Toques musicais

Disco de Cauby Peixoto interpretando Roberto Carlos e filme de Ricardo Dias sobre Paulo Vanzolini são dois lançamentos culturais do mês. Por Julinho Bittencourt   Alguns lançamentos...

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Disco de Cauby Peixoto interpretando Roberto Carlos e filme de Ricardo Dias sobre Paulo Vanzolini são dois lançamentos culturais do mês.

Por Julinho Bittencourt

 

Alguns lançamentos são de uma obviedade tão comovente que, ao nos depararmos com eles, nos perguntamos como isso não havia sido feito ainda? Um caso desses é o lindo disco Cauby Interpreta Roberto onde, como diz o título, o cantor Cauby Peixoto, com direito a cordas e um time de músicos de primeira, canta canções de Roberto e Erasmo Carlos.

Cauby Peixoto é um caso único da nossa música. Ao mesmo tempo em que canta como poucos, não tem compromisso algum com o comedimento. É derramado meeeesssmo e por isso tão querido. Assim, consegue deslumbrar todos os públicos, desde os mais circunspectos até a patuléia.

Roberto Carlos, por sua vez, é um cantor popular que, aos poucos e em momentos aqui e acolá, chega aos ouvidos ditos de bom gosto. A união dos dois neste disco é, portanto, uma celebração de vários brasis. Dois grandes inventores e decoradores da alma do nosso povo que se cruzam num ponto de intersecção, porque não dizer, histórico.

O lançamento do disco aconteceu no SESC Vila Mariana, em São Paulo, com os ingressos esgotados, na mesma noite em que Roberto gravava, logo ali no Ginásio do Ibirapuera, o seu especial de final de ano. As coincidências não param por ai. Em fevereiro deste, Cauby completa 79 anos, enquanto Roberto faz 69 logo depois, em abril. Uma geração antes, portanto, e Cauby, muito provavelmente já influenciava pelas ondas da Rádio Nacional Roberto, toda a Jovem Guarda, a Tropicália, e outros tantos menos elitistas que fizeram da nossa canção romântica o que ela é hoje.

O disco parece ter mão dupla. Cauby está com voz de menino e cantando feito gente grande. Quase como uma deferência ao rei, está um pouco mais comedido, mas ainda é Cauby. Escolheu para interpretar canções unânimes e absolutamente românticas como “Proposta”, “A Volta”, “Sentado à Beira do Caminho”, “Olha”, “Os Seus Botões” (absolutamente maravilhoooooso), “As Flores do jardim da Nossa casa”, “Desabafo”, com direito a citação de “Balada para um Loco”, de Astor Piazzolla, entre outros clássicos inesquecíveis.

O disco tem o mérito de trazer Roberto para um pouco antes do seu tempo. O que talvez pedesse soar datado nos discos do rei, por conta da instrumentação iê iê iê obrigatória, com suas guitarras cheias de pedal wha wha e órgãos Wurlitzer, no disco de Cauby vira clássico. Com arranjos de Hamilton Messias, Ronaldo Rayol, Cintia Zanco, Marcelo Monteiro e Thiago Marques Luiz, que também assina a produção, o resultado é um som vigoroso, daqueles que se faziam para durar, atravessar décadas.

Cauby Interpreta Roberto é um presentão do cantor para todos nós. Reúne mais uma vez vários elementos imprescindíveis para uma obra definitiva e sem medo: emoção, talento, paixão e um derramamento desmedido. Bravo Cauby!

E outro grande lançamento que chega finalmente ao formato DVD é o filme Um Homem de Moral, de Ricardo Dias, sobre a música do zoólogo Paulo Vanzolini. Estranho, certo? O filme deveria ser, de fato, sobre répteis e congêneres, não fosse o seu protagonista o autor, entre outras, de “Ronda”, aquela que termina com o verso: “Cena de sangue num bar da Avenida São João”, ou ainda “Volta por Cima”, o magnífico samba que empresta um verso ao título do filme: “Um homem de moral não fica no chão…”.

Vanzolini, a despeito de ter sido o diretor do museu de zoologia da USP durante vários anos é, ao lado de Adoniran Barbosa, o autor mais importante de uma São Paulo de outros tempos. Uma cidade já imensa, mas ainda gentil, com suas ruas, sua boemia e a sua gente séria e bem humorada. Suas canções são a cara e o coração das ruas e do povo paulistano.

O filme, que amanhece e anoitece com a cidade em belíssimas imagens, tem o dom de esparramar para o espectador todo o talento, simpatia e até o lado ranzinza do autor. Um sujeito de extrema inteligência que não tem papas na língua e é capaz de versos geniais e melodias belas e elaboradas, apesar de não tocar nenhum instrumento musical. As filmagens acontecem durante as gravações da caixa Acerto de Contas, onde vários intérpretes como Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Chico Buarque, Márcia (que eternizou “Ronda” em sua gravação original e repete a dose no filme com maestria), Miúcha, Paulinho Nogueira, Virgínia Rosa, Inezita Barroso entre muitos outros mostram as composições de Vanzolini.

As imagens se alternam entre os números musicais e histórias impagáveis do compositor. O cientista, já com mais de oitenta e jeito indisfarçável de menino, recita versos, conta causos, desvenda suas criações e elogia parceiros. Tudo nele é pura modéstia no que se refere à música. Diz todo o tempo que nunca teve tempo para se dedicar às suas composições e construir uma carreira. Segundo ele, tudo o que fez é pura intuição. O espectador, incrédulo, imagina do que teria sido capaz não fosse a zoologia sua profissão de fato.

Vanzolini dá de ombros. Para ele, bom mesmo é o Elton Medeiros, que pegou uma composição sua que ele não gostava e, sem alterar nem melodia nem letra, mas apenas a divisão, a transformou em algo bom. Diz essas e outras sem se dar conta que praticamente todo o seu cancioneiro foi feito sem parceiro algum. São obras primas da nossa canção, que à medida que corre o filme emocionam e surpreendem o espectador que descobre o compositor e sua simplicidade por trás da canção e do intérprete.

No momento em que sobem os letreiros e ainda falta fôlego nas cadeiras, a anônima cantora Suely Klkuchi, solitária num karaokê do centro da cidade, entoa com voz firme e aguda os versos de “Ronda”, entre os transeuntes, neons e a garoa. Nesta hora nos damos conta que poucas obras traduziram com tanta precisão um lugar.

Um Homem de Moral é, de fato, um grande filme sobre um grande artista.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 83. Nas bancas.



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