Por um FSM mais ativista

O filipino Walden Bello defende que, diante do colapso do neoliberalismo, é hora de pensar como confrontar as reformas que querem apenas estabilizar o capitalismo Por Anselmo Massad  ...

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O filipino Walden Bello defende que, diante do colapso do neoliberalismo, é hora de pensar como confrontar as reformas que querem apenas estabilizar o capitalismo

Por Anselmo Massad

 

Professor de sociologia da Universidade das Filipinas, Walden Bello figura entre os principais pensadores do Fórum Social Mundial desde sua primeira edição. Consultor da Focus in The Global South e de uma série de outras organizações da sociedade civil. Ele defende que a ideia de espaço aberto que tem prevalecido na organização do FSM seja superada por um tipo de postura mais ativista e com capacidade de liderança.
Na Carta de Princípios do Fórum consta a luta contra o neoliberalismo, o denominador comum encontrado em 2001 para aglutinar todos os movimentos que foram a Porto Alegre na ocasião e que voltaram a se mobilizar depois disso. Porém, Bello considera que o colapso desse modelo significa que os altermundistas devem se dedicar a pensar além do capitalismo.
Nesta entrevista, concedida depois de um painel sobre o futuro e as conquistas obtidas pelo Fórum, ele fala ainda sobre a crise e critica a postura dos Estados Unidos em ações humanitárias. Confira os principais trechos.

Fórum – Em sua opinião, qual o papel do Fórum Social Mundial diante do atual contexto de crise?
Walden Bello –
Neste momento, o maior papel do Fórum foi fornecer e facilitar uma alternativa ao sistema atual, o que o torna especialmente importante diante do colapso do capitalismo. No entanto, se parte da elite capitalista já está além do neoliberalismo, deverá surgir alguma forma de expansão da socialdemocracia. Talvez [Barack] Obama seja alguém capaz de articular esse tipo de abordagem, muito diferente da visão neoliberal. Ela pode exigir mais direitos trabalhistas, mais limites ao lucro do capital no sistema financeiro, que sejam criados observatórios de gestão empresarial. Mas tudo isso são mecanismos para fazer com que o capitalismo sobreviva.
O que as pessoas no Fórum precisam saber é quais são as iniciativas vindas de socialdemocratas que vamos apoiar e quais são os que devemos combater. E como formular o discurso e nossas visões voltadas para formas diferentes dessas dedicadas a estabilizar o capitalismo. São medidas de gestão social, para administrar as contradições. O que nós buscamos é a libertação social. É papel do Fórum articular uma alternativa à socialdemocracia global.

Fórum – O FSM deve continuar com a proposta de ser um espaço aberto ou deve tomar posições?
Bello –
Acredito que deva continuar a ser um espaço aberto, mas de um modo diferente, um espaço aberto combativo, no sentido de tomar algumas posições a partir de certas perspectivas e estratégias e não de se tornar um partido político – seria sua morte. Por exemplo, desde o encontro [do Conselho Internacional] de Bancoque, em 2002, eu já estava entre os que questionavam por que o Conselho vetava uma declaração do Fórum sobre a guerra no Iraque, sobre a OMC [Organização Mundial do Comércio], sobre a situação do povo palestino. O Fórum deveria ter plataformas claras. Não tê-las impediu o movimento de ser mais efetivo e ativista, fez dele um tipo de festival bienal em que, entre os eventos, não há vida real. É necessário fazer do FSM uma força política global, capaz de assumir uma postura de liderança. Não precisaria ter posição sobre tudo, mas em questões globais chave. É isto que falta ao Fórum, ser mais ativista.

Fórum – Este momento de crise seria adequado para isso?
Bello –
Acredito que sim. Quero enfatizar que não devemos mais concentrar nosso esforço em lutar contra o neoliberalismo, porque o neoliberalismo entrou em colapso. É claro que continua a haver sobreviventes defendendo o modelo. Mas o ponto-chave é pensar quais são as novas alternativas para confrontar o sistema, senão as alternativas vão ter uma natureza de reforma [do capitalismo].

Fórum – O senhor defende que a crise do capitalismo é mais do que financeira. Por quê?
Bello –
Não acredito que podemos entender o que aconteceu sem analisar a crise capitalista de superprodução que ocorreu há 25 ou 30 anos. Justamente pela capacidade do capitalismo de criar tanta riqueza e, ao mesmo tempo, criar desigualdades, faz com que não haja possibilidade de se consumir toda essa riqueza. Em resposta a essa crise de superprodução, o capitalismo escolheu três rotas. Uma foi a re-estruturação neoliberal, a segunda foi a globalização e a terceira, a financeirização. Essas três rotas não funcionaram. Portanto, é uma crise financeira? Não, é, na verdade, uma crise do sistema capitalista real. A financeirização foi um caminho que se pensou que funcionaria ao simplesmente fazer dinheiro circular no sistema financeiro gerando lucro. Só que obviamente terminou.

Fórum – Quais as consequências especialmente para os países do Sul?
Bello –
A primeira consequência de a crise não ser apenas financeira é que tem impacto na economia real. As economias vão sofrer na Europa, na Islândia, nos Estados Unidos; e as do leste da Ásia e da América Latina são muito dependentes do mercado estadunidense. O que há é um colapso ou uma rápida redução de produção, com muitas demissões na China, trabalhadores indo embora para o campo; há recessão que se torna depressão no Japão. Da parte do mundo de onde venho [Filipinas], os principais efeitos da crise financeira sobre a economia ainda estão por vir. Por isso, acredito que os movimentos sociais devem se concentrar em espalhar o que parece mais avançado na América Latina. Por já haver, nesta parte do mundo, movimentos e Estados antineoliberais mais fortes, a capacidade para resistir é maior.

Fórum – O senhor mencionou a guerra do Iraque e a questão palestina. No FSM há algum modelo para a segurança internacional?
Bello –
Não podemos dizer que temos um modelo. O caminho para um mundo mais pacífico é muito complicado, mas basicamente devemos fortalecer as Nações Unidas de uma forma que se democratize o Conselho de Segurança. O problema é que existem poderes dominantes nessa instância que ainda detêm todo o controle. A reforma da ONU é realmente importante, mas é preciso também enfraquecer, senão eliminar completamente, organismos como a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que são claras expressões da hegemonia dos Estados Unidos. Por exemplo, não podemos entender o conflito na Georgia sem considerar o fator externo de que os Estados Unidos estavam expandindo a Otan até que cercasse toda a Rússia.
Finalmente seria muito importante, neste ponto, construir um movimento pacifista global – com a força que tiveram os eventos de fevereiro de 2003 – que se constituiria em uma importante força contra a intervenção [militar]. Não tenho ilusões de que os Estados Unidos vão deixar de ser intervencionistas. O Afeganistão será um ponto central de conflito, na luta para que as tropas deixem o país. Esse movimento pacifista teria de pressionar por uma resolução justa para a situação palestina. Os Estados Unidos apoiam o Estado de Israel com tanta intensidade que é necessário um contradebate para exigir que não haja mais colônias [em territórios da Cisjordânia]. É preciso dizer que deve haver um Estado palestino, que o Hamas seja reconhecido, que precisamos de uma nova realidade no Oriente Médio. O único motivo pelo qual Israel pode sair livre [de retaliações internacionais] depois dos ataques decorre do suporte militar e diplomático que tem dos EUA.
Uma das questões que devemos observar é o tipo de proveito que o governo [de Bill] Clinton tirou das ações militares para fazer avançarem os interesses dos Estados Unidos. Fez-se isso na Bósnia e em Kosovo, cujo resultado foi o fortalecimento da Otan. As pessoas no Sul estão realmente preocupadas com o que vai haver em Darfur se houver uma “intervenção humanitária”. O temor é que, por trás dela, estejam os objetivos dos Estados Unidos. É uma questão mais complexa, mas a segurança internacional precisa estar na agenda de movimentos como o Fórum Social Mundial. F



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