Presença da mulher no FSM

Nos Fóruns, as mulheres têm discutido um conjunto de temas que não se limitam ao feminismo Por Moacir Gadotti   Durante a realização do Fórum Global, na...

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Nos Fóruns, as mulheres têm discutido um conjunto de temas que não se limitam ao feminismo

Por Moacir Gadotti

 

Durante a realização do Fórum Global, na Rio-92, uma das tendas mais concorridas foi a Planeta Fêmea. A participação das mulheres foi decisiva na preparação do evento, destacando-se, no Brasil, o protagonismo da Rede Mulher. Elas participaram ativamente da discussão e elaboração do Tratado da Educação Ambiental e para as Sociedades Sustentáveis e a Responsabilidade Global.
Com essa organização, não é de se estranhar que, anos depois, a participação da mulher no Fórum Social Mundial seja tão importante. Participam do Conselho Internacional do FSM diversas organizações, entre elas: Articulación Feminista MercoSur, Marcha Mundial das Mulheres, Red Latinoamericana y Caribeña de Mujeres Negras, Red Mujer y Hábitat, Red Mundial de Mujeres por los Derechos Reproductivos, Red Latinoamericana Mujeres Transformando la Economia, Red de Educación Popular entre Mujeres.
Nos Fóruns, as mulheres têm discutido um conjunto de temas que não se limitam ao feminismo. Entre eles, discutidos em diferentes espaços como o “Fórum de Mulheres”, podemos destacar: Agenda 21, Gênero e desenvolvimento; Direitos sexuais; Saúde, sexualidade e direitos reprodutivos; Políticas públicas de gênero e de raça; Violências contra a mulher; Turismo sexual, tráfico e exploração de mulheres e meninas; Mulheres, vulnerabilidade – DSTs e Aids; Gênero e empoderamento; Direitos humanos e inclusão; Mulher e mídia.
A programação das mulheres no FSM sempre foi muito densa, incluindo o debate das alternativas feministas para um outro mundo possível, uma outra economia possível, economia e gênero, educação e gênero etc., ao lado da questão do racismo, da dominação, do sexismo e da pobreza em que principalmente as mulheres negras vêm tendo um destaque particular. A Marcha Mundial das Mulheres desenvolve ações globais com movimentos de diferentes partes do mundo para combater a pobreza e a violência sexista e romper com valores e condições materiais que sustentam o machismo, a opressão e a exclusão na nossa sociedade.
A participação das mulheres nos debates da economia solidária tem chamado muito a atenção. Elas têm falado desta outra economia possível e já em processo, uma economia da vida cotidiana, com a qual elas têm muita experiência e reflexão. No Fórum Brasileiro de Economia Solidária, as “mulheres produtoras” têm se destacado, colocando o tema da relação entre economia e feminismo e debatendo a situação do trabalho feminino na economia solidária e na produção do bem viver. Tanto na preparação dos Fóruns quanto na sua realização, as mulheres estão sempre em maioria, nas marchas, nas discussões, nas plenárias. Também são responsáveis pela presença cada vez maior de crianças nos eventos dos Fóruns.
Isto nos faz lembrar uma fala de Leonardo Boff, num dos encontros do FSM, quando nos falou a respeito da necessidade de resgatar o princípio feminino. Disse Boff que somos reféns de categorias dualistas como razão-emoção, humano-divino, homem-mulher… Usamos a razão para conquistar e perdemos de vista nossa capacidade de sentir o outro, de sermos sensíveis à dimensão espiritual, perdemos nossa capacidade de ternura, de benevolência, de compaixão. Não podemos falar de sagrado sem falar do princípio feminino, de nossa capacidade de enternecimento, de sensibilidade que existe em igual proporção em homens e mulheres, mas que é negado ao homem por causa de sua cultura machista.
Em 2008, o debate em torno da Lei Maria da Penha, reconhecendo como esfera do direito público a agressão dentro de casa, deu visibilidade a um debate ainda pouco notado: a condição serviçal de muitas mulheres, sobretudo as que trabalham no campo. Mesmo sabendo que as camponesas acumularam grandes saberes sobre plantas e alimentos, desde a criação da agricultura elas foram sistematicamente invisibilizadas pelo patriarcado dominante. Contra essa situação, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), um dos iniciadores do FSM, definiu em seu Decálogo de 1999, entre outros direitos, que “a concessão de uso da terra nos assentamentos deve ser em nome da mulher e do homem” e que “em todas as atividades do MST deve haver paridade: 50% de mulheres e 50% de homens”. Essa conquista de direito de existir, em pé de igualdade, interrompe uma trajetória de masculinização das classes trabalhadoras, enraizada no patriarcalismo dominante no campo.
A participação das mulheres, em espaços como os do FSM, vem dando resultados concretos. Mas, apesar desse protagonismo, o caminho a percorrer ainda é longo. Existe ainda, na sociedade brasileira, uma grande maioria de mulheres do campo e da cidade, que assumem uma dupla ou tripla jornada de trabalho, tendo que dedicar-se ao cuidado dos filhos e das atividades domésticas, socialmente desvalorizadas.
Em seu último encontro, o FSM Amazônia, em relação a esse tema, afirmou a necessidade de ampliar as discussões, os estudos e as pesquisas com mulheres e sobre o tema da mulher, construindo espaços autônomos de mulheres nos quais elas possam expressar-se e debater sobre assuntos que lhes dizem respeito, levando-as a se empoderar cada vez mais, superando a discriminação e garantindo a igualdade nas relações sociais de poder. Estamos avançando.
No próximo número falaremos da IX edição do FSM.



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