Toques musicais

Dicas culturais da Revista Fórum Por Julinho Bittencourt   O primeiro disco da cantora Céu, de 2005, intitulado candidamente Céu, causou um furor desmedido e, nesses tempos...

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Dicas culturais da Revista Fórum

Por Julinho Bittencourt

 

O primeiro disco da cantora Céu, de 2005, intitulado candidamente Céu, causou um furor desmedido e, nesses tempos bicudos da indústria fonográfica, vendeu cerca de 200 mil cópias. Além disso, chegou ao topo da parada de world music da revista Billboard. Com sons eletrônicos misturados a ritmos brasileiros, a cantora entusiasmou a todos e, particularmente, ao público estrangeiro.
Quase quatro anos depois, a moça já mais crescidinha, acaba de lançar Vagarosa, fazendo justiça ao título, tanto pela demora entre um e outro quanto pelo swing slow motion bossa nova. Além disso, com a qualidade deste, faz finalmente justiça também ao pandemônio que causou o anterior. Neste intervalo – breve para a sua formação, mas longo para o mercado –, o que ouvimos é uma outra cantora, produtora e compositora, muito melhor, muito mais madura.
O disco foi realizado pelo mesmo Beto Villares do anterior, só que desta vez em parceria com ela e também Gustavo Lenza e Gui Amabis. A trilha perseguida é a mesma, só que bem mais iluminada e pavimentada. Ainda estão lá os sons eletrônicos, com grooves delicados, economia de sons, letras simples e inventivas e melodias curtas.
O que mudou é quase tão sutil quanto o seu som. Antes de tudo, ela está cantando mais do que nunca. Além disso, suas canções ganharam asas e características próprias. Gostem ou não do estilo, ninguém compõe como Céu, o que já é um grande mérito. Mas ela vai além da personalidade forte. Suas composições são repletas de signos, linhas melódicas inesperadas e letras coloquiais. Narra conversas de amor e divagações sobre o mundo sem pretensões de transformá-las em conversa de adulto, empanturradas de pseudo-poesia. Céu vive o seu tempo e universo com muita honestidade, o que talvez seja um dos motivos de tanto prestigio e sucesso.
É capaz de versos que parecem ter saído direto de um forró pé-de-serra para as suas traquinagens eletrônicas: “Fiz minha casa no teu cangote, Não há neste mundo quem me bote, Pra sair daqui”. E esta talvez seja a melhor definição para a sua música. Céu transporta a candura da cultura popular, a linguagem direta, o jeito fácil de dizer, para o centro da produção cultural urbana. Empilha suas cantigas de rua em gigabytes e samplers rede afora. E justifica como ninguém o rótulo world music. No mais, o disco ainda conta com uma deliciosa versão para “Morena Rosa”, canção de Jorge Ben do seu primeiro disco, “Samba Esquema Novo” e uma participação luxuosa de Luiz Melodia. A menina Céu realmente está com tudo e parece que começa a responder à altura de tanto barulho.

E por falar em novas cantoras, chega finalmente ao disco o comovente canto de Tânia Grinberg. A artista, que já transita por teatros e casas de shows de São Paulo há alguns anos, tem uma carreira profícua e multifacetada. É atriz, artista plástica, poeta e, como se não bastasse, cantora, que se divide entre a canção popular brasileira e a música klezmer – canção não litúrgica judaica. Além de sua carreira solo, ela é também cantora do grupo Azdi, que recria e toca músicas de origem judaica do leste europeu e da Espanha. E é entre esses dois universos aparentemente distintos que Tânia nos entrega o lindo Na Paleta do Pintor, seu disco de estreia, que chega com cheiro de novidade e jeito de obra madura.
Sua relação com a ancestralidade, tanto da nossa canção quanto da música judaica de origem cigana, é a chave da construção do disco. Os dois formatos são forjados na tradição popular. Foram construídos de forma empírica pelos povos nas ruas em suas festas e folguedos, porém em épocas e lugares completamente diferentes. A cantora, na busca de si mesma e nas aventuras de seus antepassados, encontra, canta e une os dois universos.
O resultado é uma ilustração sonora rara e ensolarada. Uma textura construída de forma simples por instrumentos como a viola caipira, acordeon, violão, contrabaixo e kazoo (um instrumento de sopro quase infantil que, aparentemente, não tem nada a ver com nada do que foi escrito aqui até agora). Neste instrumental mínimo cabem desde temas populares como “Ergets Shtil”, na língua (constava: “no dialeto ídiche”, alterei) ídiche, e a linda “Riacho de Areia”, canto tradicional dos canoeiros do Vale do Jequitinhonha.
Entre uma e outra destas descobertas entram composições dela mesma, como a surpreendente “Manicure”, na qual a cantora inventa uma outra língua. Somada a esta o disco traz a faixa título “Na Paleta do Pintor” e “Desejo”. As três canções mostram uma compositora inquieta, com a alma no passado e uma grande sede de futuro.
E esta transição pelos vários tempos e lugares a levou a circular também pela nossa música urbana. Com isso, nos traz uma deliciosa versão para “Piston de Gafieira”, de Billy Blanco e, num outro extremo, “Mais que a Paixão”, de Egberto Gismonti e João Carlos Pádua, com a participação do cantor Renato Braz.
Toda a desenvoltura que ela demonstra nestes gêneros tão díspares denota uma grande personalidade artística, em que todos os sons se tornam seus. Tanto no jeito de interpretar quanto nos arranjos – e vale aqui chamar a atenção para a produção musical de Ricardo Zóhyo – ou nos ótimos músicos que participam da gravação, tudo no disco ganha um jeito único e inconfundível.
Há muitos outros exemplos de originalidade e boa música no lindo CD de estreia da cantora Tânia Grinberg que o tornam imprescindível. Na Paleta do Pintor, ao que tudo indica, a despeito (“além de ser…”, no lugar de “a despeito de…”. Confere?) de ser bom demais de ouvir, é a porta de entrada de uma promissora carreira.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de agosto. Nas bancas.



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