Toques musicais

Dicas musicais por Julinho Bittencurt Por Julhinho Bittencourt     A última das invenções do inquieto Paulinho Moska é o programa...

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Dicas musicais por Julinho Bittencurt

Por Julhinho Bittencourt

 

 

A última das invenções do inquieto Paulinho Moska é o programa Zoombido, no qual tira onda de apresentador e recebe colegas cantores e compositores. O formato, longe do convencional, coloca tanto apresentador quanto convidados lado a lado, em estado de cantoria e confissões criativas. O objetivo parece ser justamente capturar o nascedouro da criatividade musical, o surgimento da canção.
E, para tal, nesta primeira temporada, Moska fez uns versinhos iniciais do que acabou se chamando “Para se Fazer uma Canção” e propôs para os primeiros 26 convidados que a terminassem. O resultado de toda a pataquada está no simpático disco e também DVD Zoombido – Para se Fazer uma Canção Vol. 1, recém-lançado pela Biscoito Fino. Neste primeiro participam Lenine, Chico César, Zeca Baleiro, Pedro Luis, Mart’nália, Zeca Pagodinho e o próprio Moska que, além de cantar com todos, apresenta a canção título ao final.
Já foram feitos vários programas, desde 2005, que deverão ser lançados em intervalos de dois ou três meses. Em cada um deles o formato é basicamente o mesmo, ou seja, cada “cantautor” – como define o apresentador – mostra três canções só com voz e violão (a exceção ficou por conta de Zeca Pagodinho, que armou uma roda de samba com vários convidados). Na primeira o convidado está só, na segunda, Moska surge como fotógrafo, exercendo a sua nova paixão, e na terceira, convidado e apresentador se juntam de improviso e cantam.
O resultado final, apesar do excesso de Moska, é interessante. Tudo contribui para que o cantor convidado pareça estar em um ambiente natural seu e, ao mesmo tempo, desfiando seu rosário mais íntimo, ou seja, desde quando e como compõe, qual o significado que isto tem para a sua vida etc.
O CD, por conta do espaço, tem muito menos canções do que o DVD. Nele não há rigorosamente nada de novo para quem acompanha os discos e a vida dos autores que se apresentam. Mas nem por isso deixa de ser uma gravação bem agradável e, principalmente, honesta, coisa rara nos dias de hoje. O espectador tem a chance de ver e, principalmente, ouvir os cantores que gosta do jeitão que são, sem efeitos de Photoshop e filtros do Protools.

O programa e a premissa de Moska parecem dialogar de longe e de leve com o recém-lançado documentário de longa-metragem Palavra Encantada, de Helena Solberg. O filme tem como objetivo discutir a relação estreita que há entre música e poesia no Brasil. A diretora, de forma simples e direta, pega depoimentos de gente bamba no assunto, sempre de maneira íntima e descontraída.
Entre os convidados do filme estão um impagável Chico Buarque, Luiz Tatit, José Miguel Wisnik, Tom Zé, como sempre hilariante, Lenine, Jorge Mautner, Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado, num dos melhores e mais belos depoimentos do filme, Maria Bethânia, Zélia Duncan, Adriana Calcanhoto, Antônio Cícero, Arnaldo Antunes, Martinho da Vila, Paulo César Pinheiro, o diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa, o escritor Ferréz e os rappers Bnegão e Black Alien. Além do elenco convidado, o filme conta ainda com imagens de arquivo de Dorival Caymmi, Caetano Veloso e Tom Jobim.

   
Todos os exemplos, frases, conceitos e opiniões emitidas convergem para quase um mesmo ponto. O que é considerado, pela crítica especializada, melhor no formato da canção brasileira se deu quase que totalmente no Rio de Janeiro. Quando muito, a Bahia tem lá as suas contribuições importantes, que também foram se acariocando com o tempo. Caymmi, em muito menor escala, como um bom exemplo e João Gilberto, disparado, o maior de todos.
Tanto é que logo após a sua pré-estreia, em Brasília, na presença da diretora e parte da equipe, um rapaz passa e resmunga: “Essa senhora pensa que o Brasil se resume ao Rio de Janeiro?”. De resto, temos as exceções aqui e acolá para comprovar a regra. O que podemos, talvez, rimar com a reclamação fica por conta de um leque musical que ventila todo o país e nunca chega às prateleiras da classe média. Não foi filtrado ainda pela linguagem acadêmica. Não foi processado pela indústria, com seus múltiplos acordes e acabamento “correto”.
O filme de Helena Solberg, a despeito de suas várias qualidades, ignora isso. Fica no que a indústria consegue gerar de importante, de arte para a sociedade e não o contrário. Procurou um caminho para simplificar seu trabalho e a vida do espectador. Fosse de fato buscar, por exemplo, no que a canção provençal dos trovadores influenciou a música brasileira, não teria ficado apenas nas pesquisas de Adriana Calcanhoto e Lenine. Há um oceano de informações sobre o assunto.
No final das contas, ouvimos o final da canção, da forma como a conhecemos hoje. O autor da polêmica, um cauteloso Chico Buarque, é rechaçado pelo escritor Ferréz. As palavras parecem contar uma coisa enquanto os sons revelam outras. Ainda se faz canções, mas não se faz mais canções. Marky Marky e Mano Brown distribuem outras mensagens pelos mesmos meios. Assim como o programa Zoombido, de Paulinho Moska, o filme Palavra Encantada escancara ao espectador o óbvio. O novo Tom Jobim ainda é o próprio e tudo indica que não haverá outro. Aí no caso morre a linguagem, para que nasçam outros de outras formas com a mesma relevância.



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