Toques Musicais

Coluna de dicas culturais por Julinho Bittencourt Por Julinho Bittencourt   Cartola nasceu há 100 anos, num domingo de primavera. Morreu também num domingo de primavera. Como...

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Coluna de dicas culturais por Julinho Bittencourt

Por Julinho Bittencourt

 

Cartola nasceu há 100 anos, num domingo de primavera. Morreu também num domingo de primavera. Como se não bastasse, tudo isto aconteceu no Rio de Janeiro, onde se tem a impressão que não só as rosas, mas também as montanhas, as matas e o mar falam e cantam aos borbotões.
A despeito de toda obviedade, nosso artista maior veio ao mundo Agenor de Oliveira e virou Angenor por um erro do tabelião. Depois disso, aos olhos e ouvidos incrédulos do mundo, virou mesmo foi Cartola, por conta do chapeuzinho que usava para proteger os cabelos, no tempo em que foi pedreiro.
Feito um desacato às Ciências Sociais e equações humanas, o homem em questão não foi, nem de longe, um produto genuíno do meio em que nasceu e viveu. E, ao mesmo tempo, em um belo paradoxo, foi a sua mais magnífica expressão. Em outras palavras, é de causar espanto que um artista com o seu nível de requinte e elaboração tenha tido origem tão humilde e desprovida como a sua.
E com relação à qualidade do que faz, tudo o que se pode contar é pouco. Seus versos são de grande beleza, repletos de idéias originais e metáforas: “Ouça-me bem amor / Preste atenção o mundo é um moinho / Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos / Vai reduzir as ilusões a pó”.
Em sua obra, letra e música traçam um mesmo caminho, se transformam naturalmente numa terceira coisa indivisível, onde o que uma conta a outra reitera e canta: “Linda, no que se apresenta / O triste se ausenta / Fez-se a alegria / Corra e olhe o céu / Que o sol vem trazer bom dia”. A cada um dos indícios de alegria, ou fim de tristeza, que os versos anunciam, a melodia se coloca cada vez mais crescente. No seu auge, desembarca em um refrão iluminado, que prepara a chegada do novo dia, de um novo tempo que veio com a pessoa amada.
Outro momento seu de absoluta genialidade fica por conta do samba-canção “Acontece”, título no presente, em contraste com a rima “pudesse”, no pretérito imperfeito do subjuntivo. “Acontece que meu coração ficou frio / E nosso ninho de amor está vazio / Se eu ainda pudesse fingir que te amo / Ai se eu pudesse / Mas não quero, não devo fazê-lo / Isso não acontece”. Os tempos verbais se alternam com a melodia, ora quando pronuncia “Acontece”, com a frase melódica resolvida de forma definitiva, ora “Pudesse”, de jeito extenso, etéreo e indefinido.
Há vários exemplos assim na música de Cartola. Detalhes e filigranas de uma canção rica, cheia de caminhos inesperados e harmonias inusitadas. Uma obra que, acima de tudo, causa muito prazer aos seus ouvintes, sejam eles das rodas de samba dos morros e favelas ou dos meios intelectuais e universitários da classe média.
Cartola, que completaria 100 anos agora em outubro, é um milagre brasileiro. E a sua canção, impregnada de uma beleza indizível, tem assento garantido no trem dos próximos séculos.

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