento da Assembléia Nacional e a convocação de novas eleições parlamentares para junho.
Costuma-se dizer que as movimentações de estudantes e operários naquele ano foram derrotadas, pois as forças gaullistas voltaram mais fortes. Maio de 68 seria uma espécie de “canto de cisne” da esquerda mais radical na própria sociedade, e esse tipo de posicionamento ficaria circunscrito a dimensões partidárias a partir de então.
Mas na sociedade, e em particular na universidade, o movimento teve conseqüências enormes. Em novembro daquele ano, uma grande reforma é aprovada, criando as principais bases da atual estrutura. As faculdades são extintas e em seu lugar são criadas universidades, agora com autonomia para definir novos cursos e áreas de conhecimento, tendo como marca a inter ou multidisciplinaridade, a descentralização e a participação de estudantes.
É neste contexto que surgem algumas das experiências mais inovadoras, algumas sem equivalente em épocas posteriores. Uma delas é o Centro Universitário Experimental que se instala no bosque de Vincennes, no Leste da capital francesa, e que veio depois a se constituir na Universidade de Paris VIII, hoje situada em Saint-Denis (ver depoimento de Suely Rolnik).



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