Toques musicais: Doces Bárbaros e Tom Zé

Dicas culturais da revista Fórum Por Julinho Bittencourt   ERA UMA FESTA IR AO CINEMA VER AQUELE FILME. E as pessoas...

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Dicas culturais da revista Fórum

Por Julinho Bittencourt

 

DivulgaçãoERA UMA FESTA IR AO CINEMA VER AQUELE FILME. E as pessoas faziam aquilo com regularidade, vestidas ao estilo dos protagonistas, com jeans surrados ou calças largas de algodão, adereços, cores, cabelos etc, etc e etc. Iam e ficavam para outras sessões, dançavam e cantavam no cinema, saíam, entravam e voltavam nos dias seguintes. Era, enfim, como quase tudo o que acontecia na época, uma celebração dos novos ventos que batiam forte naqueles idos de 1976.
Na tela, os protagonistas também se esbaldavam e desnudavam. Com roupas alegres, estapafúrdias e uma beleza aguda e irreverente, que não imitava em nada a dos filmes e novelões, CAETANO VELOSO, GAL COSTA, GILBERTO GIL e MARIA BETHÂNIA se reinventavam nos DOCES BÁRBAROS. Como uma feliz testemunha da história que ninguém ousava contar, o cineasta TOM JOB AZULAY filmava tudo, sem imaginar o grande documento que fazia.
A bem da verdade, ninguém esperava muito daquilo. Até que o destino se apresentou de forma inversa e, durante uma passagem da trupe por Florianópolis, a polícia trancafiou Gilberto Gil e o músico da banda, Chiquinho Azevedo, por porte de maconha. Além disso, Gal e Bethânia portavam também um pó branco que, depois de várias investigações, descobriu-se ser pó de pemba, um inocente pozinho usado em rituais de candomblé que, segundo os manuais, tem por finalidade a atração fluídica benéfica para o ambiente, entre outras.
O resultado daquilo tudo, incluindo momentos de shows, entrevistas, tomadas íntimas nos camarins e até cenas do julgamento de Gil, onde ele aparece vestido com seus trajes afro, debochando sutilmente do discurso moralista do promotor, chega agora ao DVD pelo selo Biscoito Fino. O relançamento, tantos anos depois e com muita água rolada sob diversas pontes é, no mínimo, bem divertido. No entanto, muito mais que isso, é surpreendentemente revelador.
Os quatro amigos baianos, com trajetórias díspares e ao mesmo tempo unas, então no auge da irreverência e juventude, e já haviam construído ali obras suficientes para que fizessem parte da história de qualquer música do mundo. Trinta e tantos anos depois, o documentário de Azulay nos mostra o quanto foi tortuosa e gratificante a colaboração deles.
Antenado com tudo e todos mundo afora, o filme nos mostra um formato musical vigoroso e ao mesmo tempo ingênuo, muito mais despojado e livre do que as próprias carreiras individuais. Os críticos da época, de forma geral, desancavam o quarteto como a um grupo de rock comum, com vocais pouco afinados etc. Os Doces Bárbaros nunca fizeram um disco de estúdio, mas apenas um álbum duplo ao vivo, que tem de fato problemas de som e execução. Todos fizeram, sim, coisas melhores, tanto antes quanto depois. Mas muito provavelmente nada tenha sido tão relevante e revelador de uma época quanto este encontro, que o relançamento do filme de Azulay vem reforçar.

ReproduçãoE OUTRO TROPICALISTA QUE CONTINUA POR AÍ DISCUTINDO O SEU TEMPO É TOM ZÉ. Com o hábito de se debruçar sobre as coisas, pensá-las, estudá-las, desta vez ele vai mais longe ainda, até o final da década de 50. Foi assim desde sempre. Desde que começou e, mais explicitamente, desde Estudando o Samba, de 1976, depois Estudando o Pagode, de 2006 e agora em Estudando a Bossa.
Outra mania sua, também salutar, é não levar nem a si mesmo e nem nada muito a sério. Tudo o que cai diante da sua batuta pode ser exaltado e/ou esculhambado. Ou tudo isso ao mesmo tempo.
E é exatamente isso que faz com a genial, propalada, exaltada, superestimada e rebuscada bossa nova. Aos olhos e ouvidos deste outro Tom, várias notas e senões engasgados ficam claros. E também muito mais divertidos do que os absolutismos – negativo de José Ramos Tinhorão e positivo de Ruy Castro. “O Carneggie Hall foi importante porque pinçou João, separou João como a grande gema, a grande jóia”. Com este verso de “João nos Tribunais”, Tom Zé sintetiza o que os dois críticos costumam dizer, cada um a seu modo, ou seja, que João Gilberto é de fato o tal, o inventor de tudo e o resto é história.
DivulgaçãoMas o dizer de Tom Zé é feito de outros dizeres, é construído com outras formas, que muitas vezes privilegiam simplesmente o discurso e noutras a sua forma. No caso de Estudando a Bossa, o compositor baiano brinca com o rigor de estilo da bossa. Não tenta e nem pretende chegar no apuro do movimento, seus acordes e contornos linguísticos. No entanto, à sua maneira, vai muito mais longe.
O disco é um manifesto, uma proposta para enxergar e ouvir de outra forma o que já foi pisado e repisado e anda meio gasto. Ao mesmo tempo pretende o lúdico puro e simples. Em “Síncope Joãobim” reverencia: “No Brasil reinava então o doutor samba-canção, foi quando apareceu o cara do bim-bom”. Mais uma vez o compositor faz a alusão a João Gilberto e encerra a discussão. No seu discurso todo o resto é duvidoso.
Os músicos que constroem a textura musical de Estudando a Bossa são basicamente os mesmos que já vêm com Tom Zé de há muito: Lauro Léllis: bateria e design de percussão; Daniel Maia: baixo, guitarra, violão e vocal; Jarbas Mariz no cavaquinho, percussão, vocal; Cristina Carneiro, teclados e vocal. Os arranjos são do próprio autor, que conta também com a participação de Fernanda Takai, Mariana Aydar, Mônica Salmaso, Rita Lima, Andréia Dias, Márcia Castro, David Byrne, Jussara Silveira, Fabiana Cozza, Zélia Duncan, Marina De La Riva, Anelis Assumpção e Badi Assad.
Com tantas vozes e tamanha inquietação, o que mais impressiona é a unidade com que ele alinhava o todo. O disco não perde em momento algum a sua marca registrada. A bossa é um pano de fundo, em que a ousadia tropicalista do autor, ilustrada por cantoras contemporâneas que nos remetem a Sílvia Teles e Nara Leão formam um terceiro tom. Com as suas idas e vindas no tempo, Tom Zé mais uma vez constrói o seu futuro feito de passado.

julinhobittencourtt@revistaforum.com.br



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