Sintonizando Heliópolis

Como muitas emissoras comunitárias do País, a Rádio Heliópolis tem dificuldades para se manter no ar, mas sua atuação já faz parte da história local Por Nina Fideles  ...

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Como muitas emissoras comunitárias do País, a Rádio Heliópolis tem dificuldades para se manter no ar, mas sua atuação já faz parte da história local

Por Nina Fideles

 

Em 1992, com alguns alto-falantes “cornetas” pendurados nos postes da conhecida Rua da Mina, a Rádio Heliópolis começou a transmitir sua mensagem e a fazer parte da vida das pessoas deste lugar que já foi considerado a maior favela do Brasil. É cerca de um milhão de metros quadrados, e possui uma população de mais de 190 mil habitantes, nos 14 núcleos existentes em Helipa, como a comunidade é carinhosamente chamada.

Hoje, perto de completar 20 anos, a emissora já passou por diversas frequências do dial, inúmeras notificações de fechamento e uma “visita” da Anatel e da Polícia Federal, que levou todos os equipamentos recém comprados. Mas a história da Rádio Heliópolis mostra que a disputa travada pelas emissoras comunitárias pelas ondas do espaço brasileiro ainda é permeada por leis polêmicas, processos intermináveis de homologação, além de envolver interesses e recursos das poderosas empresas midiáticas. Uma história semelhante à de tantas outras rádios comunitárias por todo o país, que já conseguiram, ou ainda não, operar dentro dos marcos da lei.

Do poste ao dial

Depois de cinco anos transmitindo a programação por meio das “cornetas”, a rádio entrou no sistema de dial, em 1997, e passou a operar sem autorização, como “pirata”. Nesse mesmo ano, a Lei 9.612 entrava em vigor, instituindo o serviço de radiodifusão comunitária, e a vida da Rádio Heliópolis mudou. A lei passava a limitar a potência, o alcance, e colocava todas as rádios comunitárias operando em um mesmo dial. Para Laurindo Leal Filho, sociólogo, jornalista e professor de Jornalismo da ECA-USP, a legislação brasileira é restritiva e conivente com os interesses de grandes meios de comunicação, que não querem ser incomodados. “Os detentores do poder no Brasil vão tentar impedir qualquer tipo de concorrência, pois o principal objetivo deles é comercial”, afirma.

Quando a lei entrou em vigor, a Rádio Helió­polis teve todos os equipamentos apreendidos na “Operação Sintonia” e um dos coordenadores da rádio foi preso por algumas horas, mesmo com o processo de regularização tramitando no Ministério das Comunicações. Ao ser levado pela Polícia Federal, João Miranda disse aos policiais que “não sabia que orientar e informar a comunidade era crime”. Quem conta a história é Reginaldo José Gonçalves, coordenador geral da rádio e diretor da Unidade de Núcleos Associações e Sociedades dos Moradores de Heliópolis (Unas) e do Projeto Jovens Alconscientes. Há mais de 19 anos Gonçalves está atuando na emissora. Entrou como auxiliar no programa de música negra da programação, anotando pedidos dos ouvintes e, alguns anos depois, assumiu a locução do programa Revolução Rap.

“Quando a rádio surgiu foi por uma necessidade da comunidade de discutir os problemas, de informar os dias de mutirão. Até entrarmos no dial, eu não tinha noção do que era uma rádio comunitária, de sua importância e do poder que tínhamos nas mãos”, conta Gonçalves. Em 2008, a rádio conseguiu uma permissão para operar em caráter experimental para fins científicos, uma maneira de testar a frequência 87,7 FM, que abriga as rádios comunitárias que conseguiram a concessão. Um ano após o período de experiências, finalmente saiu a legalização, o que implicava operar nas limitações impostas pela lei para as rádios comunitárias, ou seja, com um transmissor de até 25 watts de potência, atingindo o raio de um quilômetro. Ainda assim, a emissora consegue chegar a quase toda Heliópolis e regiões próximas.

Todos os veículos que passaram pelo processo experimental e que tiveram suas licenças regularizadas ocupam o mesmo espaço, o que, para Gonçalves, faz com que as próprias rádios passem a brigar entre si, provocando a desarticulação do movimento. Além disso, sintonizados praticamente no primeiro dial, alguns aparelhos sequer conseguem encontrar a sintonia. “Mesmo considerando a era digital, a rádio comunitária, se bem instituí­da, tem um papel importante nas pequenas comunidades e regiões mais afastadas, como a Amazônica e algumas áreas rurais. Os grandes meios de comunicação passam a informação de maneira muito homogeneizada, com pautas mais abrangentes, e pouca coisa de local, que é mais atrativa para um público da região”, opina Leal.

Gonçalves concorda com a análise. “Nossa rádio tem que ser diferenciada. Falar do mundo, do Brasil, mas principalmente da nossa comunidade. E quando se tem informação, se consegue melhorar a vida, lutar pelos direitos, dos seus e do local onde se vive.”  Exemplo dessas mudanças são as diversas histórias que permeiam a vida da rádio e da comunidade. Uma vez, a filha procurava a mãe depois de 30 anos. Do Ceará, descobriu que a mãe morava em Heliópolis e contatou a rádio. Com o nome completo da mãe e alguns telefonemas, as duas se reencontraram.  “Eu não consigo ver Heliópolis sem a rádio comunitária. Tudo perpassa pela rádio e nós temos um veículo de comunicação à disposição da comunidade. É um orgulho”, salienta Gonçalves.

Dezoito horas no ar

São 32 locutores voluntários para manter a rádio funcionando entre as 6 horas da manhã e meia-noite, com música e muita informação. Há programas voltados especificamente para determinados temas como saúde, meio ambiente, cultura e educação. A área musical da rádio também é bem eclética. Gonçalves conta que logo mais será inaugurado um programa de música clássica em parceria com o Instituto Bacarelli, uma escola de música que também atua na região de Heliópolis. “É por meio da demanda da comunidade que criamos a programação. Se alguém estiver sentindo falta de algum tipo de música, ele mesmo pode criar um programa para contemplar o estilo”, conta.

Entre os locutores está Danilo Barreto, 27 anos, conhecido como Mano Zóio. Ele é quem comanda o programa Revolução Rap, o mesmo que Gonçalves conduzia há alguns anos. Nascido e criado em Heliópolis, Zóio acompanha a vida da rádio desde 1995 e lembra quando a ouvia ainda pelos megafones nos postes. “Eu sempre ficava curioso e com vontade de falar no microfone, mexer na mesa de som”, recorda. Foi em 2000 que assumiu um programa e, desde então, nunca mais parou. “A rádio é uma escola para Heliópolis. Com ela conquistei muita coisa, conheci pessoas, música e história”, afirma.

Como em toda a programação, a preocupação em passar a informação também está presente no programa do Zóio. Citando alguns dados do desmatamento da Amazônia, diz que gosta de passar a importância do cuidado com a natureza para os ouvintes, como a prática da separação do lixo, a conscientização dos jovens em relação ao uso do álcool, o respeito ao próximo e à comunidade. Quanto às músicas ouvidas pelos jovens, ele se mostra preocupado.  “Não é qualquer música, qualquer rap, que coloco na programação. Tem que ter a ver com o nosso dia a dia, com a nossa comunidade e com a nossa missão de conscientizar sobre a importância da vida, falar de amor”, conclui.

Mas quem pode falar com conhecimento de causa a respeito da programação é a piauiense Francisca Maria dos Santos, a Chiquinha. Costureira, com 47 anos e há 15 morando em Heliópolis, ela sintoniza a rádio praticamente o dia todo. “Eu acordo, ligo o rádio e aí vou fazer meu café, fazer as minhas coisas. E só depois que a programação acaba que eu vou dormir”, diz. Ela conta que, antes de conhecer a emissora, ouvia uma estação comercial, mas, depois de ter ficado acordada até às 3 horas da manhã esperando tocar a música que pediu, resolveu mudar. “Nessas rádios a gente não consegue falar ao vivo, mandar abraço pros amigos, oferecer uma música, dizer um boa-noite”, explica.

Gonçalves ressalta a importância de Chiquinha no momento em que a rádio entrou no período experimental com a mudança de dial. Ali, foi necessário um forte trabalho de divulgação e, por conta disso, ela telefonava todos os dias, divulgava a emissora e incentivava todas as suas amigas a ligar também. “Teve um dia que eu contei: liguei 24 vezes”, conta orgulhosa. Até hoje tem o hábito de telefonar durante toda a programação, sem distinção de estilo musical e locutor. “Quando ela não liga, a gente até estranha, fica preocupado, acha que ela tá doen­te ou que aconteceu alguma coisa. Rola até uma ciumeira, quando ela deixa de ligar para algum programa”, brinca Gonçalves.

Segundo ele, as maiores dificuldades em manter a rádio são financeiras, que sobrevive de doações e apoios culturais de ONGs e pessoas.  “A lei regulamenta, mas não dá condições de fazer o trabalho. A maioria das rádios que conseguiu a concessão não se manteve viva.” Para Laurindo Leal, a manutenção, a viabilidade financeira dessas rádios, e a presença da comunidade no dia a dia são pontos que devem ser vistos com muito cuidado. “É importante garantir a participação efetiva das pessoas nas rádios, pois grande parte delas acaba tendo seus objetivos desviados por políticos e igrejas locais, e se tornam porta-vozes destes interesses. E a questão da publicidade pode gerar desvios nos objetivos dessas emissoras. É preciso criar outros mecanismos de apoio do Estado”, opina. Ele menciona que parte da receita de algumas emissoras de TV aberta e a cabo nos Estados Unidos é revertida para um fundo comum voltado para emissoras de televisão comunitárias.

A política de outros países sobre os serviços de radiodifusão é bem diferente da que é aplicada no Brasil. Movimentos e organizações populares que lutam pela democratização da comunicação travam batalhas no Legislativo e nas ruas para ampliar a atua­ção dessas rádios, que, sendo comunitárias, transformam e informam. Enquanto isso não acontece, sintonize a Heliópolis.



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