Toques Musicais

Coluna com dicas musicais Por Julinho Bittencourt   DOIS DOS MELHORES E MAIS VENDIDOS DISCOS DE MÚSICA POP dos últimos anos são da cantora AMY WINEHOUSE: FRANK,...

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Coluna com dicas musicais

Por Julinho Bittencourt

 

DOIS DOS MELHORES E MAIS VENDIDOS DISCOS DE MÚSICA POP dos últimos anos são da cantora AMY WINEHOUSE: FRANK, de 2003 e BACK TO BLACK, de 2006, com uma versão aumentada em 2007, com remixes, vídeos e faixas complementares. O segundo abocanhou cinco prêmios Grammy na versão deste ano e vendeu perto de 10 milhões de cópias em todo o mundo. Isto tudo numa época em que cada vez menos gente paga para ter discos.
Até aí tudo bem. Há duas coisas, no entanto, que devem ser ressaltadas. A primeira e mais óbvia é que são discos de qualidade espantosa, excelentes mesmo. Portanto, poderíamos dizer que há muitos anos que um disco tão bom não vende tanto. Talvez desde Thriller, de Michael Jackson, de 1982. E é na diferença entre os dois que mora o segundo detalhe. Back to Black (Frank menos, mas também) é um disco feito no limite do humano. É música corajosa, de quem expõem as vísceras e a alma, ao contrário da música de Jackson, boa, bem feita, mas comportada, embrulhada e arrumadinha.
É certo que Amy não chega perto da vendagem campeã de Thriller. No entanto, em contraponto a isso ela nos entrega tudo. Sua vida segue no limite da sua música. Vem de uma linhagem que abriga vários nomes como Billie Holiday, Jimmi Hendrix, Chet Baker, Kurt Cobain, Janis Joplin e muitos outros.
A pergunta que fica no ar é simples e direta. Seria possível para estes artistas terem realizado as suas obras se não tivessem tido as suas vidas desta forma, ou seja, se não tivessem vivido no limite das bebidas, drogas e, o que é pior de tudo, da mais infinita infelicidade? O historiador Eric Hobsbawn é um dos poucos que cutuca esta ferida, em artigo magnífico sobre Billie Holiday no seu livro Pessoas Extraordinárias. Para ele, Lady Diana é resultado do racismo e da doentia sociedade estadunidense da época. Sua música é um produto, enfim, da superação da própria desgraça insuperável.
Ao que tudo indica, Amy também. Ela cambaleia rouca no palco do Rock in Rio Lisboa e vira motivo de chacota no site You Tube. No momento seguinte, a cantora rouba a cena em Madri. Faz um show digno dos seus discos. A foto e a legenda: “Amy Bebe no Palco”. Milhões de fãs no mundo todo torcem por sua recuperação. Outros tantos debocham de seus tombos.
Enquanto isso ela nos serve seu biscoito mais fino. A canção “Rehab” (Reabilitação), que de certa forma faz troça de si própria, é uma das melhores dos últimos tempos. Nela, repete no refrão: “Eles querem me levar para a reabilitação, mas eu digo não, não, não”. À sua volta, uma banda excelente ponteia a vigorosa melodia e sua rara voz.
Há um sem fim de contradições no mundo de Amy Winehouse, que são as nossas e as de todos em toda a parte. É, enfim, o mundo real, sem as máscaras dos monstrinhos de Thriller. Neste, no de Amy e no nosso, o horror é fato.
Ao contrário do que o pop nos acostumou, Amy é de verdade.

JÁ OUTRO QUE TAMBÉM VALE A PENA, MAS NÃO PRECISA AGUARDAR, pois está nas lojas é XILÓ, segundo disco do compositor e instrumentista ZÉ MODESTO. Xiló em grego pode significar tanto madeira quanto matéria. E é com os elementos acústicos e a solidez poética da madeira que ele constrói seu som.
Com canções baseadas na cultura tradicional brasileira e suas congadas, folias de reis, maracatus e festas religiosas, o compositor conta neste disco com a participação de alguns dos melhores cantores brasileiros como Renato Braz, Ana Leite, Ceumar, Dalci, Marcelo Pretto, Rubi, Mateus Sartori, do grupo Nhambuzim e Zé Vicente.
O repertório do disco é um caso à parte. Cada canção nos remete a uma fase, região, festa e estilo do nosso país. O som de Zé Modesto é corajoso e abnegado. São sons de um Brasil que só se reconhece em si próprio e sobrevive apesar das grandes redes de distribuição de cultura.
Por meio de Zé Modesto e seu som, que é belo por si só, chegamos à música de um Brasil quase esquecido. Xiló é um lindo disco, feito de ancestralidades, portanto, para ser sempre lembrado.
ASSIM COMO É DE VERDADE O DISCO MILTON NASCIMENTO & BELMONDO, que o cantor e compositor MILTON NASCIMENTO acaba de lançar no mercado francês. A princípio, trata-se de um apanhado de algumas de suas canções com uma releitura, feita especialmente para o público europeu. Numa primeira audição, no entanto, fica claro que por trás deste belo disco tem muito mais coisa do que parece.
Antes de tudo, é bom esclarecer que os parceiros do disco são dois dos maiores músicos franceses da atualidade. Os filhos do lendário ator francês Jean Paul Belmondo são normalmente chamados pela crítica de seu país como monstros e outras coisas do gênero. Os irmãos Lionel (sax e flauta) e Stéphane Belmondo (trompete) são de fato músicos do primeiro time, o que se percebe logo de cara.
Isto por si só já bastaria para engrandecer qualquer repertório. No entanto tem mais muito mais. Os dois, com acompanhamento da Orchestre National d’Île-de-France, sob a regência do maestro Christophe Mangou, dão outra dimensão à música de Milton.
Neste Milton Nascimento & Belmondo a ousadia comanda o todo. Não há tendência de época e nem moda musical. Os sons, enfim, não são facilitados ao ouvinte médio. Esta postura, aliada ao repertório, faz do disco uma das melhores, ou talvez a melhor releitura de sua obra desde sempre. São dez das melhores canções de Milton lançadas nas décadas de 60 e 70 como “Travessia”, “Morro Velho” e “Canção do Sal” até “Milagre dos Peixes”, “Ponta de Areia”, “Nada Será como Antes” e “Saudades dos Aviões da Panair”.
Milton Nascimento & Belmondo ainda não saiu no Brasil, mas vale pena aguardar. F



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