Posição do Brasil no mundo

Mundo do Trabalho Por Marcio Pochmann   O começo do século XXI consagrou uma nova base divisora do mundo, tal como se observou há 100 anos. Naquela...

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Mundo do Trabalho

Por Marcio Pochmann

 

O começo do século XXI consagrou uma nova base divisora do mundo, tal como se observou há 100 anos. Naquela oportunidade, simultaneamente ao deslocamento do centro dinâmico da Inglaterra para os Estados Unidos, surgiu uma alternativa econômica às economias de mercado, pronunciada pela Revolução Russa, em 1917. Atualmente, o formato original dos três mundos – constituído pela nata do desenvolvimento do capitalismo mundial (primeiro nível), pelo bloco de países com experiências de socialismo real (segundo nível) e pelo restante das nações submetido ao subdesenvolvimento – passa por uma profunda transformação sem ainda um desfecho final.
De um lado, percebe-se que o desarranjo do império soviético vem acompanhado por sinais de perda de influência da nata do capitalismo mundial. Desde o esgotamento do sistema monetário organizado a partir das instituições de Breton Woods, o mundo capitalista tem convivido com freqüente instabilidade, com mais de 30 crises financeiras verificadas, algumas como a atual, em curso nos EUA.
De outro, observa-se o deslocamento do centro dinâmico estadunidense para a Ásia, com a China assumindo uma experiência de desenvolvimento das forças produtivas somente comparável à própria experiência dos Estados Unidos ao final do século XIX. Nos dias de hoje, a China já responde por 1/4 da produção mundial de máquinas de lavar, 1/3 da de televisores, 2/5 da de microondas, metade da de câmaras, 4/6 da de fotocopiadoras e 90% da de brinquedos eletrônicos. De posse de quase 2/3 das gruas do mundo, o país constrói a base material mais moderna da atualidade, reinventando o sistema econômico com inovação e padrão tripartite de gestão da produção (empresa, sindicato e Estado).
Nesse sentido, o novo formato do planeta tende a fazer da China e de seus satélites a grande oficina de manufatura mundial, enquanto a Índia se fortalece como o escritório do mundo. Se a Ásia define o seu futuro, e o mesmo faz a Europa, que em torno de sua União conforma um grande espaço supranacional, o continente americano permanece sem rumo. O desarranjo imposto pelas administrações recentes nos EUA somente consegue ser superado pelo largo fracasso do modelo neoliberal defendido pelos organismos multilaterais e aceito passivamente por diversos governos latino-americanos e caribenhos.

Distintamente das nações asiáticas, em especial a China, a América Latina aceitou as falsas lições neoliberais. O resultado é reconhecido: abertura comercial, privatização e internacionalização da produção não permitiram expansão sustentada do crescimento, tampouco transferência tecnológica e expansão social.
O apequenamento latino-americano e caribenho trouxe o agravamento da questão social, que implicou um conjunto de mudanças políticas de grande proporção. Embora não aponte ainda o sentido claro para a construção de um novo modelo econômico e social, as alternativas experimentalistas atualmente em curso na região indicam a vitalidade de acertar o passo com a justa modernidade.
O Brasil é um caso emblemático dos equívocos neoliberais na região. Após ter sido o melhor exemplo de dinamismo econômico do século XX, que permitiu sair da 56º economia do mundo para a oitava, ingressou em uma fase de retrocesso que o levou à 14ª posição. Com a abertura comercial, econômica e financeira que gerou a desintegração do sistema nacional de inovação e da estrutura produtiva, o país ficou à deriva, com enorme vulnerabilidade externa e contaminação extrema da lógica do curto prazo. O projeto de país circunscreveu ao primitivismo do combate à inflação, acreditando que, por conseqüência, o crescimento econômico se sustentaria por si próprio.
Mais recentemente, a perspectiva do desenvolvimento começou a renascer. Mesmo assim, encontra-se ainda turvada, sobretudo pelas benesses atuais do primarismo exportador. Ao mesmo tempo em que contribui positivamente para afastar os riscos das vulnerabilidades externas e estimular a economia e a ocupação, termina por acorrentar o país à produção de produtos de baixo valor agregado, reduzido conteúdo tecnológico e emprego de padrão asiático. Por conta disso, parece não haver abertura abrangente para a conformação de um país de ampla classe média, mas sim aplastado na crescente polarização entre as camadas de baixo e as de cima da pirâmide social. Os riscos de uma saída tipo FaMa – sigla que resulta das iniciais das palavras Fazenda e Maquiladora – são enormes, uma vez que combina a produção em larga escala de bens primários com manufaturados montados a partir do uso difundido de insumos importados.
Um sinal disso pode ser encontrado na evolução da participação do país na ocupação mundial. A partir das informações disponibilizadas pela Organização Internacional do Trabalho, o Brasil aumentou em 11,1% a sua participação relativa na ocupação no setor primário nos últimos 26 anos (de 1,8% para 2%), após três décadas de perda de importância relativa. Simultaneamente, o peso do emprego industrial brasileiro no mundo caiu mais de 23% (de 3% para 2,3%) no mesmo período, depois de forte expansão entre 1950 e 1980. Afastar os riscos da FaMa não implica condenar o setor primário, mas sim apoiá-lo com políticas públicas que permitam tanto elevar o valor agregado como recolocar o Brasil na economia mundial. F



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