Toques musicais

A Fórum dedica este espaço para dicas culturais. Por Julinho Bittencourt   Os quatorze discos oficiais dos Beatles, um dos maiores legados da música popular...

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A Fórum dedica este espaço para dicas culturais.

Por Julinho Bittencourt

 

Os quatorze discos oficiais dos Beatles, um dos maiores legados da música popular mundial, foram totalmente remasterizados em formato digital pela primeira vez desde que existe o sistema. O processo, que consumiu quatro anos de trabalho dos técnicos do lendário estúdio Abbey Road em Londres, clareou o passado. Os discos, que já primavam por uma qualidade sonora incontestável para a época, ganharam outra dimensão. Estão agora mais do que nunca prontos para o futuro sem sabor arqueológico, sem o tom de fotografia amarelecida.

O que mais impressiona, numa primeira audição, é o som dos quatro primeiros, pela ordem, “Please Please Me”, “With the Beatles”, “A Hard Day’s Night” e “Beatles For Sale”. Gravados em apenas quatro canais e lançados originalmente em mono, estes álbuns têm uma qualidade excepcional, tanto artística quanto sonora.

A opção do produtor George Martin pela mixagem em apenas um canal central formou um bloco sonoro compacto, que nos dava a exata dimensão da qualidade da execução da banda. O risco de abrir o estéreo e dividir os instrumentos poderia pôr a perder este trunfo lendário. O resultado, apesar de inusitado para os padrões sonoros atuais, é impressionante. Os graves nítidos e potentes nos dão a exata dimensão da dupla Paul McCartney e Ringo Starr no coração de tudo. Somada a isso, apesar das músicas ensaiadas à exaustão, a limpeza atual das gravações nos aproxima do que havia de mais orgânico. Ouvimos as palhetadas nos violões e guitarras, a pulsação das vozes, a respiração de cada um. Como o próprio McCartney comentou, nestas remasterizações ouvimos finalmente o som que eles tinham dentro do estúdio.

À medida que avançamos no tempo, a banda de rock cede espaço para um grupo musical maduro. Isto se reflete também no resultado sonoro. As cordas de “Yesterday” ou “Eleanor Rigby” se abrem ao ouvinte, decifradas nota por nota. As experimentações do álbum “Revolver” ou “Rubber Soul” se tornam claras e compartilhadas. Neste momento, a presença de George Harrison com frases inovadoras e timbres variados aparece como se alguém apontasse o dedo para elas.

No auge da loucura, onde estão os discos definitivos, como Sgt. Pepper’s e Magical Mistery Tour, o som é parte da obra. E este novo som nos entrega uma nova visão. As experimentações de John Lennon em “Being for the Benefit of Mr. Kite!” ou “I Am the Walrus”, com fitas recortadas, sons sobrepostos, cordas e a banda na melhor forma são ressaltadas de uma maneira que nos dá a impressão que os discos foram refeitos num equipamento atual. E, de certa forma, foram mesmo.

É importante dizer que não há nenhuma forma de adulteração da obra nessas remasterizações. Saiu apenas o que era defeito e ficou a música. Os filtros digitais empurraram para cima o que já estava lá, escondido ou não tão nítido. O disco Abbey Road, por exemplo, referência da música pop, último a ser gravado e que completou 40 anos agora em setembro, ganhou com a sua “restauração” uma sobrevida de alguns séculos para a frente, até que se descubram aparelhos novos capazes de garimpar mais e melhor a essência dessas canções. O disco, assim como toda a obra dos Beatles, é uma aula de como compor, executar, gravar, embalar e vender música.

 

Já no avesso do avesso, o recém-lançado Duofel Plays Beatles, a começar pela capa, é um grande barato. Lá estão os violonistas Fernando e Luís vestidos da cabeça aos pés de Beatles mais ou menos da fase do filme Help!, com direito a bonés, óculos escuros, terninhos pretos sem gola e as indefectíveis botas.

O duo de violões – que me perdoem o engano – há mais tempo em atividade do Brasil resolveu fazer uma pausa no belo repertório de composições próprias e homenagear o antológico quarteto de Liverpool. O disco, no entanto, está muito mais para Duofel do que para Beatles, o que não é, nem de longe, um demérito.

As famosas melodias, tão alegres e claras, foram literalmente reviradas do avesso. Não perderam a fluidez tampouco a beleza, mas ganharam notas, dissonâncias, outros tempos, enfim, interpretações ousadas. Algumas, como é o caso da lírica e comovente “She’s Leaving Home”, ficaram quase irreconhecíveis. Com arpejos abertos e rápidos, as notas da canção foram entrecortadas por tempos e contratempos alternados. A melodia surge aos poucos, pronunciada e mais tensa.

Nada no disco funciona como se imaginaria. Alguns efeitos inusitados, como o “frouxolão” que, segundo eles, é a sexta corda do violão de nylon completamente frouxa, foram usados em “A Day in the Life”. A afinação próxima do contrabaixo foi usada também em “Eleanor Rigby, que abre o disco e já anuncia o que vem.

Outras inovações, como usar o arco no violão tenor e a viola de dez cordas em “The Fool on the Hill”, foi a forma que encontraram de homenagear a fase psicodélica dos Beatles. Até a inusitada “Mr. Moonlight” foi gravada para intuir a visão sertaneja do duo que já estava implícita na gravação do quarteto. A melodia, aparentemente simples e sem importância dentro do repertório ganha, na interpretação dos violonistas, tanto destaque quanto outras consagradas.

O fato, como se pode perceber, é que os Beatles instigaram o Duofel a experimentar e ousar. A rica e variada música da banda de rock inglesa serviu, e muito bem, de ponto de partida para que os dois violonistas pintassem e bordassem. Com uma criatividade musical impressionante e o talento que já é sua marca registrada, o Duofel conseguiu um disco diferente e imprescindível.

Com toques contemporâneos que cabem em qualquer discoteca do mundo, Duofel Plays Beatles não esconde, por trás de toda a onda beatle, nos seus tempos sincopados e frases inesperadas, uma profunda beleza e brasilidade.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de novembro. Nas bancas.



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