Quem pode conter o fluxo?

Frases curtas no Twitter escritas às pressas ou observações postadas no Facebook sem muita reflexão já renderam muita dor de cabeça para algumas celebridades (que se dizem “patrulhadas” como se não estivessem “falando” em...

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Frases curtas no Twitter escritas às pressas ou observações postadas no Facebook sem muita reflexão já renderam muita dor de cabeça para algumas celebridades (que se dizem “patrulhadas” como se não estivessem “falando” em praça pública). Ações judiciais podem atingir também usuários anônimos que estrebucham racismo e outros preconceitos, achando que a rede aceita tudo.

Por Vange Leonel

 

As redes sociais ganharam relevância e visibilidade com o surgimento da web 2.0, termo que se refere à segunda geração de serviços mais interativos na internet. Nela, o usuário tem voz e interage cotidianamente com os fornecedores de conteúdos e notícias, pode publicar seu próprio blog e torna-se, ele próprio, filtro, produtor e divulgador de informações. Sites como Orkut, Facebook e Twitter são frutos desta web 2.0 mais interativa. Como resultado desta nuvem de vozes múltiplas e aparentemente disparatadas, nascem convergências, mas também muitas discordâncias, nem sempre travadas em alto nível.

Frases curtas no Twitter escritas às pressas ou observações postadas no Facebook sem muita reflexão já renderam muita dor de cabeça para algumas celebridades (que se dizem “patrulhadas” como se não estivessem “falando” em praça pública). Ações judiciais podem atingir também usuários anônimos que estrebucham racismo e outros preconceitos, achando que a rede aceita tudo.

Não. A rede não aceita tudo. E não precisa de censura prévia. Quando há abuso na web (pedofilia, homofobia, xenofobia e qualquer discurso de ódio) existem meios para denunciá-lo. Pode-se acionar o Ministério Público do seu estado, registrar a ocorrência e esperar que os procuradores decidam se é ou não caso de polícia.

Há outros assédios menos graves na web e estes fazem parte da cultura das redes sociais: são os praticados pelos “trolls”. O termo “troll”, diz a Wikipedia, nasceu numa das primeiras redes da internet (Usenet) e se refere àquela “pessoa cujo comportamento tende sistematicamente a desestabilizar uma discussão, provocar e enfurecer as pessoas envolvidas nela”.

Existe uma máxima nas redes: “não alimente os trolls”. Ou seja: ignore-os e não dê ibope a eles. Minha regra, porém, é outra: se o “troll” é anônimo e inofensivo, eu ignoro; se é nefasto e faz apologia a qualquer atitude criminosa, eu denuncio; e se o “provocador” é famoso (na web ou “fora” dela) aí eu respondo, debato, enfrento e discuto – em alto nível.

Os “provocadores com ibope” como o comediante Danilo Gentilli, do programa CQC da TV Bandeirantes, chocou a comunidade judaica ao fazer “piada” racista no Twitter. Seu colega, Rafinha Bastos, acha que pode existir humor em piadas que envolvem estupro. Dá para ignorar estes “provocadores”? Muitos me aconselharam a “não alimentar” o ibope deles. A jornalista Cilmara Bedaque rebateu no mesmo Twitter: “O ibope é do cara. Meu negócio é promotoria e patrocinadores tirando apoio”. Assim, é preciso, acredito, confrontar este tipo de “provocador com ibope” enviando enxurradas de e-mails para portais, escrevendo posts em blogs e repercutindo nas redes sociais.

Finalmente, essas redes são um espaço público para organizar manifestações espontâneas como foi o “Churrascão de Gente Diferenciada” que, em quatro dias, reuniu centenas de pessoas para protestar festivamente pela construção de uma estação do metrô no bairro paulistano de Higienópolis, contra a vontade de parte da elite local.

A rede, assim, vai aprendendo a viver em comunidade, a se autorregular, como uma sociedade de fato. A internet, ao contrário do que pensam alguns luminares que perderam o bonde, não é uma “coisa diferenciada”, “um espaço em separado”, “uma bolha” ou “uma bobagem”. Web é fluxo, e não existe “dentro da rede” ou “fora da rede”. Tudo flui. E quem pode conter o fluxo?



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