Toques Musicais

Dez anos sem Plínio Marcos Nenhum tesouro está seguro em seus cofres, quando o pai escuta o filho chorando de fome Plínio Marcos Por   Dez anos...

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Dez anos sem Plínio Marcos Nenhum tesouro está seguro em seus cofres, quando o pai escuta o filho chorando de fome Plínio Marcos

Por

 

Dez anos sem Plínio Marcos
Nenhum tesouro está seguro em seus cofres,
quando o pai escuta o filho chorando de fome

Plínio Marcos

Na sequência final de Testa de Ferro por Acaso (The Front, 1976), filme de Martin Ritt, o personagem interpretado por Woody Allen recebe uma proposta da bancada macartista que o está interrogando. Se entregasse os escritores proibidos pelos quais se fazia passar, estaria livre. O até então ingênuo “laranja” se levanta, manda às favas os algozes e segue o corredor para a prisão.
A atitude do pequeno herói nos lembra em quase tudo o dramaturgo santista Plínio Marcos. Nas horas necessárias – e também nas mais gratuitas – distribuía gestos, palavras e textos tidos como obscenos para quem, a bem da verdade, os merecia. Fosse quem fosse, por mais engrossado que estivesse o caldo, por mais longa que fosse a ditadura, não queria nem saber. Generais, alcaguetes, e até mesmo policiais e proxenetas, foram alvos seus. Para cada atitude espúria, lá vinha o palhaço Frajola com o dedo médio em riste.
Não queria nem saber se o que vinha do outro lado era tiro ou cana brava. Por dizer o que bem entendia enfrentou o que teve de ser. Sua arma maior, entre outras, como a crônica de jornal e a língua ferina, foi o teatro. Nele contou a história de quem não tinha ninguém com quem contar. Seu personagem era aquele que ficava depois do último, no mais esbugalhado e imundo do planeta. Aquele que mora onde termina a condição de gente.
Plínio era o tal que ia lá e buscava o cara de volta. Esfregava o seu herói na fuça do homem de bem, que não aguentava o tranco e saía do seu espetáculo no meio, ofendido. Nas suas peças se fala do mesmo jeito que nas ruas do cais de Santos, nas celas e nos bordéis de quinta. Pior. No seu teatro se age daquele jeito.
Mas não fica só nisso. São personagens dotados de sagacidade e vida. São tramas repletas de idas e vindas, de riqueza dramática. É, enfim, um grande teatro brasileiro feito pelo palhaço de circo que só tinha o curso primário. Pela primeira vez a grande obra tratou da plebe mais rude.
Plínio era o nosso herói. Num momento histórico em que só os maus se davam bem, lá vinha ele, de macacão e sandália, vendendo seus livros de mão em mão. E não venham dizer que era tipo, pois a única coisa que conseguiu, no final das contas, foi trocar todos os seus títulos por um apartamento. Toda a sua grande obra pela pequena e digna morada.
Este mês faz 50 anos que “Barrela” foi montada pela primeira e única vez antes de ser censurada. Meu pai era um dos atores e isso me enche de orgulho. Faz também dez anos que Plínio se foi, o que nos enche de tristeza. Naquele dia de nada, a família e mais uma multidão de atores e admiradores lotou a praia do Embaré para jogar suas cinzas no mar, lá na direção do bairro do Macuco, onde ele cresceu, se criou e virou o cara que foi.
Estavam lá a Neusa Sueli e o seu cafetão Vado, o traveco Veludo, o Querô, o Garoto, enfim todos, à própria sorte daquele dia em diante. O único bardo que os cantava tinha batido com as dez. Estava lá, sendo espalhado no sal dos marujos e das mulheres, em frente à baía dos navios das chegadas e despedidas. Sem deixar ninguém no seu lugar.
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De volta à música. A coisa mais difícil e improvável para um grupo musical é ele soar como um grupo. Principalmente quando se trata de música instrumental. Normalmente o que a gente ouve são músicos em disputa ou então uma banda que serve de base para um líder.
O primeiro disco do trio de violões paulistano Cor das Cordas, intitulado Violão Trio, desmente de saída esta premissa, e de forma impressionante. Trata-se de um grupo coeso, com um som próprio e único. E esta é apenas a primeira qualidade que se percebe. Tem muito mais ao longo do belo e bem elaborado disco.
O grupo é formado por três músicos apaixonados pela linguagem instrumental. Edinho Godoy, autor do disco Canal 3, de 2002; Milton Daud, que já foi guitarrista de rock e concertista erudito, e Luca Bulgarini, autor de dois discos: A Partir de Agora, de 2004 e Até Breve, de 2006.
Com um repertório que mistura de forma corajosa clássicos da nossa música com composições próprias, o trio chama a atenção para uma execução impecável, com arranjos originais tanto inusitados quanto bonitos. Melodias brasileiras bem conhecidas como “Fato Consumado” e “Cigano”, ambas de Djavan; “Casa Forte” e “Arrastão”, de Edu Lobo e “Fé Cega, Faca Amolada”, de Milton Nascimento ganham roupas próprias que quase nos fazem esquecer as suas versões originais. “Casa Forte”, por exemplo, tem a melodia desconstruída, executada de forma mais lenta e arpejada. Algo parecido acontece com “Fé Cega, Faca Amolada”. Quem manda no disco são os violões.
Por conta disso, a forma de interpretar do grupo propõe outras visões, outras leituras, chama a atenção para possibilidades que não estavam tão claras nas músicas que escolheram. Os três instrumentistas, de matizes tão diferentes, com formas tão distintas de tocar e interpretar, têm em comum a paixão pelo instrumento e as descobertas que ele possibilita, o encontro de cada nota com o que querem dizer.
E o que querem contar está presente de forma surpreendente também nas composições próprias. São melodias belíssimas e bem construídas que se ligam ao resto do disco através dos arranjos e da forma como tocam. Vale chamar a atenção para “Richard”, de Edinho Godoy, que apesar de claramente inspirada no guitarrista americano Pat Metheny, tem um sabor próprio, bem Cor das Cordas, e é surpreendente dizer isso em um disco de estreia.
Outra melodia que chama a atenção é “Partida”, de Milton Daud, a única em que os três não aparecem juntos na gravação. Nela, o compositor expõe o bonito tema tendo como acompanhamento apenas o teclado de Luiz de Boni, que também assina o arranjo.
Violão Trio é um disco lindo, de um grupo que nasce para o público com personalidade própria e madura. Um disco que, além de tudo, tem a qualidade rara de ser ao mesmo tempo inovador, inusitado e bom de ouvir, com um som que ganha a gente de cara.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 81. Nas bancas.



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