Toques Musicais

Por Julinho Bitencourt     Ao completar 70 anos, com um talento incomensurável e o coração amolecido pela idade, o pianista americano Herbie Hancock juntou alguns amigos...

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Por Julinho Bitencourt

 

 

Ao completar 70 anos, com um talento incomensurável e o coração amolecido pela idade, o pianista americano Herbie Hancock juntou alguns amigos e fez um disco/projeto pela paz mundial. Herbie é uma das últimas lendas vivas do jazz e da música popular norte-americana. Começou sua carreira naquela que talvez seja a última grande banda do trompetista Miles Davis. De lá pra cá, encheu a humanidade com sons e arranjos inovadores e, é claro, seu piano majestoso e inconfundível.

Um projeto desses é sempre um risco para qualquer reputação. Como se não bastasse, Herbie escolheu como mote para a empreitada a canção mais arroz de festa do planeta quando se fala em pacifismo, ou seja, Imagine, de John Lennon. Além desta, o projeto conta com várias outras canções do pop moderno de várias épocas, que, por alguma razão, quase sempre bem óbvia, tocaram o autor.

Além da própria Imagine estão lá Space Captain, pérola do repertório de Barbra Streisand; Don’t Give Up, linda canção da nova fase de Peter Gabriel; a emblemática The Times, They are A’changin, de Bob Dylan; Tomorrow Never Knows, outra de Lennon, esta da fase dos Beatles, porém muito mais obscura e, como surpresa e homenagem aos primos pobres do Sul, a linda e pouco conhecida Tempo de Amor, da dupla Baden e Vinícius, entre outras.

Para executar toda a empreitada, foram chamados, com o mesmo amplo critério do repertório, vários artistas do mundo pop de diversos países bem distintos. Desde a nossa cantora Céu, os ingleses Jeff Beck e Seal, a americana P!nk, a fabulosa cantora malinesa Omou Sangare, a britânica indiana Anoushka Shankar, o famoso e reverenciado grupo irlandês The Chiefteins, entre outros.

Ao contrário do esperado e imaginado, a ampla salada world music de Hancock acabou dando certo. Seu disco é de uma elegância sem fim, no qual o autor conseguiu fazer com que seus convidados estivessem totalmente à vontade, sem exageros nem arroubos. As contribuições são, em sua maioria, sinceras e comedidas. Parece que, diante do mestre, todos resolveram se comportar e dar de fato o melhor que podiam.

Vale destacar a participação da nossa cantora Céu, que, numa linda gravação para o samba de Baden e Vinícius, consegue, com uma interpretação equilibrada, uma amostra digna da moderna canção contemporânea brasileira.

Em um ou outro momento, como é o caso da própria canção título, vai ter gente mais interessada na parte suingada e improvisada de Omou Sangare, Indie Arie e o grupo congolês Konono Nº1 do que na gemedeira insuportável da introdução do duo formado por P!nk e Seal. No entanto, a despeito desse ou daquele deslize, Imagine Projects é um excelente disco.

 

Já a cantora e compositora Tulipa Ruiz foi, sem dúvida e muito discretamente ainda, das melhores coisas que apareceram na nossa música em muitos anos. Com um disco apenas, que atende pelo nome de Efêmera, ela encantou o cenário pop paulistano e já arriscou vários voos país afora.

O título – Efêmera – não passa de uma boa piada, um chiste que nos engana tanto quanto a pseudodisplicência, tranquilidade e alegria com que ela nos mostra cada verso, cada melodia, enfim, toda a sua imaginação aparentemente despretensiosa e, ao mesmo tempo, refinada, inteligente e, é claro, muito divertida.

Tulipa Ruiz tem aquela coisa deliciosa que a canção pop nos roubou quando bifurcou por dois caminhos, ou seja, de um lado, o pedantismo e do outro, a banalidade. Ela está no centro, no equilíbrio, no mesmo local onde estiveram os Mutantes, Tom Zé, Beatles, mais particularmente McCartney, Bob Marley, Rolling Stones e tantos mais. Não se trata de passadismo. O negócio é futurismo mesmo. Enquanto a indústria agoniza com o que os gênios e A&Rs das gravadoras descobrem por aí, Tulipa Ruiz tira ouro do nariz.

Suas músicas são claras, simples, diretas. A sua banda é precisa, criativa, com uma conexão incomum, que se explica rapidamente. Além dos amigos Dudu Tsuda, Duani, Márcio Arantes e Stéphane San Juan, estão lá o irmão Gustavo Ruiz e o pai, Luiz Chagas, parceiro e guitarrista. Chagas é o lendário guitarrista da banda Isca de Polícia, que, nas décadas de 1970 e 1980, encantou São Paulo e o Brasil ao lado de Itamar Assumpção. O som de Tulipa deve muito, pra não dizer tudo, à sua banda. Uma coisa não existiria sem a outra e vice-versa.

O que é mais interessante, no entanto, é guardado a sete chaves feito um grande mistério. Alguém que se arvora a explicar o que Tulipa Ruiz, sua banda e seu disco Efêmero têm de especial terá muitas dificuldades. A rigor, não há nada ali que pareça já não ter sido feito antes e, tampouco, algo que pareça ser resultado de grandes elaborações. Tudo é absurdamente simples, claro e direto. Há algo que começa com o seu sorriso (quem já viu a moça jura que consegue enxergá-lo a cada audição do disco), passa pelas composições, o som da banda e termina num bem-estar enorme, um prazer quase agradecido por tê-lo ouvido.

Tulipa é também artista plástica, e a capa do seu Efêmera foi elaborada com base em trabalhos seus. É uma bela e singela metáfora da sua capacidade de síntese.

No final das contas, nos damos conta de que é isso mesmo. Todos os nossos grandes momentos musicais, daqueles que marcaram época, foram feitos assim, feito um sopro. Davam a impressão que haviam surgido ao acaso, sem trabalho algum. Feito uma brisa. E talvez Tulipa Ruiz seja a primeira brisa desse novo tempo que se abre.



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