Toques Musicais – Zeca Baleiro e Sérgio Mendes

Acaba de ser lançado Concerto, disco do compositor e cantor Zeca Baleiro que reúne um binômio imponderável. Ao mesmo tempo em que é uma gravação ao vivo, é também um CD de inéditas. O...

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Acaba de ser lançado Concerto, disco do compositor e cantor Zeca Baleiro que reúne um binômio imponderável. Ao mesmo tempo em que é uma gravação ao vivo, é também um CD de inéditas. O fato contribuiu para certa estranheza que, com a audição, vai logo se dissipando.

Por Julinho Bittencourt

 

Acaba de ser lançado Concerto, disco do compositor e cantor Zeca Baleiro que reúne um binômio imponderável. Ao mesmo tempo em que é uma gravação ao vivo, é também um CD de inéditas. O fato contribuiu para certa estranheza que, com a audição, vai logo se dissipando.

O disco foi gravado em março deste ano em três shows no teatro Fecap, em São Paulo. Nele, Zeca está acompanhado somente de Swami Jr. no violão de sete cordas e vocal, e Tuco Marcondes no violão, guitarra, bandolim, gaita e vocal. O resultado tem uma sonoridade meio folk muito próxima do seu disco Líricas, de 2000.

Na ocasião, a plateia recebeu cédulas em que poderia votar, dentre as 20 canções apresentadas, nas 14 que fariam parte do disco. A ideia, apesar de original em propor interatividade com o público, deixa a sensação que nem sempre o que funciona no calor de um espetáculo é necessariamente a canção que vai tornar um disco melhor. Enfim, assim foi feito e assim é Concerto.

Aos fãs nem tão assíduos do cantor, o disco muito provavelmente vai soar indigesto. As canções inéditas, e também as que ele resolveu ressuscitar, não são nem de longe muito fáceis, dessas que a gente sai assobiando. É um disco em que predominam a melancolia e certo humor ácido, tão característico de Zeca. O conselho é que o ouvinte insista, ouça várias vezes com a devida atenção.

As boas canções vão se desnudar aos poucos. Ao lado de ótimas e inéditas surpresas do autor, como “A Depender de Mim” ou “Canção pra Ninar Neguim”, esta feita para Michael Jackson em 1993, o ouvinte vai se surpreender com as versões pra lá de inusitadas de “Eu Não Matei Joana D’Arc”, lendário sucesso da banda Camisa de Vênus ou “Best of You”, do Foo Fighters.

Entre essas e outras, Zeca mostra ainda os clássicos “Autonomia”, de Cartola, a deliciosa “Tem Francesa no Morro”, de Assis Valente e ainda o achado “Respire Fundo”, de Walter Franco. Do seu repertório há ainda que se destacar “Milonga del Mejor”, em parceria com Vanessa Bumagny, a divertida “Bangalô”, com o compositor mineiro Vander Lee e a faixa bônus “Mais um Dia Cinza em São Paulo”.

No final das contas, quase que como pego em um golpe, o ouvinte agradecido percebe que a tristeza aparente servia apenas para disfarçar o velho e bom instinto galhofeiro do compositor. Em total consonância com as agruras da modernidade, Zeca Baleiro chora às gargalhadas em estilo brega rebuscado. No fim, assim como a hilária “Armário”, tudo na sua boa música é drama em tom de mentirinha. Ou o contrário.

 

Já sem dramas e nem mentiras, chega às lojas Bom Tempo, o novo disco de Sérgio Mendes. Não traz nada de novo, exatamente, mas isso, em se tratando de Sérgio Mendes, é um grande trunfo. O disco tem um belo repertório de canções brasileiras ricas em ritmos, participações de conhecidos cantores e compositores como Milton Nascimento, Carlinhos Brown, Seu Jorge e Gracinha Leporace, e também uma capa exótica, em que o arranjador e produtor aparece de terno e chapéu azul-marinho entre motivos tropicais.

A despeito das críticas, Sérgio Mendes é um selo de qualidade da nossa música em todo o mundo. Seus discos universalizam o nosso som, colocam nossa música em qualquer mercado a partir do americano. Este Bom Tempo não é diferente disso. Com as melhores condições que o dinheiro pode comprar, os melhores músicos e estúdios e, bom que sempre se repita, um indiscutível bom gosto e talento, Sérgio Mendes nos traz mais um excelente e irresistível disco.

Não há como negar as recorrentes críticas ao trabalho do músico. Seu som é, de fato, como a melhor torta de uma famosa delicatessen. É feito mesmo para agradar ao maior número de paladares possível e ponto. O ônus disso é que não incomoda nem inova. No entanto, não há músico ou especialista que ouça, por exemplo, seus arranjos para “Emoriô”, de Gilberto Gil e João Donato, com a participação de Nayanna Holley e Carlinhos Brown, sem se estarrecer com a qualidade. O equilíbrio perfeito entre o uso de samplers, teclados e instrumentistas, a sagacidade em tomar emprestado o melhor de cada artista, enfim, a absoluta maestria do fazer musical, que transforma qualquer argumento contrário em pura abobrinha.

Sérgio vai do mais exótico, como “País Tropical”, de Jorge Ben Jor ou “Maracatu Atômico”, de Nelson Jacobina e Jorge Mautner, até o preciosismo harmônico de “Caminhos Cruzados”, de Tom Jobim e Newton Mendonça, ou “Caxangá” de Milton Nascimento e Fernando Brant, esta com uma incrível participação do autor, com destreza absoluta. Sabe como encaixar todas estas canções, cada uma com um apelo amplamente diferente, dentro de um mesmo espectro, para que possam ser consumidas pelo rico mercado mundial.

O lançamento se desdobra no Bom Tempo Brasil Remix que, como o nome diz, traz várias versões das mesmas canções do original remixadas pelos DJs mais famosos e requisitados do mundo, como Paul Oakenfold, Roger Sanchez, Paul Harris, entre vários outros. O resultado, mesmo que soe terrivelmente chato ao ouvinte tradicional, tem o mérito de colocar grandes compositores de nossa música no circuito da garotada.

No resumo da ópera, Sérgio Mendes faz neste Bom Tempo e Bom Tempo Brasil Remix o que sempre fez de melhor. Coloca a nossa música dentro de uma embalagem segura para que embarque em qualquer voo para qualquer parte.



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