Página Verde – O Brasil nos caminhos da biocivilização

Para Ignacy Sachs, articular o uso da tecnologia com a biodiversidade disponível pode fazer do Brasil um exemplo de novo modelo de desenvolvimento econômico Por Sucena Shkrada Resk  ...

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Para Ignacy Sachs, articular o uso da tecnologia com a biodiversidade disponível pode fazer do Brasil um exemplo de novo modelo de desenvolvimento econômico

Por Sucena Shkrada Resk

 

Nos últimos meses, o economista franco-polonês Ignacy Sachs tem levantado, em vários eventos realizados no Brasil, a defesa da implementação do que define como biocivilização, modelo baseado nos empregos verdes e na cadeia de produção da biomassa. Nesse modelo de desenvolvimento, que se contrapõe às mudanças climáticas, as vocações dos biomas devem ser mais bem trabalhadas e não devem restringir-se a ações voltadas somente à Amazônia.

Sachs, que é diretor do Centro de Pesquisas do Brasil Contemporâneo da Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais de Paris, alerta que há pouco tempo hábil para modificar estratégias socioeconômicas que permitam reduzir os impactos dos Gases de Efeito Estufa (GEEs) e, por isso, não há tempo a perder com posições de gestão obsoletas, que visem somente o curto prazo. Em sua opinião, polêmicas recentes sobre dados do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) não colocam em xeque os problemas que já são evidentes. “Em alguns decênios, pequenos agricultores, que mal conseguem sobreviver em Bangladesh, por exemplo, como também em Ilhas do Pacífico, serão obviamente as primeiras vítimas”, assegura.

Segundo ele, a ausência de planos de gestão de longo prazo compromete cada vez mais a situação dos refugiados climáticos em países vulneráveis. “Não acredito que alguém tenha resposta séria, como para onde levá-los”, afirma. E completa dizendo que a 16ª Conferência das Partes, da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima,(COP-16), que será realizada no México, no final do ano, não terá êxito. “Deverá repetir o fracasso, do ponto de vista de negociações, da COP-15, realizada em dezembro de 2009 em Copenhague.”

Investimento em biotecnologia

Para Sachs, nessa encruzilhada da contemporaneidade, a biocivilização é uma mudança de paradigma possível, em que a biomassa, que envolve alimentos, energia, materiais de construção e fibras plásticas, entre outros, será produzida por bio-refinarias, que substituirão o petróleo. Nessa economia, ainda haverá ênfase nas áreas de cosméticos e fármacos. “O aumento da produtividade se dará com investimentos em biotecnologia”, diz.

Neste processo, países tropicais como o Brasil têm grande potencial, segundo o economista. “É invertida a tese de inferioridade dos trópicos, pois são as terras da ‘boa esperança’. Tanto que o Polígono das Secas também é propício à biomassa, por meio da irrigação”, explica.

Outro campo fecundo, de acordo com o economista, será a chamada revolução azul. “É preciso encarar com seriedade as algas como fonte de biocombustível. A Petrobras já está trabalhando com essa pesquisa, tanto em água doce, como salgada”, sustenta. Em relação ao petróleo, aliás, ele defende que fundos provenientes da exploração da camada do Pré-Sal, anunciada pelo governo brasileiro, sejam utilizados para adaptação e mitigação às mudanças climáticas e investimento em recursos renováveis.

Estratégias para a Rio+20
Ignacy Sachs alerta a sociedade civil para a necessidade de manter uma mobilização mais concreta antes da Conferência de Meio Ambiente das Nações Unidas Rio+20. O evento está programado para 2012 e terá importância histórica por representar um balanço de duas décadas do setor. “O meu único receio é que o tema ambiental vire ‘a bola da vez’ e a pauta social seja colocada para baixo do tapete”, diz.

Para o pensador, Estocolmo foi um marco na história socioambiental. “Colocou na agenda internacional a problemática ambiental, que estava marginalizada, na época. Até 1992, repercutiu em formações de ministérios do setor, em mudanças das constituições e ampliou o campo do funcionamento da Organização das Nações Unidas (ONU).”

Já a ECO 92 deixou a Agenda 21 como um dos principais legados, em sua avaliação. “Só que naquele momento estava na contramão da história, existia uma contrarreforma neoliberal e estávamos há poucos anos da queda do Muro de Berlim, entre outros fatos importantes. Deste ponto de vista, 2012 se apresenta mais positivo”, diz. A crise econômica mundial, na opinião de Sachs, foi originada nos países desenvolvidos, mas nesse contexto os emergentes têm hoje um peso político diferenciado.

O economista avalia que devido ao fato de 2010 ser um ano eleitoral no Brasil, o tempo de articulações da sociedade civil, terceiro setor e empresariado é mais curto, para anteceder ao encontro. Segundo ele, não basta haver fóruns sociais. “Precisamos mais de eventos restritos, profissionais. Também chegou o tempo em que não adianta ter uma ou duas cadeiras no Fórum Econômico, em Davos. É preciso criar, no Brasil, um papel protagonista na política mundial”, afirma Sachs.

Para isso, o especialista considera que é preciso mudar a arquitetura de planejamento que ocorreu em 92. “Enquanto os representantes oficiais dos países discutiam temas a portas fechadas, a mobilização social simultânea, na Praia do Flamengo, não conseguia interferir nas decisões do evento”, recorda Sachs, que à época foi consultor da Conferência. “Com isso, aprendi que as mobilizações da sociedade devem acontecer antes, para que os resultados das discussões possam ser encaminhados a tempo”, complementa.

Dois desafios desse século a serem enfrentados simultaneamente, segundo Sachs, são a mudança do clima e o déficit social, que aumentou nas últimas décadas gerando um mundo ainda mais repleto de injustiças. Em sua opinião, o fracasso dos movimentos sociais em encontros importantes, como Estocolmo e Rio-92, foi decorrente do fato de se escolher a estratégia de eventos paralelos aos oficiais, que minaram a força das reivindicações. “A Rio+20 deverá ter forte repercussão na opinião pública brasileira. Por isso, é preciso usar o evento para uma grande campanha educacional. Em vez de se manter discursos de que ‘não é possível’, é preciso acreditar no tripé da sustentabilidade (ambiental, econômico e social)”, diz Sachs.

O trajeto da ecossocioeconomia

“Chegamos a um período histórico em que se derruba o mito de que os mercados se autorregulam, pois não estão bem das pernas.” Sachs, que é reconhecido por seu trabalho voltado à chamada Ecossocioeconomia, analisa que o problema central da contemporaneidade é a justiça social. “Falta trabalho decente, com remuneração adequada e que não atente contra a saúde do trabalhador, como define a Organização Internacional do Trabalho (OIT)”, argumenta.

O caminho para a sociedade sustentável estaria na economia mista. “O socialismo real chegou ao fracasso e não é uma opção para substituir o capitalismo. É preciso diferenciar na ideologia os valores e a práxis. Nas parcerias público-privadas, é possível ampliar a rede de serviços sociais universais como saúde, educação, saneamento e alojamento, com mutirões de construção de habitações”, considera.

Sachs acredita na possibilidade de ampliação da economia solidária, neste mercado, com a presença de cooperativas tradicionais e de Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPS). Em sua análise, esse é um passo de transição para a economia de baixo carbono.



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