Um cotidiano de horror

Eurodeputado Miguel Portas, que visitou Gaza em diversas ocasiões, narra como os palestinos se habituaram aos ataques israelenses e critica a omissão da comunidade internacional na questão Por Thalita Pires  ...

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Eurodeputado Miguel Portas, que visitou Gaza em diversas ocasiões, narra como os palestinos se habituaram aos ataques israelenses e critica a omissão da comunidade internacional na questão

Por Thalita Pires

 

O eurodeputado português Miguel Portas, pertencente ao Bloco das Esquerdas, já esteve várias vezes na Faixa de Gaza. Membro da delegação parlamentar para relações com o Parlamento palestino, além de ter escrito livros sobre a questão (No Labirinto e O Líbano entre guerras, política e religião), junto com outros oito representantes do Parlamento Europeu esteve novamente na região no dia 11 de janeiro, em plena vigência dos ataques de Israel. A visita, viabilizada pela Agência da ONU para os Refugiados Palestinos (Onrwa, na sigla em inglês), durou apenas duas horas e quase não aconteceu, já que Israel demorou a garantir a segurança da comitiva durante a trégua diária de três horas.
Ali, descreve um cotidiano de horrores, onde a população aprendeu a conviver com bombardeios. “Quando aconteceu a primeira explosão, a cerca de um quilômetro de onde estávamos, houve um grande susto na comitiva, mas as pessoas da região já interiorizaram a guerra de uma tal forma que os palestinos que estavam conosco nem ligaram”, conta. Na entrevista a seguir, ele relata não só como o bloqueio econômico, aliado aos ataques israelenses, tornam Gaza um local praticamente inabitável, como também fala sobre a falta de ação dos EUA e da Europa na resolução do conflito. “Bastava que EUA e Alemanha dissessem ‘meus amigos, acabou, fecharam-se as torneiras’ e em 48 horas isso se resolvia. Esse é ponto. Por que raios a comunidade internacional tem que estar do lado do mais forte? Que guerra é essa em que existem ataques e não se têm vítimas?”, questiona. Leia trechos da entrevista a seguir.

Visita a Gaza
A viagem a Gaza durou só um dia, porque tínhamos que entrar e sair no período da trégua, de duas horas. Por isso, não pudemos, por exemplo, ir até Gaza City, ao norte. Aliás, Israel procurou evitar que nós entrássemos. Na hora em que começou a trégua ainda não sabíamos se poderíamos entrar, na verdade estávamos quase convencidos de que não seria possível pois na Faixa de Gaza era necessário ter transporte, cuja segurança, inicialmente, não foi garantida pelo Estado de Israel, nem mesmo nesse período.
Pouco conversamos com palestinos pelas limitações de tempo e de segurança. Por exemplo, não pudemos sair dos jipes a não ser em um centro de distribuição de alimentos e outro centro de acolhimento para refugiados. Em ambos os casos os nossos principais interlocutores foram homens da própria Unrwa. O nosso cicerone era, contudo, palestino. Pudemos constatar a sua vontade férrea e, ao mesmo tempo, o seu desespero por não conseguirem responder às necessidades.
No centro de refugiados – um dos 30 que a Unrwa tem em Gaza – ouvimos jovens e mulheres. Exprimiam-se por gestos que, de tão claros, quase dispensavam tradução. Rostos severos e angustiados, os das mulheres; e com felicidade, o dos jovens, porque ali estavam os primeiros que chegavam de fora e que lhes diziam que não estavam sozinhos.
Se tiver que recordar de um fragmento de diálogo, conto o que se passou entre uma mulher, Raida, e a minha camarada Luisa Morgantini (eurodeputada italiana): “dentro de dias Israel clamará vitória e o Hamas também, nós somos os que perdemos”.

Bombas durante a trégua Durante o cessar-fogo, nas duas horas em que lá estivemos, na região de Raffa e de Arafat, caíram quatro bombas de grande porte. Isso significa que Israel não cumpriu a trégua. Quando aconteceu a primeira explosão, a cerca de um quilômetro de onde estávamos, houve um grande susto na comitiva, mas as pessoas da região já interiorizaram a guerra de uma tal forma que os palestinos que estavam conosco nem ligaram. Quando estávamos no centro de refugiados caiu outra bomba, e mais uma vez não ligaram.
Durante todo o tempo, mesmo com o frio, as famílias têm que deixar as janelas abertas porque não há outro vidro para substituir se o impacto de uma bomba destruir aquele que lá está. É um pouco como os bombardeios sobre Bagdá na Guerra do Iraque. As bombas estão permanentemente a cair. Não sei como aquelas pessoas conseguem dormir.

Condições de vida
Falar como estes palestinos vivem é fazer um grande elogio à dignidade e à capacidade de suportar o sofrimento. A grande maioria depende de ajuda humanitária, que está chegando, mas com dificuldades, porque os caminhões têm que entrar e sair durante a trégua, então eles vão apenas até um centro de distribuição e voltam.
Mas, depois, como é feita a distribuição dentro da Faixa? Como circular num território em guerra? As Nações Unidas, no final de 2005, conseguiam fazer passar 500 caminhões de ajuda humanitária por mês. Em outubro do ano passado, só 123 caminhões passaram, e em novembro foram ainda menos. E veja que em outubro ainda não havia conflito declarado. Assim, as pessoas estão sujeitas a racionamento, recebem latas de leguminosas e alguns pães somente. Há pouco comércio que ainda funciona e as padarias fecharam. Se não há gás nem eletricidade, como se faz o pão? As pessoas tentam fazer em casa, mas para isso têm que encontrar papel, para fazer o fogo. Eu vi dois botecos abertos, uma única banca de venda de legumes, e olha que andamos alguns quilômetros. Isso tudo já era muito difícil sob bloqueio, agora, com os ataques, são guerras sobrepostas, porque o bloqueio é um ato de guerra. À luz do direito internacional não há outra definição.

Os ganhos econômicos de Israel
Por causa do bloqueio, nenhum empresário em Gaza pode exportar um tomate, um legume que seja sem ter um acordo com uma empresa de importação e exportação israelense. Então, Israel ganha dinheiro com isso. Com armazenamento é o mesmo. Para entrar em Gaza, a mercadoria – incluindo a ajuda humanitária – espera dias e dias por autorização. O armazenamento disso é caro, portanto Israel ganha a cada dia que uma mercadoria não pode entrar na Faixa. No caso da exportação é pior ainda. Flores, legumes, alfaces não aguentam dentro de um caminhão mais que algumas horas, o que dificulta a venda. Essa é a vida econômica sob regime de prisão.

Os ataques de cada lado
Eu consigo compreender o incômodo e a irritação da população das cidades israelenses quando tocam as sirenes e sabem que lá vem um foguete e têm que ir ao um abrigo, ou mais ao fundo da casa. Isso não é maneira de se viver normalmente. Agora, não tem nada que ver com o que é viver sob embargo, sem trabalho, depender inteiramente da ajuda humanitária porque não há economia possível, e ainda por cima sob bombas que não são foguetes, e sim armamentos de grande potência. E agora há indícios de que Israel esteja usando fósforo (arma de uso controverso, que é permitida quando a finalidade é criar fumaça em lugares abertos, mas que causa graves queimaduras quando atingem pessoas).

Foguetes
Da penúltima vez que estive em Gaza, tivemos uma longa discussão com deputados de vários partidos em Gaza. Eu e outros deputados dissemos: “Mas por que vocês continuam com essas porcarias dos foguetes, qual o sentido que faz? Parem com isso”. E um deles, nem era do Hamas, me deu uma resposta que me deixou um pouco desarmado. “Mas o que acontece quando se fecha um gato numa jaula? Ao menos mostra as garras. Não tem mais nada, mostra as garras.”

Refugiados
Entendo perfeitamente a exasperação da população de Ashkelon, em Israel. Mas sei que a população de Askhelon não sabe que, em 1949, seis meses depois de assinado o armistício entre o Estado de Israel e os estados árabes, Ashkelon não se chamava Ashkelon e todos os palestinos que ali viviam foram expulsos. Essas pessoas e seus descendentes estão hoje vivendo em Gaza, em campos de refugiados. Só que a memória de quem vive em Ashkelon hoje não é essa. Queria saber quantos habitantes de Ashkelon sabem que só estão lá porque o Exército de Israel, depois de feito o armistício, expulsou os árabes e pôs por cima uma floresta, para dizer que é ecológico, e está apagando as provas da expulsão. Mas nenhuma família em Gaza esquece que é refugiada, todos os dias a necessidade de ajuda alimentar os lembra disso.

Conflito histórico
É muito complicado pedir ao Hamas que seja conivente com a política dos israelenses. Foi por isso que Arafat se liquidou, não há como manter a sua base de apoio quando a promessa é um Estado palestino e não há esse Estado. Nada disso torna particularmente popular a Fatah aos olhos dos palestinos. Acrescente mais umas boas doses de corrupção – porque a corrupção é a forma de fazer aquela economia funcionar – junte tudo e você percebe por que o Hamas venceu as eleições. Agora, isso também não começou em 2001, quando infelizmente a resistência palestina resolveu passar das pedras às armas e aos foguetes.

“Terrorismo” A própria Fatah, em função do fracasso dos acordos de Oslo, da frustração completa das expectativas geradas nos anos 1990, começou a recorrer à luta armada, ou seja, aqueles que agora o Ocidente diz que são bons, eram terroristas, e aqueles que o Ocidente acusa de serem terroristas foram, no seu primeiro ano de existência, apoiados por Israel. O que é terrorista e o que não é terrorista? Mandela era terrorista. Metade dos ministros do governo brasileiro eram terroristas. O IRA era considerado terrorista, mas apesar disso o Exército britânico não foi destruir Belfast. Acho que os povos ocupados têm direito a resistir, inclusive com o recurso das armas se necessário for. Aliás, esse é um direito reconhecido pelo direito internacional.

A “democracia” israelense
Em Israel, os partidos árabes foram proibidos. Dizer que aquilo é uma democracia é muito extremado. Dizer que é uma democracia só para judeus ainda é extremado. A sociedade israelense está em permanente mutação. É uma sociedade extraordinariamente fragmentada, intercomunitária, tal como é o Líbano. Dentro da comunidade israelense há colonos, russos, grupos radicais, que em matéria de fundamentalismo estão bem próximos dos fundamentalistas islâmicos, e há gente laica, que sabe que não é lá que estão suas origens, e que prefere não viver em Jerusalém. E a guerra é uma das poucas coisas que põe essa sociedade unida porque as forças de dispersão da sociedade israelense são brutais e só pioraram com as políticas liberais. É isso também que torna o exército e a guerra um exercício tão indispensável a uma sociedade muito pouco coesa. Eles encontram identidade na guerra.
Penso que, hoje em dia, Israel existe, vai continuar e tem legitimidade internacional. Por mais que todas as conversas que os setores islâmicos mais radicais possam ter sobre o fim de Israel, isso não tem nenhum sentido. O problema é que um Estado legítimo não pode estar permanentemente na fronteira da ilegalidade do direito internacional. E ainda por cima ser chamado de democrático, quando proíbe os partidos que representam 20% da população.

Lideranças
O que Israel está tentando é dobrar tanto a espinha dos líderes palestinos até que o povo não se sinta mais neles representado. Uma guerra dessas, em um contexto em que a população deixa de se reconhecer nas forças laicas, é uma fábrica de terror a prazo.
A política de Israel é pura e simplesmente liquidar cada liderança que possa se firmar para poder sempre dizer que não há interlocutor. Se não há interlocutor, fica do jeito que está. É ficção que o Hamas não queria reconhecer o Estado de Israel. Na verdade, Israel nunca reconheceu o direito a um Estado palestino. A discordância que houve entre o Hamas e a Fatah nos anos 90 foi que a Organização para Libertação da Palestina reconheceu o Estado de Israel, mas não obteve em troca o Estado palestino. O que o Hamas diz é que não reconhece Israel enquanto Israel não reconhecer as fronteiras do Estado palestino. Isso é legítimo.

EUA e Europa Bastava que EUA e Alemanha dissessem “meus amigos, acabou, fecharam-se as torneiras” e em 48 horas isso se resolvia. Esse é o ponto. Por que raios a comunidade internacional tem que estar do lado do mais forte? Que guerra é essa em que existem ataques e não se têm vítimas?
Quer Europa, quer EUA, ambos têm toda a responsabilidade no conflito que existe em diferentes versões. É evidente que a Segunda Guerra lançou na Europa um sentimento de culpa. Mas ninguém se lembrou que milhões de judeus, depois da guerra, vagavam pela Europa sem ter onde começar a vida. Achou-se muito mais simples que fossem para a Palestina do que criarem condições para que as cidades europeias os acolhessem. E os EUA fecharam as portas à imigração. Aquela gente verdadeiramente não teve escolha, mas isso dá direito a um povo perseguido de perseguir? Até agora, é o que tem acontecido. O fato é que a comunidade internacional se recusa a exercer a devida pressão sobre o lado mais forte.
No início de dezembro, o Parlamento votou o adiamento de uma resolução que propunha o upgrade das relações com Israel. A maioria sabia que nada àquela altura justificava qualquer prêmio a Israel e, mais, que a ofensiva estava em adiantado estado de preparação. Dez dias mais tarde, e ao arrepio da vontade dos eurodeputados, os governos decidiram mesmo premiar Telaviv. 15 dias depois, começava o horror. Resumindo, os governos europeus foram cúmplices por antecipação de uma tragédia anunciada.
Aliás, as primeiras declarações oficiais da presidência tcheca e de vários governos foram de justificação da ofensiva. Grosso modo, passou-se tudo como no Líbano, em 2006. A Europa começa por apoiar, esperando que a operação dure apenas alguns dias. Quando percebe que não vai ser assim, que a matança está para continuar e que até a ONU é uma “entidade hostil”, começa a derivar para a busca de um cessar-fogo.
O debate trouxe, entretanto, duas novidades: a comissão decidiu congelar o upgrade e pela primeira vez se ouviram vozes na direita e ao centro defendendo a necessidade de se falar com o Hamas. Tive oportunidade de comentar estas declarações com um desabafo: “se se tivessem lembrado disso quando o Hamas ganhou as eleições e quando as facções palestinas acordaram um governo de unidade nacional, talvez se tivesse evitado este massacre”.

Obama
Penso que Barack Obama será mais importante na política interna norte-americana do que nesse conflito. É melhor ter baixas expectativas do que a frustração de se ter colocado patamares altos e nada mudar. É pouco provável que Obama, com as relações que teve que manter com a comunidade judaica nos EUA para sua eleição, que tem representantes sionistas, tenha a disposição de dar um ultimato, que é a única forma de resolver esse conflito.

Mundo árabe
Os árabes não tomam uma posição firme em relação à Palestina porque boa parte das suas elites é hoje dependente dos EUA e tratam da sua vida e não da dos respectivos povos. Em outros casos, porque receiam que uma Palestina laica e democrática ponha em causa a natureza ditatorial ou autoritária dos seus regimes. Finalmente, porque a questão dos refugiados implica vários deles. Na verdade, o reconhecimento do direito ao retorno – que tem de ser garantido – não é sinônimo de que todos retornem. No âmbito de um acordo global, deve ser dada a possibilidade de escolha e, provavelmente, muitos gostarão de ficar nos países onde nasceram. Isto coloca a questão do reconhecimento de direitos políticos e sociais e mexe com os equilíbrios de ordem comunitária e religiosa. Em outras palavras, nem sempre a solidariedade com o sofrimento humano é genuína.

Final longínquo
Todo mundo sabe que essa guerra não vai acabar com a destruição do Hamas. Vai acabar com um cessar-fogo, com a abertura das fronteiras, com a retirada das tropas de Israel e com grande probabilidade na fundação de um governo de unidade nacional na Palestina. E não tenha a menor dúvida de que essa ofensiva, que é a mais violenta de longe desde 1967, não será esquecida pelos palestinos, é evidente. Como não esquecem de outra coisa naquela terra: a ocupação.

Condições para a paz Cessar-fogo imediato com retirada do agressor e abertura de fronteiras à ajuda humanitária. Em seguida, uma trégua durável internacionalmente fiscalizada que dê tempo a uma Conferência Internacional que relance em novas bases as negociações para a paz e a formação de um Estado palestino viável.
As dificuldades, agora, concentram-se no cessar-fogo unilateral decretado por Israel que, obviamente, é uma forma de prolongar a punição coletiva sobre o povo de Gaza. A resistência palestina teve a inteligência de lhe dar uma resposta sábia, mas os próximos dias serão terrivelmente periclitantes. A segunda dificuldade respeita à fiscalização internacional. Se existir uma força multinacional, onde e de que lados da fronteira será colocada? Que países entrarão nelas? Quem representará o lado palestino? E será de manutenção de paz ou de intervenção no conflito? Muitas perguntas para poucas respostas conhecidas. Finalmente, tudo isto só faz sentido se for reaberto um processo de negociações mais global que tenha por objetivo uma solução durável. F



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