Toques musicais

A Fórum dedica este espaço para dicas culturais. Por Julinho Bittencourt   A santíssima trindade do pop vai se esvaecendo aos poucos. Primeiro foi Elvis Presley, depois...

212 0

A Fórum dedica este espaço para dicas culturais.

Por Julinho Bittencourt

 

A santíssima trindade do pop vai se esvaecendo aos poucos. Primeiro foi Elvis Presley, depois metade dos Beatles, com John Lennon e George Harrison no intervalo de muitos anos e, agora, Michael Jackson. Os três ícones têm várias coisas em comum. Encarar a morte dos mitos queeles encarnaram muito antes da morte “real” talvez tenha sido a maior e mais acachapante.

Quando morreu, Elvis já não era mais nem sombra do grande astro que deslumbrou a América e o mundo na década de 50; Lennon e Harrison também não eram mais Beatles há muito e Michael, apesar de ainda arrastar multidões, nos seus últimos anos estava mais para personagem de freakshow do que o lindo garoto, cheio de talento e energia, que comoveu o mundo com seu canto e coreografia décadas antes.

A principal diferença de Michael para os outros, no entanto, talvez seja o traço mais significativo de sua trajetória. Ele era negro de fato e não um branco que tocava música de negros, açucarada ao gosto da maioria branca. Sua música é uma fusão poderosa e nunca antes vista de vários elementos da black music americana. A maioria de Michael, por conta disso, acabou sendo muito maior. Vendeu para todas as classes sociais em todas as partes do mundo. Era ídolo tanto nos guetos quanto nas classes médias e abastadas. A velha fórmula do show business de vender brancos por negros, que vinha desde Al Johnson, na primeira metade do século passado, com sua vergonhosa maquiagem farsesca, caiu por terra com o funk, pop rock, r&b e o rebolado arrasador de Michael.

Por uma estranha e comovente ironia do destino, Michael ficou branco à medida em que sua música e carreira perdiam importância. Era difícil crer que era o mesmo de discos antológicos como Thriller e Off the Wall, este um dos maiores álbuns de música pop de todos os tempos. Branquelo, esmaecido, com máscaras de proteção e outras manias esquisitas, foi nos deixando, ainda em vida. Esta semana morreu de vez e, com isso, encheu as ruas de Los Angeles e do mundo de afro-descendentes, que dançavam em louvor ao ídolo.

Com uma carreira tão repleta de truques – é bom lembrar que ele foi nisso também um inovador – é difícil acreditar que tenha de fato morrido. A impressão é que tudo não passa de um grande esquema de promoção de sua próxima turnê. Que a sua ressurreição vai se dar na páscoa, no estádio de Wembley, em Londres, com transmissão mundial para bilhões de pessoas. E este concerto vai superar a audiência da final da Copa da Alemanha, o programa de televisão mais assistido até então. E este terá sido só mais um recorde da carreira de Michael Jackson.

Se o Brasil procurava uma nova dama da canção, achou! Com uma carreira que começou em 2000, com o lindo disco Dindinha, a cantora mineira Ceumar traz todos os requisitos para ocupar o posto de grande diva da nossa música. Tem um repertório novo, inteligente e bem elaborado, sua voz é límpida e linda e, como se não bastasse isso tudo, ela também é dona de uma beleza fácil e definitiva, daquelas que prescinde dos truques das roupas e dos salões.

E, só para deixar tudo isso mais claro, chega a Meu Nome, seu quarto disco, com duas inovações corajosas. A primeira se desdobra em duas, ou seja, é um disco ao vivo onde ela se apresenta apenas com seus violões. A segunda, tão ousada quanto, fica por conta do repertório. Desta vez ela gravou somente canções suas, algumas em parceria, mas a maioria dela mesmo.

Para quem chegou no cenário cantando coisas que vão de Sinhô a Zeca Baleiro, passando por Luiz Tatit e Dante Ozzetti, com quem dividiu o inesquecível disco Achou!, e até o grupo inglês Renaissance, um repertório inédito poderia ser perigoso e frustrante. No entanto, ao contrário do que pudesse prever qualquer produtor mais austero, suas canções se equivalem a todo o seu talento. São brejeiras, construídas de forma mínima e certeira. Com duas ou três frases, tanto musicais quanto melódicas, resolve a questão e deixa a audiência feliz da vida.

O disco abre com “Reinvento”, composição cuja letra de estirpe traz para o grande público a poetisa Estrela Ruiz Leminski. E é justamente a desfaçatez de Ceumar um dos melhores ingredientes deste “Meu Nome”. Ao mesmo tempo em que transforma em coloquiais versos mais densos, faz com que as suas melodias transformem conversas ao pé do ouvido em construções inesquecíveis.

A partir disso, a cantora expõe em suas canções um universo tão único e, por isso mesmo, tão reconhecível para todos. Fala do filho e da mãe, da chuva e do tempo, tudo quase como quem percorre um álbum de retratos ou revê uma cidade antiga. Segue, enfim, a nos contar histórias, ensinar cantigas e brincadeiras de roda feito um viajante que descreve seu país distante. Um lugar que, de repente, descobrimos também como nosso.

Tudo na sua música acontece de forma natural e tranquila. Talvez até por isso este formato somente com voz e violão tenha um significado maior para a carreira da cantora. Com um tantinho de maquiagem aqui e ali, alguns poucos acordes precisos, o senso exato do ritmo e da respiração e o sorriso aberto, ela reinventa para um novo mundo a sua canção dos folguedos e praças. De saia rodada e intenção agreste, sua alma impregnada de asfalto canta fácil canções difíceis. Com jeito de quem escapou de um romance de Jorge Amado, Ceumar dança entre os blogs e alinhava com seu canto a eternidade. Meu Nome, assim como a sua autora, é um disco feito para sempre.



No artigo

x