Pepe, como ele é

Preso político, senador, ministro… Aos 74 anos, o uruguaio Pepe Mujica pode tornar-se o primeiro ex-guerrilheiro que combateu as ditaduras das décadas de 1960/70 a ser eleito presidente de um país sul-americano Por Frédi Vasconcelos  ...

233 0

Preso político, senador, ministro… Aos 74 anos, o uruguaio Pepe Mujica pode tornar-se o primeiro ex-guerrilheiro que combateu as ditaduras das décadas de 1960/70 a ser eleito presidente de um país sul-americano

Por Frédi Vasconcelos

 

Após ter vencido as eleições primárias e se tornado candidato a presidente pela Frente Amplio, coligação de partidos da esquerda uruguaia, em junho deste ano, um dos primeiros compromissos do senador Pepe Mujica foi visitar o Brasil e encontrar-se com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Do encontro, o que teve mais repercussão na imprensa nacional foi o fato de o candidato declarar ter comprado terno para avistar-se com o mandatário brasileiro. Além de mostrar como a imprensa nacional trata nossos vizinhos e as relações internacionais fronteiriças, o fato também revelou duas características de Mujica, que podem ser mais bem entendidas quando se conhece sua história pessoal.

Nestes tempos de marketing político, construção de rostos com botox, escolha de gravatas por estilistas, discursos ensaiados por marqueteiros, a figura do velho senador é anacrônica. Mujica usa cabelos desalinhados, ri ao dizer que é “moderno” porque usou ternos sem gravata duas vezes (no encontro com Lula e em outro, com Fidel), não esconde seu passado de guerrilheiro, embora declare hoje distância das ideias de tomar o poder à força. Quer saber toda a verdade sobre o período ditatorial, mas não quer ver os velhos generais nas prisões. Até porque não confia em nenhum tipo de justiça humana.

A outra faceta que ficou clara na visita preferencial ao Brasil é a admiração ao modelo Lula, de negociação, em contraponto com as estratégias de Hugo Chávez. Mujica declarou, recentemente, numa entrevista ao jornal argentino La Nación, que embora reconheça todos os avanços que ocorreram na Venezuela, acha que Chávez fala demais. A preferência por um modelo ou outro também tem implicações eleitorais, serve para convencer uma parcela do eleitorado que é reticente ao estilo do ex-militar e tem admiração pelo jeito Lula de governar.

Isso explica mais a opção Lula do que o fato de o venezuelano “falar demais”. Até porque Mujica também é tido por “boquirroto” até entre seus chefes de campanha. Recentemente, depois de declarações sobre o casal Kirchner, que governa a Argentina, foi aconselhado a não dar mais entrevistas até as eleições. A confusão ficou por conta do título com que a conversa foi publicada: “Não sei que ideologia têm os Kirchner”. Prato cheio para a imprensa do outro lado do Rio da Prata, que anda às turras com o casal presidencial em razão da nova lei dos meios de comunicação. Em seu site na internet, Mujica fez questão de publicar a pergunta e a resposta na íntegra para tentar pôr fim a mal-entendidos. Explicou que, na realidade, questionado pelo jornalista sobre que conselhos daria ao casal, disse que não queria lhes dar conselhos, “Quem sou eu para fazê-lo?”, mas complementou que provavelmente não compartilham das mesmas crenças: “É que não sei qual é a ideologia dos Kirchner. Parece que são progressistas, mas também são peronistas. Para nós, no Uruguai, é muito difícil entendê-los”.

Sobre outro ponto da conturbada relação com os argentinos, já declarou que na disputa sobre a construção da fábrica de papel da finlandesa Botnia, na margem uruguaia do Rio da Prata, que os argentinos não engolem, tomaria uma atitude diferente do atual presidente, Tabaré Vázques. “Se estivesse negociando com a Argentina, me sentaria à frente da embaixada uruguaia em Buenos Aires e lá ficaria chorando, chorando e chorando.” A imagem é para explicar que não teria nenhum problema em negociar até o fim. Quando perguntado por que Tabaré não fez isso, responde que são personalidades diferentes. “Tabaré é um apaixonado da dignidade. De acordo com seus valores, negociar muito, insistentemente, seria como perder a dignidade do país. Há coisas que não se pode pedir a ele. Eu o entendo perfeitamente.”

Porém, as diferenças com o atual presidente vão além. Mujica não era o preferido de Tabaré, que pendia para seu ex-ministro da economia Danilo Astori, o atual candidato a vice-presidente depois de ficar em segundo lugar nas prévias dentro da Frente Amplio. Mujica, a seu estilo, já declarou que Astori, uma espécie de Antonio Palocci uruguaio, é quem cuidará da economia do país e da relação com os Estados Unidos, enquanto ele se voltará para a relação com a América Latina e às negociações políticas.

Voltando às comparações com Tabaré, ele e Mujica, embora da mesma coalizão de partidos, têm personalidades e trajetórias bem distintas. O atual presidente é um renomado médico oncologista, com curso de especialização na França. Mujica tem personalidade extrovertida, é político extremamente popular, com passado de ex-guerrilheiro e que, depois de passar mais de uma década preso, saiu da prisão e foi morar num pequeno sítio nos arredores de Montevidéu. Viveu um bom tempo plantando e vendendo produtos agrícolas num carro velho até ser eleito deputado e senador. Tornou-se presidente do Senado, ministro da Agricultura e Pesca, mas sem abandonar as origens. Mora ainda no mesmo sítio e diz que, se eleito, uma das coisas que terá de fazer é deixar de andar livremente pelas ruas numa velha motocicleta. “Vou continuar morando no sítio. Mas não vou poder ir trabalhar de moto, como fazia quando assumi como deputado. É que já estou muito velho. Irei num pequeno carro.”

O sítio é a moradia que divide com sua companheira, a também senadora Lucía Topolansky, desde que os dois saíram da prisão, na década de 1980. Sobre Lúcia, com quem está junto desde que se conheceram, em 1967, responde com humor quando ouve a comparação com o casal que governa a argentina. “Perguntam-se se minha esposa governará comigo, como fazem os Kirchner? Não, minha mulher é que manda. Ela é que manda em mim.”

Mujica passou mais de doze anos preso em quartéis uruguaios, sendo que pelo menos em dois ficou praticamente enterrado vivo, no fundo de um poço. Segundo declarou em entrevista à agência Carta Maior, em 1989, nesse período “o sintoma mais evidente de vida eram sete pequenas rãs, às quais alimentava com migalhas de pão”. Foi quando aprendeu também que as formigas gritam. “Descobri isso ao colocá-las no ouvido para me entreter com algo”. Apesar da brutalidade a que foi submetido, hoje diz não guardar rancor: “pode parecer uma monstruosidade o que vou dizer, mas dou graças à vida por tudo o que vivi; se eu não tivesse passado por estes anos e aprendido o ofício de galopar para dentro de mim, teria perdido o melhor de mim mesmo. Obrigaram-me a remover meu solo e isso me fez muito mais socialista do que antes”, disse.

Mais recentemente, ao ser perguntado se tinha arrependimentos da luta armada, disse rindo: “O que mais me arrependo é que nosso povo ficou 16 anos sob a ditadura e não pudemos tirá-los de lá com �patadas�”. Mais sério, complementou que, no Uruguai, houve mais que guerrilha, “um movimento político com armas. A violência ocorreu apenas no momento em que não havia outra saída.

Essa característica dos tupamaros é também destacada pelo jornalista brasileiro Mário Augusto Jakobskind. Ele, que chegou a ser expulso do país à época da ditadura, quando fazia uma cobertura jornalística, destaca que eles se distinguiam de outros grupos armados latino-americanos principalmente por serem organizados e pensarem muito antes de dar um tiro. “Só em último caso trocavam chumbo.”

Mesmo com essa característica, a reação da ditadura não era nada parcimoniosa. Mário Augusto lembra que Mujica e o líder tupamaro Raul Sendic por muito tempo foram considerados presos-reféns. A ameaça do governo é que seriam torturados ou mortos caso o grupo fizesse novas ações depois de suas capturas.

Hoje, Mujica não crê mais que por meio da luta armada se chegará à Terra Prometida. Propõe ir subindo degrau por degrau. Dos tempos da jovem militância diz que sobrou a certeza de que se pode e vale a pena melhorar o mundo: “Não existe uma saída apocalíptica, de um dia para o outro… É uma escadaria interminável na qual vamos subindo os degraus e aprendemos algo, deixamos algo e outros continuam, assim sucessivamente. É um caminho sem fim. No dia em que acreditarmos que chegamos, estamos fritos.” Além da via da negociação, também acredita, discordando do escritor alemão Bertolt Brecht, que não há homens imprescindíveis, mas sim causas imprescindíveis. Para ele, a história é uma construção tremendamente coletiva.

No Uruguai, dois partidos ligados às elites econômicas, os Brancos e os Colorados, ficaram mais de 100 anos no poder. Isso quer dizer que tiveram quase todos os presidentes da República desde a independência do país. Essa hegemonia foi quebrada com a eleição do socialista Tabaré Vásquez, em 2004. Por isso Mujica sabe que não será fácil a eleição do primeiro representante da oposição latino-americana que pegou em armas contra as ditaduras. Quando do fechamento desta edição ele liderava as pesquisas com cerca de 45% dos votos e era o político mais popular do país. Mas no segundo turno corria o risco da união de todos os outros candidatos contra ele, como ocorreu na primeira eleição presidencial disputada e perdida por Tabaré, em 1999. Se ganhar, começa outro passo na construção coletiva dessa história em que atualmente acredita.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de outubro. Nas bancas.



No artigo

x