Tão longe, tão perto

Confira a primeira de uma série de reportagens sobre o continente africano antes da realização do Fórum Social Mundial de Dacar, no Senegal, em 2011. Conheça Cabo Verde, originalmente apenas um entreposto de escravos...

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Confira a primeira de uma série de reportagens sobre o continente africano antes da realização do Fórum Social Mundial de Dacar, no Senegal, em 2011. Conheça Cabo Verde, originalmente apenas um entreposto de escravos que hoje guarda muitas semelhanças com o Brasil

Por Eliza Capai, de Praia, Cabo Verde

 

Há quase dois meses viajava pelo continente africano, passando por países em que pouco entendia a língua e a cultura local. Assim, pousar naquela colônia portuguesa que fica no mesmo Atlântico em que nasci, era algo alentador. Vinha do Marrocos, país que aos meus olhos brasileiros parecia muito fechado e, por conta disso, os primeiros sorrisos que recebi em Cabo Verde me fizeram não só me sentir em casa, mas também entender porque todos os gringos se apaixonam pelo “povo brasileiro”. Com este retorno a casa, do outro lado do mar, Fórum inicia uma série de oito matérias percorrendo a África e conhecendo um pouco de sua cultura, história e, principalmente, da sua gente, enquanto nos preparamos para o Fórum de Dacar, no Senegal, em 2011.

A chegada a Cabo Verde

Estava um pouco cansada das cinco semanas no Marrocos onde me gritavam “No” sempre que levantava a câmera. Com este “trauma” saquei o equipamento pela primeira vez no mercado central da capital de Cabo Verde, a pequena Praia. Mal montei o tripé e escutei um alto “psiu”. “Não é possível, até aqui?”, lamentei pensando se tratar de alguma proibição em usar a câmera na rua. Na quarta vez que ouvi o tal “psiu”, virei e escutei um sorridente “tira uma foto minha?”. A voz vinha de um açougue onde se exibiam pedaços de boi e frangos mortos inteiros, e um homem com cara de mau camiseta de basquete norte-americano me fazia um sinal de hang-loose com os dedos. Pediu que tirasse fotos dos amigos, da namorada, e em poucos minutos eu já estava inserida e autorizada a fotografar livremente por ali.

Na semana seguinte, quando eu caminhava pela Cidade Velha, a primeira cidade europeia construída nas colônias africanas, as crianças se ofereciam para ficar em frente às lentes e logo após clicadas as mães me convidavam para entrar em casa, e chamavam os vizinhos para participarem da sessão fotográfica. Assim, caí em todos os estereótipos de encantamento que um estrangeiro no Brasil sente: o deslumbre pelo riso fácil da gente, pelo acolhimento, pela malemolência no andar das mulheres, pela miscigenação das cores.
Ao contrário de mim, quando os portugueses chegaram em Cabo Verde não receberam nenhum sorriso na recepção. Em 1460, o navegante português Dio Gomes, já cansado de tanto tempo no mar, avistou uma ilha e a batizou de Boa Vista. Quando desceu na ilha de paisagem lunar, não encontrou vivalma. Nas outras nove ilhas – que ganharam cada uma o nome do santo do dia da chegada – a história se repetiu: muita pedra, muita areia, pouca água doce e nenhum ser humano. Por ironia ou por referência a alguma região do Senegal que está de frente para as ilhas, os portugueses chamaram o arquipélago de Cabo Verde.

Pela posição estratégica – no Oceano Atlântico, na frente do Senegal e pouco abaixo do Mediterrâneo – entre o Velho, o Novo Mundo e as terras escolhidas pela metrópole como fornecedoras de escravos para as colônias, Cabo Verde logo se tornou o filho querido de Portugal. A primeira cidade – com seu forte e seu pelourinho – das metrópoles europeias nas colônias foi construída na Ilha de Santiago: Ribeira Grande, a primeira capital do país, hoje é chamada Cidade Velha. Segundo o escritor caboverdiano Corrêa e Silva “não há em toda a História da Humanidade nenhum complexo de transferência forçada de população que se lhe compara, quer em intensidade, quer na duração ou ainda em consequências para a configuração do mundo moderno”.

Ryszard Kapuscinski, que por 40 anos viajou pelo continente e morou na África como correspondente estrangeiro, explica em seu livro Ébano que as ilhas da costa africana eram de grande utilidade para navegadores, negociantes e saqueadores, pois “localizam-se longe bastante dos africanos para que eles possam alcançá-las em suas toscas embarcações, mas estão próximas o bastante do continente para que seja possível estabelecer e manter contato com ele. A utilidade dessas ilhas cresceu especialmente na época do comércio de escravos, já que muitas delas foram transformadas em campos de concentração. Esse comércio teve um papel fundamental na história da África. Milhões de africanos – as estimativas indicam de 15 a 30 milhões –, de pessoas raptadas e levadas, em condições subumanas, para o outro lado do Atlântico. Os traficantes de escravos despovoaram o continente e o transformaram num campo sem vida. Até hoje a África ainda não conseguiu superar esse trauma, esse pesadelo”.

Cabo Verde foi um destes pontos estratégicos da Coroa lusitana e os escravos ali “armazenados” seguiam para as plantações de algodão, café e açúcar do Brasil e Antilhas. Os provenientes do arquipélago, por terem passado por um processo de “civilização” e por terem noções de português tinham melhores preços no mercado do tráfico negreiro brasileiro. Dos escravos que construíram Cabo Verde mesclados com os portugueses e andaluzes surgiu a população do país. Ao contrário de muitos outros países africanos e de forma semelhante ao Brasil, o processo de miscigenação foi grande, e nas ilhas se encontra uma grande diversidade de tonalidades de pele.

A formação da identidade

Cabo Verde “cresceu” escutando da metrópole que seus habitantes eram “brancos de segunda” ou “pretos de primeira” e, assim, ser branco virou símbolo de status. “No entanto o que percebo é que os caboverdianos continuavam sendo indivíduos ainda considerados pelos portugueses de segunda categoria, embora (…) o colonizador os tivesse levado a crer a que eram superiores ou melhores que os africanos do continente, porque estavam mais dispostos a essa fusão étnica, cultural e religiosa”, explica Deniele Ellery no livro Identidades em trânsito. A miscigenação em Cabo Verde foi muito mais bem sucedida que nas demais colônias. Desdobramento disto é que nos recentes tempos de colônia os caboverdianos ocuparam os mais importantes papéis administrativos nas demais colônias lusófonas africanas . Em Guiné Bissau, por exemplo, nas décadas de 1920, 30 e 40, cerca de 70% dos oficiais da administração pública eram de Cabo Verde ou descendentes. Ainda hoje os habitantes da ilha têm a fama de capatazes entre os angolanos, moçambicanos ou guineenses.

Com esta proximidade com a metrópole, a identidade do país foi criada de costas para o continente ao qual pertence. Muitas vezes contei de minha viagem nas ruas de Praia, falando que depois de minhas cinco semanas no Marrocos enfim me sentia chegando a um lugar que tinha como um conceito de “África”. A resposta era sempre “mas aqui não é África ainda”. A jovem e ilustre cantora Mayra Andrade, que gravou seu último disco com o produtor brasileiro Alê Siqueira pouco antes de um show em Portugal, na véspera de minha chegada no arquipélago, já me havia adiantado: “Sabia que às vezes eu vejo muito mais a �África� no Brasil que em Cabo Verde?”. Somente depois da independência, em 1975, manifestações culturais “africanas” como o tambor, voltaram a ser permitidas no país. Mayra, apesar de se ver sempre comparada com o ícone cultural do arquipélago, Cesária Évora, atribui parte importante de sua formação musical a músicos como Caetano Veloso e Marisa Monte.
Mas não apenas na música a identidade caboverdiana foi influenciada pelo “grande irmão Brasil”. Se hoje em qualquer vendinha do país você encontra Glória Pires e em qualquer papo alguém lhe fala de algum programa da Record, o fato é que a influência brasileira atracou aqui bem antes da televisão. Gilberto Freyre – que serviu recentemente como suposta “base teórica” do senador Demóstenes Torres, em seu tosco revisionismo histórico em que atribui a culpa da escravidão aos africanos – influenciou parte da elite cultural do país. Assim como no Brasil, havia grande dificuldade de manutenção de laços étnicos e de parentesco no arquipélago, uma vez que os escravos foram separados de seus familiares, retirados de suas terras e dispersos pela África, Europa e América. Os que permaneceram nas ilhas participaram de um intenso processo de miscigenação.

Freyre analisa a miscigenação como produto prazeroso da integração das diferentes raças. Segundo ele, a mulher morena era a preferida pelos portugueses para o “amor físico”. A visão �antropológica� que endeusa o mulato me foi apresentada como papo de botequim durante minha visita à Ilha de Boa Vista, a terceira maior do arquipélago. Ali conversei com um senhor francês que, assim como eu, se deslumbrava com a simpatia dos habitantes locais: “O povo daqui é muito bom, muito honesto. O único problema são os senegaleses: eles vêm e ocupam todos os espaços, dominam tudo, prejudicam o povo pacífico e honesto do arquipélago”. Os senegaleses, pretos e não miscigenados com os europeus, são apontados pelo francês como elemento negativo no país. Da mesma forma, muitos caboverdianos se referem a todos os africanos imigrantes como manjacos, que é uma tribo da Guiné-Bissau.
Um dos pesquisadores que se apropriou das teorias de Freyre para explicar Cabo Verde foi o português Almerindo Lessa. Afirmando-se como não preconceituoso e se contrapondo à corrente da antropologia “anti-miscigenadora”, ele afirma que a miscigenação em Cabo Verde foi uma necessidade histórica, considerando o mestiço alguém que favoreceu o patrimônio genético do homem, portanto um “método positivo na dinâmica das populações”. Na contramão, Hernandez reflete que a ideologia da mestiçagem no arquipélago acaba por criar outra que pretende “camuflar diferenças e desigualdades, encobrindo a verdadeira razão por que o mulato passou a ser positivo, que consistiria no fato de ele, além de culturalmente também geneticamente assimilar as características ‘superiores’ do europeu”.

Assim, ele defende que o caboverdiano deve ser pensado como resultado de uma “dupla assimilação” de uma incorporação de elementos europeus e africanos. Desta forma, Hernandez estaria mais ligado à corrente defendida por Marilena Chauí, que defende que falar em assimilação indica disfarçar a violência, a desigualdade e a imposição pelas quais passaram os negros durante o período de escravidão colonial e de tentativas de aculturação. Assim, da mesma forma que, segundo Da Matta, a fábula das três raças (africanos, indígenas e europeus) foi criada para unir e apaziguar o sistema social, político e econômico do Brasil, viabilizando assim a manutenção das elites sem revoltas nem conflitos sociais, em Cabo Verde ela serviu para aproximar os �mestiços� da metrópole. Em 1954, por exemplo, Portugal criou o Estatuto dos Indígenas das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique, que definia que os indivíduos destes países, por não possuírem educação, hábitos pessoais e sociais julgados necessários, não eram considerados cidadãos portugueses de forma integral. Os caboverdianos, entretanto, já eram considerados portugueses desde o liberalismo. Neste mesmo momento, estudantes da colônia iam para a metrópole estudar e, ironicamente, aí começaria o processo de independência de Cabo Verde e de diversos outros países africanos.

A independência e um povo em trânsito

A extração mineral, indústrias, estradas e o avião modificaram a vida de sociedades tradicionais africanas no século 19. Mas a Conferência de Berlim (1883-85) havia acabado de recortar o mapa do continente e dividi-lo entre, principalmente, Inglaterra e França, mas também Bélgica, Alemanha e Portugal. O tráfico negreiro “deixou na psique do africano a mais profunda e mais indelével das marcas: o complexo de inferioridade. Eu, negro, sou aquele que o traficante branco pode sequestrar do lar ou do campo, acorrentar, embarcar num navio, vender, e depois obrigar a um trabalho infernal sob a ameaça de chicotadas. Quando a Segunda Guerra Mundial estourou, o colonialismo vivia seu apogeu. Entretanto o decurso da guerra e sua acepção simbólica deram início à decadência e ao fim do sistema”, explica Kapuscinski.

Quando os colonos franceses e ingleses são convocados para a Segunda Guerra Mundial – e excepcionalmente permitidos de sair do continente – deparam-se com uma situação dos brancos bem diferente da que conheciam em casa. O luxo e a pompa dos senhores nas colônias em nada se assemelhava ao desespero maltrapilho dos soldados. Assim o mito de o branco ser melhor, mais forte, superior, um enviado de Deus, ou seja, a base racial da dominação, caía. Os negros das colônias francesas assistiram Paris, capital de sua metrópole, ser conquistada; os anglófonos entram na Alemanha e observam os brancos esqueléticos saindo dos campos de concentração; todos veem brancos que choram, que se desesperam, que fogem, que surtam. O conceito de barbárie usado pelos brancos para justificar a dominação era aplicado de forma requintada por brancos contra brancos. Na volta para casa, estes soldados ingressam e criam os partidos que fariam as revoluções.
Ao mesmo tempo, a elite das colônias portuguesas viajava para estudar em Lisboa. Por lá descobriam que, se a Europa aplicava nos outros continentes os conceitos de dominação e imperialismo, eles idealizavam para suas terras as noções de liberdade, igualdade, nação e pátria. A partir disso, a elite intelectual das colônias lusófonas começa a pensar seus próprios países. Lá no meio da metrópole se encontram Amílcar Cabral (1924 -73), Agostinho Neto (22-79), Samora Machel (33 – 86): líderes das revoluções em Cabo Verde e Guiné Bissau, Angola e Moçambique. No exterior eles entendem o que é pertencer a uma nação.

De volta a Cabo Verde, o engenheiro guineense Amílcar funda o Partido Africano para a Independência de Guiné-Bissau e Cabo Verde (PAIGC) em 1959, que ficou na ilegalidade por quatro anos. Amílcar, que não chegou a ver os países livres, entusiasmava os militantes dizendo: “Vamos pensar por nossas próprias ideias, e não importar ideias”. O partido opta pelo socialismo e com apoio da URSS, República da China, Reino do Marrocos e Cuba se militariza, e passa a realizar treinamentos táticos. Pela geografia de Cabo Verde, decidem iniciar a luta armada em Guiné Bissau. Os caboverdianos eram a força intelectual do partido enquanto os guineenses entravam em campo, reproduzindo em certa medida o quadro imposto pela metrópole. Quando os guineenses logram a independência em 24 de setembro de 1974, assume a presidência Luiz Cabral, irmão de Amílcar. Não é difícil adivinhar que seis anos depois seguiria uma guerra civil que tiraria o caboverdiano do poder e condenaria o país a uma instabilidade econômica e política presente até hoje. Cabo Verde se tornou independente em 1975.

Atualmente o país tem relativa estabilidade política, embora faltem itens básicos à maioria da população como água e energia; os produtos são importados e o custo de vida altíssimo. Há um excesso de mão de obra qualificada formada no Brasil e Portugal, e pouco emprego para eles no país. O resultado é que há 400 mil caboverdianos que vivem nas ilhas e quase um milhão fora – se considerarmos a primeira e a segunda geração de migrantes. O governo dá nacionalidade para a segunda geração e o envio de remessas é uma importante fonte de renda do país. Quando perguntei para Mayra Andrade – que saiu pela primeira vez do país aos sete anos e já morou no Senegal, Angola, Alemanha e há oito anos está em Paris – se ela se sentia caboverdiana ou se já havia “perdido as raízes”, ela fez cara de susto. “Sou caboverdiana, claro! O caboverdiano, ele já está preparado para ir. Às vezes acho que ele só vai para poder voltar e dizer, cheguei!”, se diverte. Ao perguntar para a miúda Melinda, de 12 anos, o que ela queria ser quando fosse da minha idade ela suspirou e disse: “Quero ter uma casa bem bonita em outro lugar”. “Outro lugar? Aqui em Cabo Verde ou fora?”, retruquei. “Fora… no Brasil, em Paris… porque lá deve ser tão elegante”, me explicava, deixando claro que por aqui desde pequeno se olhava para fora.

Assim como Mayra em Portugal me falava de sua pátria mesclando nostalgia e distanciamento crítico, foi em terras distantes e unidas por um mesmo passado e escravos coloniais que pude entender alguns aspectos da miscigenação e da história brasileira – a questão de falarmos como língua materna a língua do colonizador é algo a que só atentei aqui de longe, em contraste com o crioulo caboverdiano e com o árabe e o berbere marroquino em lugar do francês da metrópole. Com este périplo africano, espero que também os leitores de Fórum tenham a oportunidade de viajar comigo e sair um pouco de dentro de nossa cultura para vê-la melhor.

Eliza Capai viaja pela África desde janeiro de 2010. Ela já percorreu o Marrocos, Cabo Verde, foi barrada no aeroporto do Senegal e se prepara para ir à Etiópia.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 84. Nas bancas.



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