Toques musicais

Dicas culturais da Revista Fórum Por Julhinho Bittencourt   O COMPOSITOR E INSTRUMENTISTA BRASILEIRO EGBERTO GISMONTI, apesar de hoje estar muito mais envolvido com a música instrumental...

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Dicas culturais da Revista Fórum

Por Julhinho Bittencourt

 

O COMPOSITOR E INSTRUMENTISTA BRASILEIRO EGBERTO GISMONTI, apesar de hoje estar muito mais envolvido com a música instrumental e erudita, lá pelas décadas de 1970 e 80, chegou a compor várias canções. Elas foram gravadas por ele mesmo e também por cantoras como Elis Regina, Wanderléa, Olívia Byington e Jane Duboc, entre outras. Trata-se de uma obra densa, repleta de melodias difíceis, sinuosas, harmonias ricas e inesperadas, e letras rebuscadas, quase todas do poeta e amigo Geraldo Carneiro.
A mesma JANE DUBOC, amiga e parceira do compositor desde o lindo disco Água & Vinho, de 1972, acaba de lançar CANÇÃO DA ESPERA, em que celebra e reinterpreta a obra sempre atual de Gismonti. Uma ousadia e tanto que a cantora supera com talento de sobra. O próprio músico, reconhecidamente perfeccionista, não só gostou como fez questão de dar os parabéns a todos os músicos envolvidos na empreitada.
Com este disco, Jane Duboc nos leva de volta para o futuro. Navega por canções inesquecíveis como “Bodas de Prata”, a linda “Auto-Retrato”, do antológico e cândido disco Branquinho, que traz também “Saudações”, em parceria com Paulo César Pinheiro – que ela regrava lindamente –, entre muitas outras.
E entre os acompanhantes da cantora estão pelo menos dois dos parceiros antigos de Gismonti: o baixista Zeca Assumpção e o flautista e saxofonista Mauro Senise. Além deles, tocam no disco João Cortês na bateria, Jorge Hélder também no baixo, Pantico Rocha bateria e percussão, o Quarteto Bresser e Hugo Pilger no cello.
Para reger essa orquestra de bambas, Duboc convocou três arranjadores: Gilson Peranzzetta, Fernando Merlino e Lula Galvão. Além desses todos, ela ainda conta com a participação do brasilense Hamilton de Holanda no bandolim e os cantores Peri Ribeiro, seu filho Jay Vaquer e a amiga Olívia Byington.
Num primeiro momento, o disco causa estranheza aos fãs da música de Egberto Gismonti. Toda a sua obra está extremamente ligada às suas interpretações instrumentais. A forma como toca piano e violão é inconfundível, imprimindo nelas sua marca definitiva. O compositor, no entanto, não está nas gravações. Apesar disso, a produção artística da própria Jane cria uma atmosfera própria, com personalidade forte. Mesmo com arranjadores diferentes, músicos que se alternam e um repertório tão marcante, nunca deixamos de ouvir a cantora no melhor do seu talento.
Para quem ainda não conhece as canções de Egberto Gismonti, esta é uma oportunidade única, através de um disco primoroso. Pra quem já ouviu, restam duas coisas. A primeira, mais óbvia, é se deleitar com as discretas reinvenções de Jane Duboc. A outra é lamentar, assim como fez a cantora, de que não caberia no disco toda a obra do compositor.

DIZER QUE A CANADENSE DIANA KRALL É HOJE UMA DAS GRANDES DIVAS DO JAZZ é chover no molhado. Repetir que ela é excelente cantora e pianista e ainda por cima desesperadamente linda é gastar papel. O que temos de novo, no entanto, é que o seu novo disco QUIET NIGHTS é todinho inspirado, pasmem, numa viagem sua ao Brasil no ano passado.
A cantora está em estado de graça. Seus gêmeos com o cantor Elvis Costello acabam de completar dois anos. Diz que nunca esteve tão feliz e, segundo ela, o disco reflete isto. A música brasileira, mais precisamente a bossa-nova, com a sua sensualidade e ao mesmo tempo sofisticação, servem de pano de fundo para tanta alegria.
As declarações da loira sobre o clima que envolveu a concepção e gravação de Quiet Nights são de enlouquecer o mais calmo dos fãs. Diz que nunca se sentiu tão mulher e quis, com a brasilidade, afirmar um lado erótico, sensual. De acordo com suas palavras, o disco é mesmo “tarde da noite”.
A estrutura se aproxima muito do antológico Sinatra-Jobim da década de 1960, com a sua liderança ao piano, um quarteto básico e Claus Ogerman, o mesmo orquestrador deste e tantos outros discos da época. Somado a isso, um repertório de standards que conta com três canções de Jobim – a canção-título que é a versão em inglês para “Corcovado”, a indefectível “The Boy (?!) from Ipanema” e, num português impecável, “Este seu Olhar”.
Além das canções de Jobim, de brasileiro mesmo o disco tem apenas “So Nice”, que é o famoso “Samba de Verão”, dos irmãos Vale, clássico dos clássicos de todos os estrangeiros que se arvoram pela bossa-nova. Tudo o mais é formado pelo que a cantora grava regularmente. A sonoridade, no entanto, é toda nossa ou, ao menos, o que os primos ricos do norte fizeram dela. A batida sincopada, acordes dissonantes e uma certa languidez tropical indisfarçável.
O resultado final, como era de se supor, é de fato infalível. Madame Krall, a despeito da sua felicidade, também está cantando como nunca, e o seu discreto e preciso piano, quando aparece, colore de elegância a gravação. Tudo no disco é comedido, extremamente sutil e econômico. As cordas não se espalham nem exageram; os músicos, todos excelentes, tocam o mínimo necessário; e a voz, com recursos para scatchs e mirabolâncias, quase todo o tempo sussurra afinada.
De presente, lá no finalzinho, como faixa bônus, aparece uma linda versão para “Every Time We Say Goodbye”, de Cole Porter. O disco de Diana Krall toca várias vezes noite adentro. Fica a nós, brasileiros, além de uma ponta grande de orgulho de nosso universo por tamanha inspiração e uma enorme inveja de Elvis Costello, a torcida para que a felicidade da cantora perdure ainda por muitos e muitos anos.



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