Pra que biofobia?

Não se engane com “determinismos biológicos”. Desde o final do século XX, evolucionistas têm derrubado argumentações deterministas ou fatalistas sobre a natureza humana.

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Não se engane com “determinismos biológicos”. Desde o final do século XX, evolucionistas têm derrubado argumentações deterministas ou fatalistas sobre a natureza humana.

Por Vange Leonel

Quer deixar uma feminista furiosa? Diga que o papel da mulher é, essencialmente, ligado à sua função biológica como reprodutora. Ou que ela pertence ao sexo que, instintivamente, tem mais condições de cuidar da prole. É verdade que nossos corpos têm um útero capaz de abrigar e levar adiante uma gestação. Não se pode negar também que a amamentação traz benefícios para o bebê. Mas como lidar com esta condição biológica sem incorrer num tipo de sexismo benevolente que nos coloca como nutrizes preferenciais e alvo de um essencialismo perverso?

A solução, a meu ver, seria colocar um fim na dicotomia inútil e já ultrapassada entre biologia e cultura, entre ciências sociais e ciências biológicas, entre o que é inato e o que é adquirido.

Não se engane com “determinismos biológicos”. Desde o final do século XX, evolucionistas têm derrubado argumentações deterministas ou fatalistas sobre a natureza humana. Há mais variedade de comportamentos e papéis sexuais entre sociedades humanas do que a vã antropologia clássica poderia imaginar. Em vez de negar estudos biológico-evolutivos, eu, feminista, me aprofundei neles e descobri um corpo teórico que pode ser muito útil na luta por um mundo mais igualitário.

Em primeiro lugar, ao contrário do que Freud dizia, anatomia não é destino. Se de fato não nascemos mulher, mas nos tornamos mulher (e não nascemos feministas, mas nos tornamos feministas), é verdade também que nosso corpo biológico pode ser transformado pelo ambiente físico e até por nós mesmos. Numa época em que cirurgias para mudança de sexo ficam mais corriqueiras e um macaco pode sentir texturas através de um braço biônico, a cisão entre tecnologia, ciências sociais e biologia parece cada vez mais inadequada.

Em segundo lugar, estudos de antropólogas e biólogas feministas contribuem cada vez mais para eliminar a biofobia entre o movimento de mulheres e, ao mesmo tempo, abrem os olhos dos colegas cientistas para o machismo existente em seus campos de conhecimento. A antropóloga e primatologista feminista Sarah B. Hrdy, por exemplo, demonstrou que fêmeas primatas podem ser tão promíscuas quanto os machos (algo que Darwin não percebeu) e, em seu mais recente trabalho, diz que não há como criar filhos sem uma extensa rede de proteção social e afetiva. Hrdy criou o termo allomother para designar indivíduos de ambos os sexos que ajudam a mãe na criação de seus filhos. Como se sabe, a criança humana tem uma infância longa e, por isso, é mais dependente de tempo e recursos que qualquer outra espécie animal. Sendo assim, Hrdy cogitou que, sem assistência da comunidade, nenhuma mulher poderia dar conta, sozinha, de criar seus filhos (sim, desde a pré-história as mulheres acumulam trabalho e maternidade, lidando com a falta de contribuição paterna).

Enfim, Hrdy concluiu que “a ajuda de allomothers foi essencial para a sobrevivência de crianças durante a era do Pleistoceno”. Se você pensou que darwinismo era a “sobrevivência do mais forte”, saiba que hoje também pensamos em evolução como “sobrevivência dos que mais cooperam”.

As sociólogas feministas que lutam por mais creches, maior divisão de tarefas domésticas, licença maternidade e Bolsa Família nas mãos das mulheres (para lhes dar mais autonomia) estão, no fundo, falando quase a mesma língua das biólogas feministas. Assim, biofobia (aversão à biologia) não tem o menor sentido.

E-mail: vangeleonel@uol.com.br

Twitter: @vleonel



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