Penúltimas palavras: O russo da balalaica

Crônica Por Mouzar Benedito   Vendo e lendo as notícias de tragédias provocadas pelas chuvas em Santa Catarina no...

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Crônica

Por Mouzar Benedito

 

Ilustração: OhíVendo e lendo as notícias de tragédias provocadas pelas chuvas em Santa Catarina no fim do ano, fiquei me lembrando de São Francisco do Sul, bela cidade que frequentei bastante naquele estado. Fica numa ilha, perto de Joinville, no norte do estado. Os primeiros europeus que apareceram por lá foram corsários franceses, em 1504. Chegaram a levar um índio, filho de um cacique carijó, para a França. Lá, ele se casou com a filha do líder da expedição e teve uma penca de filhos, o que significa que deixaram muitos descendentes na França. Então, no DNA de muitos e muitos franceses que se julgam “puro-sangue”, com certeza tem um pouco sangue carijó.
Os espanhóis vieram depois e chegaram a criar um povoado no local, houve até um bispo na Espanha, não me lembro o nome dele, que nasceu em São Francisco do Sul. Depois vieram os portugueses e, já no século XIX, vieram os franceses de novo. Um grupo de socialistas utópicos resolveu fundar uma colônia socialista nos trópicos e foram para São Francisco, lugar que para eles era tropical.
A colônia, como outras experiências do gênero, não deu certo. A grande maioria dos franceses voltou para a Europa, mas uma parte ficou e a gente encontra pescadores e lavradores com sobrenomes que parecem pomposos para nós. Eu mesmo tive um terreno lá, comprado de um pescador chamado Jean Philippe Ledoux. Depois pintaram muitos alemães na área, e com eles um pouco de arquitetura germânica e alguns costumes exóticos para nós. Então, hoje, a bela ilha em que fica a cidade tem uma população e uma arquitetura que são resultados de uma mistura danada.
E, pra completar, agora São Francisco é um porto movimentado, acho que o maior exportador de produtos de Santa Catarina. Mas do outro lado do canal, já em terra firme, fica a Vila da Glória, pertencente ao município, um lugar até há pouco tempo bucólico e ainda hoje bonito, em que os paranaenses, especialmente curitibanos, baixam aos montes nos fins de semana. Com os curitibanos, chegam poloneses, russos, ucranianos, gente de tudo quanto é lugar da Europa Oriental. E isso já acontecia antes mesmo do fim da União Soviética. Várias vezes, na década de 1980, encontrei lá gente do leste europeu que nem tinha aprendido ainda a falar nada em português.
Quando ia à Vila da Glória, ficava imaginando que se a capital do Brasil fosse em São Francisco do Sul, quer dizer, se São Francisco fosse o “Rio de Janeiro”, a Vila da Glória seria uma espécie de Niterói. Isso porque, nos bons tempos do Rio, os cariocas gozavam dizendo que o lugar que tinha a melhor vista do mundo era Niterói, de onde podia ser ver o Rio.
Em uma das vezes em que eu estava na Vila da Glória, numa venda de frente para o mar, um grupo de pescadores tocava músicas com pistão, cavaquinho e outros instrumentos, quando apareceu um russo recém-chegado a Curitiba que não falava nada de português, trazendo nas mãos uma balalaica. Depois de ouvir as músicas dos pescadores, fez sinal que queria tocar balalaica e, com muito custo, deu a entender que queria que alguém o acompanhasse com algum instrumento brasileiro.
Um pescador que tocava cavaquinho topou. O russo começou, com uma música típica, claro, e ele foi atrás. Ficou bonito. Pra falar a verdade, bonito demais. Emocionante. Tão emocionante que quando terminou o russo estava às lágrimas e fez o que um russo normal faz em uma circunstância dessas. Agradecido, tascou um beijo na boca do pescador, que precisou de ser agarrado para não esfaquear o homem da balalaica. Beijo na boca de homem pode ser normal pra russo, mas pra pescador brasileiro… Vixe!

Mouzar Benedito, mineiro de Nova Resende, é geógrafo e jornalista, e também sócio-fundador da Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci).



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