Toques musicais

Conheça os lançamentos do livro e do disco sobre a obra de Villa-Lobos e o disco que mistura da poesia de Borges e de Cunha Vargas e da voz de Vitor Ramil. Por Julinho Bittencourt  ...

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Conheça os lançamentos do livro e do disco sobre a obra de Villa-Lobos e o disco que mistura da poesia de Borges e de Cunha Vargas e da voz de Vitor Ramil.

Por Julinho Bittencourt

 

Por essas sincronicidades da vida, chegou, de um lado, o belo e ousado livro A Criação dos 5 Prelúdios de Villa-Lobos, do santista e ex-guitarrista do lendário grupo de rock progressivo Recordando o Vale das Maçãs, Fernando Antônio Pacheco. Do outro, o relançamento do lindo disco de 1997, Obra completa – Heitor Villa-Lobos para violão solo, com o violonista Fábio Zanon, em que ele executa, entre outras obras, os cinco prelúdios.
Os cinco prelúdios de Villa-Lobos são uma referência do moderno violão brasileiro. Compostos na década de 30, na mesma época em que fez as “Bachianas Brasileiras”, os prelúdios têm uma ligação direta com o dia-a-dia do compositor e suas paixões. Em cada um deles ele procura homenagear aspectos e personagens tanto da brasilidade quanto as suas influências enquanto músico: a vida no campo, os índios, o choro (gênero a que Villa voltou várias vezes), Bach e a cidade do Rio de Janeiro.

O livro A Criação dos 5 Prelúdios de Villa-Lobos é um trabalho minucioso e inovador de Fernando Pacheco. Através de extensa pesquisa histórica baseada na crítica genética, o músico foi buscar manuscritos, documentos e toda a espécie de vestígios que pudessem fornecer pistas dos caminhos percorridos pelo autor até chegar à obra final.

O livro é fartamente ilustrado por trechos de partituras não usadas que indicam caminhos, dúvidas e alterações que os prelúdios sofreram durante a sua criação. O leitor acompanha quase que passo a passo cada instante da obra e, muitas vezes, se pergunta se não teria ficado melhor de um jeito ao invés de outro. Além das partituras, Pacheco nos mostra também documentos que evidenciam as pesquisas, escritos, depoimentos, enfim, um verdadeiro mergulho na obra em gestação do nosso compositor maior.

Já o disco Obra completa – Heitor Villa-Lobos para violão solo é uma rara oportunidade de ouvir absolutamente tudo o que o autor compôs para o instrumento. Talvez a única outra gravação similar seja o antológico Obra Completa para Violão Solo, gravado em 1978, pelos irmãos Sérgio e Odair Assad.

O som de Fábio Zanon é impressionante. O violonista, de sólida formação, consegue algo raro, que é unir intensidade a uma técnica irreparável. Sua interpretação para o conhecido “Choros Nº. 1”, ao contrário de várias outras, faz a peça de Villa-Lobos flanar pelas ruas do Rio de Janeiro ao mesmo tempo em que não perde, em momento algum, a correção e a limpeza da execução.

Fica aqui então a sugestão aos aficionados, estudantes e curiosos. Adquira o livro A Criação dos 5 Prelúdios de Villa-Lobos pelo e-mail fernandopacheco@gmail.com e o disco Obra completa – Heitor Villa-Lobos para violão solo no site da Biscoito Fino. Tente, então, desvendar com as visões de um e de outro os mistérios da obra maravilhosa de Villa-Lobos para este instrumento tão brasileiro.

Se, durante todo este ano, tivesse tido oportunidade de comentar apenas um disco aqui na coluna, nem pestanejava. Gastaria todos os recursos com o Délibáb, do gaúcho Vitor Ramil. Trata-se de uma obra-prima feita praticamente a quatro mãos e uma voz, ou seja, o violão de aço e a voz do próprio autor e o violão de nylon do argentino Carlos Moscardini. No mais, uma singela participação de Caetano Veloso e pronto, eis um dos discos mais lindos que a nossa música produziu nas últimas décadas.

A história toda começou antes, bem antes, para ser mais exato quase um século antes, quando os poetas Jorge Luis Borges, das ruas de Buenos Aires e João da Cunha Vargas, dos pampas gaúchos, começaram a rabiscar seus primeiros versos. A linguagem comum aos dois poetas, conectada por Vitor Ramil, foi a milonga, ritmo tradicional muito executado no sul da América Latina, que o compositor já explorou no seu também lindo Ramilonga.

Vitor, apaixonado pelos dois universos, começou a trabalhar as canções que formam este álbum desde sempre. De Borges, musicou vários versos do livro Para las seis cordas; de Vargas, vários de seus versos registrados pelo próprio poeta em fitas cassete que depois compuseram o livro Deixando o pago.

O resultado final, com a reunião de mundos tão próximos e também distintos, originou o nome Délibáb, um fenômeno que ocorre nas planícies húngaras (que Vitor considera parecidas com os pampas gaúchos). Em dias de muito calor, imagens são transportadas para quilômetros de distância em horizontes desérticos. O espectador assiste, por exemplo, a um trem passar por um imenso areal, onde não há nem sombra de trilhos. O que ele vê, de fato, é uma imagem refletida, plana, sem inversões e extremamente clara.

Com estas sugestões, o compositor partiu para projetar intenções que estavam quase próximas (ou quase distantes). O resultado é uma sucessão de canções maravilhosas, ora em castelhano (no caso de Borges), ora em português da fronteira, onde não só os ritmos e hábitos, mas também várias expressões se confundem e se misturam.

Num lance raro, Vitor Ramil consegue um resultado sonoro que, partindo da ancestralidade, se projeta numa modernidade absoluta. Os dois violões se somam de uma forma quase inexplicável e formam uma textura inconfundível. Algo que já ouvimos e ouviremos sempre ficou sintetizado ali. A voz de Vitor consegue passear através das milongas feito um menino no quintal de casa, onde conhece cada quadrado do terreno. Este terreno, no entanto, é o pampa, imenso com as suas planícies.

Délibáb é uma obra definitiva, daquelas que, uma vez pronta, o autor pode pendurar na parede e passar o resto da vida com os louros. Não há nada, absolutamente nada, minimamente próximo disso hoje na nossa música.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 86. Nas bancas.



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