Toques musicais

Dicas culturais da Revista Fórum. Por Julinho Bittencourt   O violeiro e compositor Paulo Freire acaba de lançar Nuá – As músicas e os mitos brasileiros. Trata-se...

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Dicas culturais da Revista Fórum.

Por Julinho Bittencourt

 

O violeiro e compositor Paulo Freire acaba de lançar Nuá – As músicas e os mitos brasileiros. Trata-se de um disco encartado em um livro. No livro, Freire conta doze causos sobre seres que povoam as matas e o imaginário brasileiro. No disco está a música imaginada por ele para cada um destes mitos.

Com a participação de vários artistas, tanto no livro quanto no disco, o trabalho é primoroso, pra dizer o mínimo. Resultado de longas pesquisas, viagens e leituras, Freire nos apresenta de forma inédita, direta e organizada uma visão ímpar do Brasil. O que o leitor e ouvinte levaria anos e anos pesquisando em autores como Mário de Andrade e Câmara Cascudo ele nos entrega de forma mastigada, feito um presente dos céus.

O livro traz um breve comentário da antropóloga Betty Mindlin e ilustrações do artista plástico Kiko Farkas. Os causos são contados de forma simples e direta, com uma verve deliciosa. Quase que dá pra ouvir a voz do autor declamando, fazendo troça, desfiando seu rosário, com aquele talento indizível que tem.

Já no disco, um grupo de músicos do primeiro time descreve as histórias em torno das composições de Freire. São instrumentistas como Lea Freire, Bocato, Paulo Braga, Toninho Ferragutti, Ronaldo Saggioratto, Valéria Bittar e Luiz Fiaminghi (grupo Anima), Tuco Freire e o grupo experimental Sonax. Todos fazem parte do cenário musical brasileiro urbano e, na relação com a música regionalizada do autor, se comportam de forma a enriquecer sem, em momento algum, descaracterizar a obra.

Paulo Freire, como sempre, está na viola de dez cordas e também na viola de cocho. O sabor de seu som, aberto e simples e, ao mesmo tempo elaborado e rebuscado, se torna surpreendente na medida em que os causos avançam. Imaginar com ele a dança dos tangarás, o cunhado lobisomem, uma singela homenagem ao romance Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, grande paixão do autor, entre muitas outras histórias é uma viagem inesquecível e muito prazerosa.
O disco e o livro se desdobram em várias situações que podem ser aproveitadas pelo ouvinte leitor. Além de ler e ouvir simplesmente, a gente pode imaginar (e realizar) um como trilha do outro. As nuances e detalhes de tudo o que é narrado se encontra com o que se ouve. De forma descritiva e linear a riqueza narrativa e sonora de Freire nos abre várias oportunidades sensitivas.

Desta vez o autor nos privou de sua bela voz de cantor e seu talento como narrador. No disco não há nenhuma canção, nenhuma palavra, apenas sons mágicos que, ao lado dos pequenos contos, se encontram de forma definitiva e muito criativa.

Nuá é mais um trabalho inestimável e inesquecível de Paulo Freire, um dos mais importantes e talentosos artistas do Brasil.

Já o novo disco da cantora paulista Ana Salvagni, Alma Cabocla, também tem vários méritos. O primeiro e mais notório fica por conta da sua qualidade artística, coisa que não é novidade para quem acompanhou seus dois primeiros, Ana Salvagni e Avarandado. Com a sua linda voz, simplicidade de arranjos e um pequeno grupo de músicos ela sempre consegue lindos resultados.

Outro dos grandes trunfos de Alma Cabocla é o fato de ser um disco todo feito sobre o repertório de Hekel Tavares. Trata-se de um resgate inestimável, pois Hekel é um dos nossos maiores compositores, que teve uma carreira vitoriosa na primeira metade do século passado. A partir de 1934, passou a se dedicar somente à música erudita. Antes disso, no entanto, fez várias canções bem populares, influenciadas pela onda nacionalista da semana de arte moderna. E é exatamente a este período bem brejeiro, de alma cabocla, como diz o título, que se atém o disco de Ana Salvagni.

Vale aqui um parêntese. Hekel é o autor, entre outras, da canção “Penas do Tiê”, gravada pelo cantor cearense Raimundo Fagner no disco Manera Fru Fru Manera, de 1973. Fagner a considerou domínio público e assinou a sua autoria como adaptador. Por conta disso perdeu um processo por plágio do filho de Hekel. O mesmo disco do cantor cearense traz “Canteiros”, outra em que ele foi condenado pela mesma razão, desta vez através de um processo movido pela família da poetisa Cecília Meireles.

A despeito disso, e com total justiça à memória do autor, “Penas do Tiê”, com o nome original e verdadeiro de “Você” e mais outras 15 composições de Hekel Tavares são devidamente creditadas e interpretadas de forma magistral neste Alma Cabocla. Com produção da própria cantora, em parceria com Edson Alves, participações de Renato Braz, Filó Machado, Paulo Freire e também o acompanhamento de músicos como Toninho Ferragutti, Paulo Braga, Swami Jr., Nailor Proveta, Toninho Carrasqueira entre outros, o disco explode em vitalidade e modernidade.

Ana Salvagni consegue, com uma leitura ao mesmo tempo particular e também fiel ao cancioneiro de Hekel, fazer um disco atual. É como se, ao revirar documentos do passado, tenha encontrado algo feito para o nosso tempo.

O disco Alma Cabocla, de Ana Salvagni, é um momento raro da nossa música. Um encontro de dois grandes artistas que têm quase um século de distância e uma grande estreiteza de valores. Um momento onde, enquanto o talento do autor é resgatado o da cantora se confirma. Um disco feito para a eternidade.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de setembro. Nas bancas.



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