Toques Musicais

A música de Marcelo D2 se aproxima do samba e o lançamento de Diogo Nogueira. Por Julinho Botelho      ...

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A música de Marcelo D2 se aproxima do samba e o lançamento de Diogo Nogueira.

Por Julinho Botelho

 

 

 

Na medida em que passam os anos, a música de Marcelo D2 se aproxima do samba. O rapper carioca tem flertado com o ritmo de forma inovadora, misturando seu som repleto de samplers e inovações ao que há de melhor no bom samba tradicional. Conseguiu com isso resultados surpreendentes e, ao que parece, dos artistas da sua geração, é um dos que está mais próximo de encontrar a batida perfeita.

No seu último disco, no entanto, D2 surpreende mais uma vez e, desta vez, às avessas. Ele acaba de lançar o delicioso Marcelo D2 canta Bezerra da Silva no qual, segundo conta, faz uma homenagem emocionada, “de filho para pai”, interpretando clássicos de Bezerra.

Bezerra da Silva é o legítimo representante do samba da malandragem, o som das cadeias e dos mocós. Está para a nossa música quase como o gangsta – guardando as devidas proporções e um grande toque de humor carioca à parte – está para o rap. Seus personagens falam com sarcasmo e muita ginga dos truques e formas que dispõem para a sobrevivência, para driblar o dia a dia à margem das coisas.

D2 diz que o primeiro disco que comprou com o próprio dinheiro foi um LP de Bezerra da Silva. Ele é realmente um grande fã do cantor e compositor. Em 1993 foi convidado pelo ídolo para participar de um clipe seu e, desde então, mantiveram uma grande amizade. Fazer este disco, portanto, era quase uma questão de honra.

Para surpresa geral, no entanto, o universo de Bezerra se impôs ampla, total e irrestritamente sobre o de D2. O disco é todo feito de forma tradicional, com sambistas de primeira linha arranjados pelo pianista Jota Morais. O resultado, enfim, está muito mais para Bezerra da Silva do que para Marcelo D2. Quem for ao disco esperando o contrário, vai dar com os burros n’água.

Isto não é nem de longe um defeito. D2, como todo grande artista, não tem medo do escuro e se joga com tudo ao rico repertório de Bezerra sem dever nada a ninguém. Canta com a ginga e a malandragem necessárias clássicos como “Bicho Feroz”, “Malandragem dá um Tempo”, “Quem usa Antena é Televisão”, entre outras, sem passar recibo. A impressão que fica é que teve que viver tudo o que viveu, e cantar tudo o que cantou para chegar onde está. Traçou o caminho inverso do seu tempo, percorreu o universo e, sem dó nem piedade, voltou ao que estava na porta da sua casa.

O disco, cheio de referências, traz ainda uma capa em que D2 parodia a do clássico Eu Não Sou Santo, de 1992. Na época, Bezerra causou furor, ao aparecer pendurado numa cruz com um revolver em cada mão. D2 deu uma limpada na cena e substituiu as armas por plugues e microfones.

Pequenos detalhes como este, aqui e acolá, dão uma leve abrandada no tragicômico universo de Bezerra da Silva. Pequenos acertos que talvez levem, finalmente, a sua música para mais perto do asfalto, local onde nunca conseguiu chegar enquanto vivo.

E por falar em samba e asfalto, o cantor e compositor Diogo Nogueira, com apenas três anos de profissão, dois lançamentos ao vivo e apenas um em estúdio, já é um dos grandes nomes da nossa música. Filho do mestre João Nogueira, Diogo passa longe da armação e do malho. Seu som é digno do que é de fato, ou seja, resultado de um dia a dia entre sambistas, tanto na quadra da Portela quanto em todo o Rio de Janeiro e em casa.

Desde pequeno, Diogo ouve, aprende, convive, pergunta e, finalmente, começa a dar suas próprias respostas. Seu disco Sou Eu, que acaba de chegar às lojas em formatos CD e DVD, é a melhor prova disso. A despeito de os anteriores, Diogo Nogueira ao Vivo e Tô Fazendo a Minha Parte, serem lindos, a gente consegue perceber logo de cara a maturidade fulminante que atinge o artista.

Não se trata de dizer que ele está cantando melhor, que o disco é mais bem produzido, que o repertório melhorou etc. O que acontece mora no todo e é visível (ou audível) e sutil ao mesmo tempo. Diogo está completamente à vontade no papel que escolheu. Ao contrário do que se nota em muitos artistas iniciantes, não se percebe nele nenhum desconforto. Nasceu pra isso e pronto.

E, quando lança Sou Eu, o que era para ser mais um disco de carreira é, na verdade, uma confissão de ofício. As participações especiais do seu disco/show são pra lá de significativas. Estão lá Chico Buarque, que dispensa qualquer comentário; Ivan Lins, um dos compositores brasileiros mais conhecidos no exterior; Alcione, uma das nossas grandes sambistas e o bandolinista Hamilton de Holanda, um dos assombros da música instrumental brasileira dos últimos muitos anos.

Como se não bastasse, Diogo, que ganhou de presente de Ivan e Chico a inédita canção Sou Eu, resolveu batizar o disco com ela, além de contar com a participação ilustre deles para interpretá-la. Não é a toa que o quase estreante cantor e compositor carrega tanto moral. Seu talento de fato transborda. Interpreta de forma certeira sambas consagrados como “Deixa eu te Amar”, de Agepê, “Malandro é Malandro”, sucesso de Neguinho da Beija-Flor na voz de Bezerra da Silva, “Lembra de Mim”, de Ivan Lins e Vitor Martins e “Homenagem ao Malandro”, de Chico Buarque.

Diogo venceu a escolha do samba-enredo de sua Portela quatro vezes, uma façanha que, realmente, não é para qualquer um. No entanto, é modesto na hora de se colocar como compositor, deixando para o disco apenas duas das suas canções: “Força Maior”, em parceria com Leandro Fregonesi e Ciraninho e “Razão Para Sonhar”, com Inácio Rios.

O fato é que, seja compondo, seja cantando e liderando uma grande banda, Diogo Nogueira mostra neste Sou Eu que hoje a coisa é com ele mesmo. Com modéstia e muito talento, o jovem artista se transforma, aos poucos, comendo pelas beiradas, num dos melhores expoentes da nossa canção popular.



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