Toques Musicais

João Donato, apesar de quase nunca ser reconhecido como tal, é um dos maiores compositores brasileiros. Paula Morelenbaum, da mesma forma, apesar de ser uma das nossas maiores intérpretes, quase nunca figura como tal. Por...

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João Donato, apesar de quase nunca ser reconhecido como tal, é um dos maiores compositores brasileiros. Paula Morelenbaum, da mesma forma, apesar de ser uma das nossas maiores intérpretes, quase nunca figura como tal.

Por Julinho Botelho

 

 

João Donato, apesar de quase nunca ser reconhecido como tal, é um dos maiores compositores brasileiros. Paula Morelenbaum, da mesma forma, apesar de ser uma das nossas maiores intérpretes, quase nunca figura como tal. João, um veterano conhecido, veio do Acre para se consagrar como um dos grandes músicos brasileiros desde o período da bossa nova. Paula, bem mais nova, surgiu para o grande público como uma das cantoras da banda de Tom Jobim.

Apesar de trajetórias distintas e épocas diferentes, os dois acabaram de lançar o lindo Água, sem qualquer exagero um grande candidato a melhor disco do ano. Juntar dois grandes talentos muitas vezes não faz um grande disco. Neste caso, a impressão que dá é que nasceram um para o outro. A solução final é tão única, tão amalgamada que ficamos todo o tempo nos perguntando como o encontro não havia acontecido antes.

Uma das muitas similitudes dos dois músicos é a atemporalidade, a total abertura para lidar com o novo sem nunca perder o contato com o tradicional e consagrado. A partir disso, os vários arranjadores convocados para a empreitada – Jaques Morelenbaum, Marcos Cunha, Leo Gandelman, Alex Moreira, Beto Villare, Kassin, o grupo Bossacucanova e Donatinho, filho de João – usaram e abusaram de efeitos, samples e programações eletrônicas, sempre ao lado de instrumentos tradicionais.

O efeito sonoro final é surpreendente. A presença de grandes músicos na gravação, a começar pelo autor, as canções geniais de João e a linda e equilibrada voz de Paula, dão ao disco o tom correto entre a modernidade de hoje e a ultra-modernidade da música de Donato. Tal e qual Miles Davis, a dupla enfrenta qualquer tempo, espaço e timbre, seja elétrico, acústico, eletrônico ou digital. No final das contas tudo soa Paula e Donato, Rio e verão, bossa sempre nova.

Dentre as canções escolhidas, alguns clássicos consagrados, como “A Rã”, “Lugar Comum” e “A Paz”, esta cantada em várias línguas pelos dois, outras pouco gravadas, como a bela “Flor de Maracujá” e algumas quase inéditas recolhidas por Paula na década de 60, como “Everyday” e “Entre Amigos”.

O nome do disco surgiu a partir do grito de Donato toda vez que dá uma gravação como encerrada: “Água!”. A brincadeira rendeu o nome do elemento que, de certa forma, povoa toda a música tanto de um quanto do outro.

Água, enfim, é um grande disco, daqueles prontos tanto para ouvidos conhecedores quanto leigos. Um disco afeito a grandes discussões evolutivas, mas também a uma boa batucada.

Depois de mais de quarenta anos de parceria e amizade, Renato Teixeira e Sérgio Reis resolvem lançar um DVD e CD juntos. O resultado é o lindo e singelo Amizade Sincera, que conta ainda com os filhos dos dois artistas e uma ótima banda, além da participação da dupla Victor e Leo.

Segundo contam as más línguas que acompanharam o processo, a gravação foi uma verdadeira farra, com direito a vários causos e conversas que foram indevidamente cortadas da edição final. O resultado é um espetáculo relativamente curto, repleto de canções clássicas do repertório dos dois, mas ainda assim muito emocionado e bem executado.

Com palco, cenário e figurinos muito simples, os dois passaram o tempo todo sentados em banquinhos, rodeados pela banda e pelos filhos músicos. Na abertura dividiram em dueto as vinhetas tradicionais de cada um. Do lado de Sérgio Reis, a linda “Comitiva Esperança”, composição de Almir Sater e Paulinho Simões. Logo em seguida, da parte de Renato Teixeira, interpretaram o hino “Amanheceu, Peguei a Viola”, dele mesmo.

A partir daí estava dada a senha. Os dois desfiaram um rosário de canções inesquecíveis, como “Menino da Porteira”, “Amora”, “Tristeza do Jeca”, “Frete”, “Vide Vida Marvada” entre alguns outros achados, como “Pai e Filho”, uma versão para a famosa “Father and Son”, de Cat Stevens, notabilizada há alguns anos pela versão do senador Eduardo Suplicy junto com seu filho Supla. Aqui, Renato canta com seu filho Chico, violonista e compositor integrante de sua banda já há alguns anos.

Amizade Sincera é um daqueles clássicos em que há pouco de novo e, talvez por isso mesmo, o público em geral aplauda tanto e de forma tão agradecida. Ao contar a própria história, Reis e Teixeira repassam a vida, as canções e as lembranças de um vasto público interessado na cultura rural brasileira. Os dois são, com certeza, junto com mais alguns poucos, os maiores responsáveis pela sobrevivência e modernização da nossa boa música regional.

Com um fio condutor suspenso em torno da longa e verdadeira amizade dos dois – se frequentam desde sempre, os filhos são amigos e tocam juntos –, a celebração tinha tudo para cair na pieguice. No entanto, o espetáculo bem elaborado, a qualidade das canções e o talento irresistível dos dois seguram a emoção no alto do começo ao fim. As canções e as vozes, cada uma do seu modo – a de Renato mais coloquial e a de Reis próxima do bel-canto – conseguem uma ótima química.

Amizade Sincera é um disco imprescindível para os fãs do gênero.



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