Sem medo de jogar no ataque

Se a Copa do Mundo foi uma grande festa, também ocultou problemas sérios da África do Sul, como a violência contra as mulheres e a homofobia. Mas há quem lute cotidianamente contra essa realidade. Por...

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Se a Copa do Mundo foi uma grande festa, também ocultou problemas sérios da África do Sul, como a violência contra as mulheres e a homofobia. Mas há quem lute cotidianamente contra essa realidade.

Por Eliza Capai, de Joanesburgo

 

A África do Sul pós-apartheid ainda vive suas dicotomias. Se, por um lado, o país já conta com importantes avanços legislativos como uma Constituição que permite o casamento gay, por outro, existe também a hedionda prática do “estupro corretivo” em lésbicas. Em uma mão o maior projeto de distribuição de antirretrovirais do mundo; na outra, a maior população HIV positiva em termos absolutos do planeta. Com dois projetos que dão luz a esses temas, é possível entender um pouco da realidade dessas questões no país da Copa.

Em meio ao Mundial e à magnitude de seus mega-estádios, um time composto só por mulheres treinava num campo de terra batida em Joanesburgo. “Temos que estar bem em agosto, para a Alemanha”, explica a capitã Nokuthula Ncube. O Chosen Few, único time de lésbicas declaradas do país, luta pelos direitos das mulheres negras e homossexuais da África do Sul. Ela se preparava para a Copa Gay do próximo mês, enquanto os Bafanas eram eliminados do Mundial em casa.  O time tem bons resultados em competições internacionais como o bronze nos Jogos Gays de Chicago (2006) e no torneio em Londres (2008), mas a maior vitória das meninas parece ser fora do campo. “Antes de chegar aqui eu não tinha amigos, não saía, tinha medo”, conta Ncube.

A África do Sul, apesar de sua moderna Constituição de 2006, que permite o casamento homossexual, convive com algumas das piores práticas homofóbicas do mundo, o “estupro corretivo”. A maioria das vítimas declara que os estupradores dizem estar “ensinando uma lição a elas” ou mostrando como ser “uma mulher de verdade”. Zanele Twala, diretora do ActionAid da África do Sul, conta que “os chamados ‘estupros corretivos’ são uma manifestação grotesca da violência contra a mulher, a mais difundida violação dos direitos humanos no mundo de hoje. Esses crimes continuam crescendo e impunes, enquanto o governo simplesmente fecha os olhos”.

Esse tipo de crime alcança índices alarmantes na África do Sul. Segundo a Action Aid, estima-se que 500 mil estupros aconteçam no país anualmente. Em geral, as mulheres são violentadas por conhecidos. “Eu tinha 17 anos. Estava saindo de um restaurante quando um moço que me conhecia bem pediu que o seguisse. Ele colocou uma arma nas minhas costas e me levou até outros dois caras; um deles também me conhecia. Enquanto um deles vigiava, os outros dois me estupraram. Eles me estupraram para eu ‘virar mulher’…”, relembra Ncube. A depressão e o medo a deixaram isolada. “Não queria sair, não confiava mais em ninguém”.
A questão passou a frequentar a página de publicações internacionais em 2008 quando o corpo de Eudy Simelane, jogadora da seleção feminina de futebol da África do Sul e lésbica assumida, foi encontrado com vinte facadas no rosto, pernas e peito. Antes de ser assassinada, Simelane foi estuprada e espancada por vários homens. Ativistas dos direitos gays conseguiram que o caso fosse julgado e punido, uma exceção no país. A ONG Triangle afirma que recebe três acusações de estupro corretivo por semana, mas a violência normalmente não é denunciada. “Não fui para a polícia porque eles iam perguntar se eu sou lésbica e então diriam que eu mereço isto”, lamenta Ncube. A condenação contra estupradores e assassinos em atos homofóbicos no país ronda os 4%, ou seja, de cada 25 crimes, um tem punição.

De acordo com um estudo do Grupo Out LGBT em parceria com o Unisa Centro de Psicologia Aplicada, os abusos verbais, físicos e sexuais e a violência diminuem quando os gays passam a interagir mais entre si. “Parece que conviver com outras pessoas da comunidade LGBT protege a pessoa de abusos”, explica o documento. Desta forma, o Chosen Few serviu para muitas meninas como este primeiro passo. “Eu vivia assim, sozinha, triste até que cheguei no Chosen Few. Aqui comecei a ter amigas, a sair e descobri que sou feminista”, diz Ncube com um sorriso e uma camiseta azul-marinho na qual se lê Feminist Leader (líder feminista). Quando perguntei para a capitã como ela via a melhora da autoestima das meninas, ela sorriu. “Acho que para lhe responder isto o melhor é falar de mim….”. Ela conta a mesma história de falta de amigos e de vida social, “mas quando eu cheguei aqui comecei a jogar, ter amigos e trabalhar na administração do Few”, conta com os olhos brilhantes. O Few, Fórum para os Direitos das Mulheres, é a organização da qual o time faz parte.

Violência cotidiana

Infelizmente, o crime de estupro não se restringe às mulheres gays do país. A violência sexual na África do Sul tem números assustadores: duas em cada cinco mulheres já foram violentadas, e um em cada quatro homens admite ter forçado alguma mulher a fazer sexo. É sobretudo devido à violência sexual que o país tem o maior número de pessoas infectadas pelo HIV no mundo: 5,7 milhões (dados da Unaids, de 2007), o que equivale a 12% da população. Os pequenos vizinhos da África do Sul são os donos das maiores taxas de contaminação do planeta, ainda segundo a Unaids: Botsuana tem 25% de sua população contaminada (2008); Lesoto 23,4% (2004); Zimbábue 18,1% (2005/6) e Suazilândia 25,9% (2006/7). Neste último, a expectativa de vida caiu pela metade entre 1990 e 2007, chegando a 37 anos (dados da ONU de 2008).

A violência contra a mulher é uma das responsáveis pela taxa de contaminação entre as jovens, conforme explicam estudos publicados pela Unaids. Um deles, feito recentemente no Lesoto, atesta que 47% dos homens e 40% das mulheres do país dizem que a mulher não tem o direito de recusar sexo com o marido ou namorado”. Nos nove países da África do Sul onde há mais infectados pelo vírus, a prevalência entre mulheres jovens entre 15 e 24 anos é cerca de três vezes maior que entre os homens da mesma idade. Na África Subsaariana, 57% dos portadores do HIV são mulheres, e uma pesquisa realizada pelo Unicef em 24 países da região mostrou que dois terços das jovens não conheciam os mecanismos de transmissão do vírus. O texto do documento Mulher e HIV,da Organização Mundial de Saúde (“Women and HIV/AIDS,” 2007, OMS) diz que “As mulheres são mais vulneráveis que os homens às infecções do HIV por razões biológicas, econômicas e culturais, tais como a discriminação, desigualdade de gênero e violência”.

Na Sparrow Village (ou Vila dos Pardais), projeto da periferia de Joanesburgo que trata de pessoas contaminadas – oferecendo casa, comida, educação, serviços de enfermaria e médicos – a fundadora e diretora Corine McClintock já me havia resumido a questão. “Você só vê mulheres aqui, né? Isso se deve a alguns fatores. O homem normalmente não assume que está contaminado, então não vem. Mas o fato de que muitas mulheres chegam aqui já muito doentes é que elas primeiro cuidam e alimentam seus filhos, depois aos seus maridos e só então olham para elas mesmas”, explica Corine, com um terço católico pendurado no pescoço.

Fundada em 1992 pela então enfermeira Corine, a Sparrow Village abriga casas construídas como a dos pássaros, arredondadas, e nas ruas entre elas crianças jogavam futebol e corriam sorridentes como em qualquer bairro tranquilo do Sul do mundo, quando cheguei. Corine me disse para conversar com a professora e eu me dirigi à escola – prédios também circulares com um parquinho no meio.
Lá encontrei Prudence, uma negra de olhos brilhantes e sorriso doce. Pedi que ela contasse como funcionava a escola e ela respondeu de pronto: “acho que não é por isso que estamos conversando”, desconversou. “Hoje peso 65 quilos, mas quando cheguei aqui tinha trin-ta e três!” fala pausando, “eu era um esqueleto”, ri. “Quando descobri que tinha HIV e fiquei um pouco melhor, liguei para minha mãe. Do outro lado da linha eu só ouvi um afffff, meu deus. “Meu Deus” o quê? Eu não vou morrer, é só um vírus que está dentro de mim, respondi”.

Prudence fez o que poucas pessoas faziam – e muitas ainda não fazem – quando o assunto é Aids na África do Sul: discute o assunto. “Eu falo o tempo inteiro, isso me mantém viva”, explica depois de falar sobre o dia em que, dentro de um mini-ônibus, começou a tomar seus remédios e todos perguntaram o que era aquilo; ela então respondeu “Minhas pastilhas para HIV, não conhecem?”.

No informe do Women Deliver Contra el VIH/SIDA afirma-se que “o estigma que ronda a Aids é um dos principais obstáculos para deter a propagação, especialmente entre mulheres que fogem dos testes de diagnóstico e do tratamento por medo de serem abandonadas, sofrerem violência ou ostracismo”. E o número de pessoas vivendo com o vírus no mundo continua crescendo. Em 2008 a doença atingia entre 31,1 milhões e 35,8 milhões de pessoas, o que representa um aumento de mais de 20% em relação a 2000. Destes, 71% estão na África Subsaariana. No mesmo documento ainda se alerta que a cada 11 segundos uma pessoa morre em decorrência do vírus, enquanto que a cada seis segundos alguém contrai o vírus. Em 2008, 2,7 milhões de pessoas se infectaram (dados da Unaids) e 2 milhões morreram em decorrência do vírus no mesmo período.

Realidade e esperança

Prudence conta sobre quando seu atual namorado se declarou para ela. “Ele me disse te amo e eu respondi: você não sabe quem você ama… Eu tenho HIV”. Com um olhar que percorreu a negra de cima a baixo, ele desacreditou e ela seguiu. “Sim, tenho, e se me quiser tenho minhas condições”. Ela então discorreu sobre o perigo da recontaminação, dos cuidados extras e com um sorriso conclui o assunto. “Pô, sou mais feliz hoje em dia do que antes de saber que era portadora. Hoje sei meus limites e saio, danço, vou ao cinema, tenho uma vida social ótima”, comemora.

A forma como lida com o vírus e com sua vida acabam sendo assunto na sala de aula. “Meus alunos conhecem o meu namorado e eu sempre falo para eles ‘não façam nada que eu não faria’… Eu sei que sou um exemplo para eles, um milagre…”. Esta nova geração que fala do assunto, em conjunto com as novas drogas, tem começado a mudar o quadro da doença. De acordo com a OMS, dados de 2009 mostram que a contaminação por HIV entre jovens caiu em muitos países. A cobertura por serviços de prevenção de mãe para filhos subiu de 10% em 2004 para 45% em 2008.

A mãe de Simon não conseguiu receber o tratamento para combater o vírus. Ele é um dos 14 milhões de órfãos da África Subsaariana em decorrência da Aids. Quando chegou ao Sparrow, os médicos acreditavam que ele entraria para as estatísticas dos quase 300 mil menores de quinze anos que morrem anualmente em decorrência do vírus (segundo dados de 2008). O menino, que em abril era esquelético, hoje é um saudável garoto-propaganda do projeto. Ao lado do pequeno, Corine explicava. “Nós temos muito orgulho de nossa equipe de enfermagem. Com ela e uma boa alimentação, carinho e com a medicina antirretroviral temos conseguido salvar muitas vidas”, comemora. Atualmente, 225 crianças moram nas casinhas arredondadas da vila.

Em 2004 apenas 4% dos sul-africanos recebiam tratamento antirretroviral; em 2007 ele passou a estar disponível para 28% dos pacientes em estado avançado e atualmente o país tem o maior projeto de terapia antirretroviral do mundo. A África do Sul vem obtendo substanciais benefícios na saúde pública associados com a melhora do acesso ao tratamento. E isso anima Prudence. “Sempre falo com meus alunos: não percam a esperança. Vocês estão crescendo, a gente não sabe, pode ser que descubram a cura da Aids logo. E quero ver vocês no futuro, quero ver vocês mães e pais, grandes, realizados. Quero poder falar no futuro para cada um: ‘este é o meu menino’”. Assim, Prudence encerra a entrevista, com um sorriso convicto e emocionado.



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