Toques Musicais

Os lançamentos do banolinista Hamilton de Holanda e do compositor e cantor pernambucano Ortinho. Por Julinho Bittencourt   O compositor e bandolinista Hamilton de Holanda, em poucos...

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Os lançamentos do banolinista Hamilton de Holanda e do compositor e cantor pernambucano Ortinho.

Por Julinho Bittencourt

 

O compositor e bandolinista Hamilton de Holanda, em poucos anos de carreira, se tornou um dos músicos brasileiros mais respeitados e conhecidos do mundo. Tem o que quase todos os artistas almejam e muito poucos conseguem, que é aliar técnica com emoção, formação musical com destreza e intuição. Além disso, Hamilton tem se tornado, ao longo dos anos, um compositor cada vez melhor, mais ousado e, assim como na sua forma de interpretar, cada vez mais aprimorado.

Seu último e definitivo salto para a integridade artística, assim como tudo o que faz, veio também através de muito estudo e de uma paixão desmedida. O compositor, criado em Brasília, escreveu, orquestrou e interpretou, ao lado de músicos conterrâneos, a “Sinfonia Monumental”. Trata-se de uma bela e extensa obra em cinco movimentos que pretende mostrar, de forma pessoal e épica, a sua visão dos 50 anos da capital brasileira, completados no ano passado.

Tendo como ponto de partida a “Sinfonia da Alvorada”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, Hamilton percebeu que os dois, ao compor a obra, só puderam observar e imaginar a cidade do futuro. Ele, ao contrário disto, viveu e vive com intensidade o seu outro extremo, de metrópole consolidada, cidade pronta, com seus múltiplos sotaques e sons.

E foi a partir desta premissa que Hamilton, com seu bandolim de dez cordas, compôs e arranjou a sua “Sinfonia Monumental”. A obra tem como núcleo central o Hamilton de Holanda Quinteto, grupo de excelentes músicos da capital que o acompanha normalmente e a Orquestra Brasilianos, também composta por artistas brasilienses.

O resultado final é uma linda sinfonia popular, enriquecida por nossos ritmos e intenções musicais. Hamilton não tentou, em momento algum, se arvorar a compositor erudito. Toda a peça está dentro da estrutura e da tradição da nossa música instrumental, seara que ele domina como poucos.

Sua obra começa, assim como Tom e Vinícius, com o ermo. Os primeiros esboços do que viria a ser a capital federal, o silêncio amplo e azul do planalto ainda vazio. Nas texturas musicais amplas e diversas, a natureza se sobrepõe ao homem. Logo em seguida, com a chegada dos candangos, a construção se evidencia nos ritmos ágeis e frenéticos alternados com momentos de melancolia e descanso.

O terceiro movimento repete e expõe, de forma épica, a primeira missa rezada na capital. Aqui, toda a força mística da região, a começar pelo seu céu deslumbrante, que dá a idéia de proximidade, é interpretada de forma alternada pelo bandolim de Hamilton, a gaita de Gabriel Grossi e as cordas da orquestra. A partir daí, a emoção da peça é cada vez mais acentuada.

No próximo instante, um achado do compositor leva ao trecho mais pungente da sinfonia. Aqui ele recorda o episódio em que Juscelino Kubitscheck, cassado, volta clandestino à Brasília e chora sob o seu próprio busto na Praça dos Três Poderes. Muito além de uma homenagem ao construtor da cidade, este quarto movimento evoca o presidente entusiasta da música, o presidente Bossa Nova. No andamento de um choro-canção, os metais da orquestra dialogam em dois blocos, cada um representando uma das asas do traçado do Plano Piloto.

No final, o quinto movimento “Caos e Harmonia”, ao elaborar musicalmente as várias facetas da Brasília contemporânea, com seus artistas, políticos, trânsito e agruras de qualquer metrópole, evidencia o eu artístico do próprio compositor. Aqui é onde Hamilton é mais Hamilton e, consequentemente, a música da capital se mostra como é ouvida atualmente.

A “Sinfonia Monumental”, gravada totalmente na capital no final do ano passado, é uma obra única, ambiciosa e inusitada. Uma daquelas poucas coisas que faz com que a efeméride da comemoração oficial faça sentido.

 

 

Ortinho é um conhecido e consagrado cantor e compositor pernambucano, que acaba de lançar “Herói Trancado”, o seu terceiro CD solo. Nascido em Caruaru, é uma espécie de veterano iniciante, pois, apesar de estar no ar desde a década de 90, só agora começa a protagonizar a sua própria carreira. Até então, integrava a banda Querosene Jacaré e chegou a ter a sua canção “Sangue de Bairro” gravada por Chico Science e Nação Zumbi.

Com este seu recente “Herói Trancado”, Ortinho se lança com a cara e a coragem deslavada ao rock and roll, sem o menor pudor. O som que faz é muito único, cheio de particularidades, mas sempre muito próximo ao rock and roll mais básico, daqueles que se fazia na década de 50. No entanto, suas letras e a intenção melódica são extremamente originais.

Ortinho é um compositor de mão cheia que, apesar de uma aparente simplicidade, sempre nos proporciona passagens inesperadas, boas surpresas e, é claro, um humor ácido e corrosivo nas letras, que fecha com o todo de forma única. Ótimo exemplo disso é a própria faixa título, que traz uma bela amostra do que é o disco: “Fiquei trancado do lado de fora/ Deixando você livre para eu ir embora/ E agora vou aproveitar a minha vida/ Preso pelo mundo afora/ Não tô a fim de receber visitas/ Estou me sentindo livre feito um turista/ Tem muita gente que divide esse mundo comigo/ Alguns até são meus amigos/ Espero com sinceridade/ Que estejas bem/ Que tenhas ocupado/ Meu lugar com outro alguém/ Que sua casa esteja alegre colorida/ Fui condenado a viver sem você o resto de minha vida”.

“Herói Trancado” traz várias participações ilustres de músicos de diversas gerações, como Luiz Chagas, guitarrista da banda Isca de Polícia, que acompanhava Itamar Assumpção na década de 80, Edgar Scandurra, do grupo Ira!, o também guitarrista Yuri Queiroga, sobrinho de Lula Queiroga, que produz o disco ao lado do autor. Entre os cantores, participam também Jorge Du Peixe, da Nação Zumbi, Arnaldo Antunes, na canção “Retrovisores”, onde também é parceiro entre outros.

“Herói Trancado” é, enfim, uma guinada do irrequieto artista ao rock and roll, mas poderia ser qualquer outra coisa, como uma volta ao mangue beat ou algo mais inusitado ainda. O que de fato importa vem do multifacetado talento do cantor, compositor e instrumentista. Um músico que vai facilmente da ciranda ao heavy metal com a naturalidade de quem sai da sala e vai pra cozinha. O inesperado na música de Ortinho começa na elaboração dos projetos e persiste a cada canção. E é isto que o torna tão interessante.



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