Penúltimas palavras – Vaidade e algo mais

Por que alguém quer ser presidente da República, governador ou prefeito? Parece uma pergunta muito besta, mas desde há muito penso que é uma coisa esquisita. Já escrevi sobre isso, mas volto a bater na...

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Por que alguém quer ser presidente da República, governador ou prefeito? Parece uma pergunta muito besta, mas desde há muito penso que é uma coisa esquisita. Já escrevi sobre isso, mas volto a bater na mesma tecla.

Por Mouzar Benedito

 

 

Por que alguém quer ser presidente da República, governador ou prefeito?

Parece uma pergunta muito besta, mas desde há muito penso que é uma coisa esquisita. Já escrevi sobre isso, mas volto a bater na mesma tecla.

Começa na campanha: devassam a vida do candidato, vão fundo descobrir seus defeitos (todo mundo tem, mas os dele têm que ser expostos publicamente, com sadismo), seus erros do passado, uma puladinha de cerca, um erro na declaração de renda para a Receita Federal, uma noite de bebedeira, um namoro mal-sucedido, uma demissão de emprego… Tudo.

Isso, claro, se o candidato não for queridinho da imprensa. Se for o preferido dos patrões da mídia, o candidato fica livre da exposição pública das suas faltas de qualidade. Caso contrário, arrumam para o candidato até defeitos que ele não tem, inventam.

Sem contar que quando se é a favor de alguém, até seus defeitos viram qualidades. Se o sujeito é mal-humorado, ranheta, centralizador e trata mal os “subordinados”, tudo isso vira sinônimo de seriedade, uma grande qualidade de cara que não admite erros. Porém, se for um desafeto, tudo é “prova” de grande canalhice.

Na última campanha eleitoral isso ficou bem claro.

E depois da posse?

Presidente da República não tem horário de trabalho, é presidente o tempo todo. Se resolver tomar uma cachacinha “depois do expediente”, não é o fulano que está bebendo, é o presidente. Vira motivo pra fofoca: “Presidente da República foi visto tomando cachaça”. E daí já aumentam: “Enxugou duas garrafas e saiu de gatinho”, “Cantou a mulher do ministro” etc.

A pessoa deixa de ter vida privada. Não pode ir à padaria da esquina, a um boteco, a uma praia, nada. Tudo na vida de político de cargo executivo é tratado como de interesse público. É o presidente que urinou num lugar, que soltou um pum, que paquerou alguém. Então ele não pode fazer nada em público. Vive confinado e todo seu relacionamento pessoal parece cercado de interesses. Senadores e deputados sofrem menos, mas a maioria deles cobiça os cargos executivos. Então isso vale pra eles também.

É uma vida muito chata. Pelo menos para o meu gosto. Então, por que se candidatam a isso e lutam tanto por isso?

Há muito, digo que só existem três motivos. O primeiro deles, presente em todos os candidatos, em menor ou maior proporção, é a vaidade. Se uma pessoa não for vaidosa não entra nessa. Os outros dois são messianismo e grana. Isso mesmo. Há políticos (cada vez menos) messiânicos, que acham que vão resolver a vida do povo, salvar a humanidade, conseguir a redenção dos trabalhadores.

E a questão da grana está presente em quase todos. Uns para meter a mão mesmo, roubar o que puderem. Outros simplesmente, às vezes sem desonestidade, usam o cargo para se ajeitar na vida. Uma aposentadoria especial não faz mal a ninguém, né? E deixar a família bem de vida é bem conveniente. Quem já viu governador ou presidente deixar a prole na pindaíba? Prefeito de cidade pequena, com orçamento minguado, tem menos poder de manobra de grana, mas alguns roubam o que podem, ou dão um jeito de deixar os filhos e genros bem empregados ou com um negócio garantido e rentável. Tem caso de cara que não fez nada, deixou a prefeitura a zero e saiu rico. E prefeito que pôs um gato na Bolsa Família para aumentar seus rendimentos em R$ 60!

Por tudo isso, considerando que 100% dos motivos para alguém ser político se reduzem a vaidade, messianismo e grana, podemos analisar qualquer um deles por aí, lembrando que vaidade está em todos. E concluir: fulano tem 40% de político por vaidade e 60% por grana. Já beltrano se divide em 35% vaidade, 50% messianismo e 15% grana. Sicrano é 80% vaidade, 10% messianismo e 10% grana. E por aí vai.

Maluquice minha? Quem quiser que analise os políticos que estão aí, a começar por Lula, FHC, Maluf, Sarney, Suplicy, Dilma, Serra, Marina, Plínio Sampaio…

Olha… Messianismo, um “defeito” segundo sociólogos e afins, é o que, para mim, faz a diferença nesses casos. Pena que muitos messiânicos acabem engolidos pela questão da grana.



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