Toques musicais

Filme e documentário sobre historias do nosso samba relembram valor do ritmo brasileiro. Saiba também sobre lançamendo de disco de Baden Powell. Por Julinho Bittencourt   Foi...

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Filme e documentário sobre historias do nosso samba relembram valor do ritmo brasileiro. Saiba também sobre lançamendo de disco de Baden Powell.

Por Julinho Bittencourt

 

Foi preciso que acontecesse o sucesso retumbante do filme Buena Vista Social Club, do diretor alemão Wim Wenders, para que a indústria fonográfica e o público no Brasil se dessem conta que dispõem de artistas tão ou mais maravilhosos quanto os cubanos. Desde então, vários lançamentos premiaram a velha guarda de escolas de samba, entre eles um destaque inegável para o Grêmio Recreativo Escola de Samba da Portela.

Por conta disso já foram lançados o lindo filme O mistério do samba, dirigido por Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda e também vários discos. O mais célebre, no entanto, é um precioso documento histórico chamado Portela Passado de Glória, produzido por Paulinho da Viola e gravado pela Velha Guarda da Portela, em 1969, em menos de uma semana e apenas quatro canais, que acaba de ser relançado pelo selo Biscoito Fino.

A despeito do mínimo de recursos, o disco traz ao público o máximo dos máximos desta que é a maior expressão da canção urbana brasileira. Qualquer superlativo é pouco para contar o que se esconde, e também o que se descobre por trás desta modesta gravação, que contou com a participação de César Faria no violão de sete cordas, Vicentina (Quem nunca provou seu famoso feijão?) e Iara no coral, Jair Costa no cavaco, Eliseu no pandeiro, Casquinha no surdo, Nelsinho do Trombone, Sérgio Barroso no contrabaixo e Olímpio da Cuíca.

O grupo interpreta composições magníficas de outras lendas como Manacéia, Ventura, Aniceto, Alberto Lonato, Francisco Santana, Mijinha, Rufinho, Paulo da Portela, Heitor dos Prazeres, Alvaiade e Francisco Santana, Alcides Lopes, Armando Santos, Antônio Caetano e Monarco. Sempre que possível, o próprio compositor foi quem gravou o seu samba, com as ressalvas para as interpretações de João da Gente.

O objetivo do disco, de acordo com o seu produtor Paulinho da Viola, era já na época demonstrar a importância que os artistas reunidos nesta gravação tinham para a escola. Portanto, quando Paulinho sugeriu à gravadora RGE a realização do disco, estes artistas já eram reverenciados como os construtores de um passado de glória. Depois de exatos 40 anos, a contribuição deles para a cultura brasileira fica mais perceptível ainda.

São sambas lindos, em que estão guardadas tanto as formas que se eternizaram ao longo dos anos quanto seus contornos melódicos e poéticos. Em sambas como “Quantas Lágrimas”, “Se Tu Fores na Portela”, “Cocorocó” entre outros, a gente reconhece imediatamente um jeito que está presente até hoje nas ruas do mitológico bairro de Madureira e que se espalhou pelo Brasil e o mundo.

É como diz o próprio Monarco, lenda viva de toda essa história, “Se for falar na Portela, hoje eu não vou terminar”. Porém, para a alegria de todos, algo do embrião desta história encantada e eterna está de volta neste lindo Portela Passado de Glória.

E, por falar em relançamentos de obras primas… Quem viu, viu e quem não viu que ouça o lindo Baden Powell ao Vivo no Teatro Santa Rosa, do selo Biscoito Fino, que finalmente chega ao CD, depois de mais de 40 anos. Nosso violonista maior era um assombro em suas apresentações ao vivo. Claro que no estúdio também tocava tudo. No entanto, era diante do público que saltava seu lado afrotropical, a sua energia incontrolável, aliada a uma técnica perfeita.
A única edição que havia até então de Baden Powell ao Vivo no Teatro Santa Rosa além do LP original, fazia parte inseparável da uma caixa com 13 discos, com a sua produção entre 1959 e 1972, lançada pela Universal Music, em 2003. Depois disso, a gravação nunca mais chegou ao público.

O disco é resultado de uma temporada vitoriosa de mais de seis meses no Teatro Santa Rosa, no Rio de Janeiro, no ano de 1966. Durante aqueles dias, Baden só faltou fazer chover com o seu violão. O público que lotava o teatro todas as noites respondia ao seu toque com urros de espanto e agradecimento. Feito Xangô, o músico equilibrava as forças do universo em torno do seu toque. Toda a música do mundo acontecia a partir da sua.

E o disco não esconde nada. Como se não bastasse, na seleção proposta pelo produtor Aloysio de Oliveira, estão alguns dos grandes clássicos de Baden, que era também um excelente compositor. Acompanhado do lendário grupo do pianista Oscar Castro Neves, que contava com Carlinhos no contrabaixo e Victor Manga na bateria, ele toca “Berimbau”, “Consolação”, “Tempo Feliz” e também músicas de autores amigos, como “Samba de uma Nota Só”, de Tom Jobim e Newton Mendonça, “Lamento”, de Pixinguinha e Vinícius, “Valsa de Eurídice”, linda melodia composta por Vinícius de Moraes para o musical Orfeu da Conceição e que foi eternizada pelo próprio Baden entre outras.

A gravação do álbum tem o mérito de encontrar o músico, se não na sua melhor forma, o que é difícil dizer, pelo menos numa fase em que sua energia jorrava de todos os poros. De forma mágica, ele conseguia tocar ao mesmo tempo com vigor e técnica. Sua execução era rápida, forte, ritmada e, ao mesmo tempo, limpa.

O único defeito de Baden Powell ao Vivo no Teatro Santa Rosa é que ele termina rápido demais. São apenas nove faixas nas quais, em nenhum momento, o público deixa de irromper em aplausos em cena aberta. No final, Baden canta “Tempo Feliz”, dele com letra de Vinícius, acompanhado por mais e mais aplausos.

Um resgate comovente que nos deixa com saudades de um de nossos músicos mais talentosos, importantes e também reconhecidos internacionalmente. Fica a sugestão de que se coloque todo o rico catálogo de Baden novamente à disposição do público.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 82. Nas bancas.



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