Sem tempo

Mais de um século depois, as coisas mudaram consideravelmente para as mulheres, mas, como admitem os estudos acima citados, a parcela feminina da população continua carente de tempo para si, para o lazer e...

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Mais de um século depois, as coisas mudaram consideravelmente para as mulheres, mas, como admitem os estudos acima citados, a parcela feminina da população continua carente de tempo para si, para o lazer e para o ócio criativo.

Por Vange Leonel

 

Ela pode ser casada, solteira, trabalhar fora ou em casa, ter filhos ou não. Uma coisa é certa: falta tempo para as mulheres se divertirem. Estudos recentes i mostram que as brasileiras têm menos tempo para o lazer que os homens. Afazeres domésticos e cuidados com os filhos (funções que a maioria dos homens não assume ou compartilha como deveria) engolem o tempo de descanso da mulher.

Num livro que se tornou seu primeiro ensaio feministaii, Virginia Woolf também afirmou que a falta de tempo das mulheres prejudica até mesmo sua escrita.  Após a leitura de raras escritoras do século XIX, Woolf percebeu naqueles textos uma narrativa tíbia, descontínua, como se carecessem de densidade ou fôlego. A escritora inglesa concluiu que essa “descontinuidade” do texto talvez se devesse às inúmeras interrupções que suas colegas de ofício sofriam no dia a dia. Paravam de escrever um romance para tratar do almoço, deixavam a caneta de lado para cuidar do filho, engavetavam ensaios para se dedicar ao marido e etc. Daí, concluiu ser mais comum haver ótimas escritoras contistas e ensaístas do que romancistas. O texto curto era o único que cabia no cotidiano atribulado de uma dona-de-casa.

Mais de um século depois, as coisas mudaram consideravelmente para as mulheres, mas, como admitem os estudos acima citados, a parcela feminina da população continua carente de tempo para si, para o lazer e para o ócio criativo.

Recentemente, li uma coluna no The Guardian, da jornalista e romancista Naomi Alderman, que me lembrou muito as reflexões de Virginia Woolf sobre o cotidiano interrompido de uma mulher. Alderman, que também escreve resenhas sobre videogames, explicou as razões para que as mulheres apreciem jogos mais breves enquanto homens preferem games mais elaborados que consomem horas ininterruptas de dedicação. A razão desta assimetria de gênero na escolha dos videogames, vocês já podem adivinhar: as mulheres não têm tempo.

Alderman percebeu também que o mercado de games para jogos curtos (chamados “Jogos Casuais” ou “Casual Games”) vem crescendo bastante. Além de servirem a um público feminino que não dispõe de tempo livre, os joguinhos breves, do velho Tetris até o novo Angry Birds, são ideais para celulares, para quem está na fila do banco, na sala de espera ou no ônibus voltando para casa.

Mas algo me parece perverso nesta equação entre os fenômenos antropológicos e mercadológicos do tempo curto da mulher: os produtos culturais vão sendo adaptados para o pouco tempo feminino, mas, infelizmente, nada é feito para estender este período de lazer.

Por que não podemos permanecer por horas a fio jogando Civilization V? Por que nós, mulheres, não conseguimos ainda garantir um tempo de qualidade que nos permita trancar a porta do escritório, esquecer almoço, filho e marido e escrever por vinte horas seguidas capítulos e mais capítulos de uma futura obra de arte?

A resposta é tão dolorosa quanto simples: poucos percebem que a revolução feminista também deve acontecer dentro de casa. A parcela peluda da sociedade poderia assumir metade das tarefas domésticas e do cuidado com a família, deixando que as mulheres se divirtam sem culpa.



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