Um patrimônio não reconhecido

O futebol ainda é visto com certo preconceito na academia, mas visão sobre a importância do esporte na cultura brasileira começa a mudar Por Glauco Faria  ...

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O futebol ainda é visto com certo preconceito na academia, mas visão sobre a importância do esporte na cultura brasileira começa a mudar

Por Glauco Faria

 

O Brasil é reconhecido em boa parte do mundo por conta do seu futebol, no entanto, ele ainda é negligenciado nas universidades e subestimado como possível fonte de receita para fins turísticos. Mas há quem leve a sério a modalidade esportiva mais praticada no mundo. Sérgio Miranda Paz, autor da tese de doutorado O Futebol como Patrimônio Cultural do Brasil: estudo exploratório sobre possibilidades de incentivo ao Turismo e ao Lazer, apresentada na ECA-USP, defende que o futebol deva ser incluído nas disciplinas de Cultura Brasileira do ensino superior como forma de divulgar sua importância. Ele destaca ainda a força do esporte como divulgador da imagem do país no exterior e assegura que isso pode ser mais bem aproveitado para fins turísticos.

Fórum – Que tipo de influência o futebol brasileiro tem sobre a cultura de outros países?
Sérgio Miranda Paz –
Há vários exemplos de manifestações culturais de um determinado país que exercem forte influência nas culturas de outros países: a costura e a dança clássica francesas, a música de ópera e a culinária italianas, a mecânica alemã, a relojoaria suíça, a tecnologia e o cinema norte americanos etc. Eu acredito que o futebol, ao lado da música popular, seja a manifestação cultural brasileira que, pela sua qualidade, mais influencia culturas de outros países. Em filmes e romances estrangeiros que fazem referência a futebol, geralmente se faz alguma citação à seleção brasileira ou a algum de nossos craques. Em brinquedos inspirados no esporte, os uniformes dos jogadores quase sempre são amarelos. A rede de fast food McDonalds, no Japão, ao oferecer como brinde de seu “happy meal” o cachorrinho Snoopy praticante diversos esportes, vestiu o “Snoopy futebolista” com camiseta amarela e calção azul.
A influência cultural do futebol brasileiro me parece ainda mais forte nos países subdesenvolvidos, especialmente na África e na América Latina, onde esse esporte é bastante popular, e até mesmo na Ásia. Uma boa demonstração dessa influência ficou evidenciada no excelente documentário O dia em que o Brasil esteve aqui, sobre o chamado “Jogo da Paz”, disputado pela seleção brasileira no Haiti, o mais pobre país americano. São impressionantes as cenas em que os haitianos se mostram tresloucados durante o desfile dos jogadores brasileiros pelas ruas de Porto Príncipe. Nesse filme, um jornalista haitiano chama atenção para a forma de dominação do Brasil sobre seu país: diferentemente de potências militares que empregam a força e, por isso, nunca conseguem evitar a insatisfação por parte do dominado, o Brasil conquista pela arte, pelo sorriso, sendo, portanto, na opinião do jornalista, uma forma de dominação muito mais perigosa, pois o dominado se deixa conquistar sem opor resistência.
Não tenho dúvidas de que o futebol brasileiro é o principal cartão de visitas do nosso país, e que uma camisa da seleção pode abrir muitas portas a quem a estiver vestindo, pelo mundo afora.

Fórum – Você destaca o papel de Nelson Rodrigues para o futebol conquistar espaço no imaginário da sociedade. Como isso aconteceu?
Paz –
Pertencendo a uma família de jornalistas e tendo iniciado sua carreira como repórter policial, Nelson Rodrigues demonstrou em suas peças teatrais uma fantástica aptidão para retratar o cotidiano da sociedade brasileira, misturando grandes doses de tragédia e comédia. Em uma delas, A falecida, ousou fazer do personagem principal, Tuninho, um fanático torcedor de futebol, pelo que foi alvo de inúmeras críticas por abordar um tema indigno do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Amante do futebol como Tuninho, e assíduo freqüentador das arquibancadas do Maracanã, apesar de sua avançada miopia, Nelson Rodrigues utilizou todo aquele seu talento de dramaturgo para escrever crônicas nas páginas esportivas dos jornais e para protagonizar acaloradas discussões em mesas redondas televisivas. Algumas das suas criativas expressões, empregadas fora do futebol, adequaram se perfeitamente ao esporte, como “complexo de vira latas”, uma espécie de sentimento de inferioridade do brasileiro perante o estrangeiro que, entre outras coisas, o impedia de obter sucesso dentro e fora dos gramados – a maior derrota, a da Copa de 50, para o Uruguai, por ele descrita como “uma irremediável catástrofe nacional, algo assim como uma Hiroshima”, teria sido conseqüência desse complexo.
Note se que, num intervalo de apenas cinco anos, outros fatos da vida brasileira pareciam dar razão a Nelson Rodrigues: as mortes de Francisco Alves (o Rei da Voz) e de Carmen Miranda (a Pequena Notável), maiores ídolos da nossa música: o suicídio de Getúlio Vargas, depois de reconduzido à presidência da República pelo voto popular; a nova derrota do futebol na Copa, desta vez em 1954, para a poderosa Hungria; e até mesmo a derrota de Marta Rocha no concurso de Miss Universo, por supostas duas polegadas a mais em seus quadris.
Talvez a insistência com que Nelson Rodrigues criticou o tal “complexo de vira latas” tenha ajudado o brasileiro a superá lo… pois os anos seguintes foram extremamente favoráveis ao país: o presidente Juscelino Kubitschek empreendeu um governo progressista (cujo lema era “50 anos em cinco”), que trouxe a indústria automobilística e culminou com a fundação de Brasília, ousado projeto saído das criativas pranchetas dos arquitetos Lúcio Costa e Oscar Niemeyer; a gaúcha Ieda Maria Vargas, mesmo com seus avantajados quadris tropicais, foi eleita Miss Universo; a música de Tom Jobim, a poesia de Vinicius de Moraes e a batida diferente do violão de João Gilberto levaram a bossa nova às paradas de sucesso de todo o mundo; esportistas brasileiros chegavam aos degraus mais altos dos pódios nas quadras (Maria Esther Bueno, campeã de 18 torneios de Grand Slam, no tênis), nas pistas (Adhemar Ferreira da Silva, bicampeão olímpico, no salto triplo), nos ringues (Éder Jofre, campeão mundial de boxe, peso galo) e nas quadras (seleção brasileira de basquete, bicampeã mundial). E o futebol brasileiro assombrou o mundo, ganhando as copas de 58, na Suécia, e 62, no Chile, vendo surgir o gênio Pelé – aliás, foi Nelson Rodrigues, numa crônica ainda antes da Copa da Suécia, o primeiro a chamá lo de “Rei”.
Nelson Rodrigues ainda iria escrever sobre a gloriosa vitória no México, em 70, e a conquista definitiva da Jules Rimet, mas, agora, suas palavras pareciam não ter a mesma força que as imagens mostradas pela televisão…
Mesmo assim, sua importância para que o futebol conquistasse seu espaço no imaginário da sociedade brasileira é imensa. Quem melhor soube mostrá la foi o professor José Carlos Marques, em seu livro O Futebol em Nelson Rodrigues – o óbvio ululante, o Sobrenatural de Almeida e outros temas, baseado em sua tese de doutorado, cuja leitura recomendo.

Fórum – O que o país ganharia com o Dia do Futebol?
Paz –
É importante que se registre que, no Brasil, já foi instituído o Dia Nacional do Futebol: 19 de julho, evocativo da fundação do Sport Club Rio Grande, da cidade gaúcha de mesmo nome, considerado o mais antigo clube de futebol do país… mas muito pouca gente sabe disso. Em meu trabalho, sugiro que a celebração seja no penúltimo domingo de outubro, para que caia próximo ao aniversário de Pelé (nascido em 23/10/1940).
Minha proposta é bem semelhante às recém criadas Virada Cultural e Virada Esportiva que ocorrem em fins de semana específicos em São Paulo: as escolas e os centros esportivos públicos ficariam abertos durante todo o dia para a realização de torneios disputados pela população em geral, envolvendo as mais diversas faixas etárias; as partidas dos campeonatos profissionais disputadas nesse dia teriam seus ingressos distribuídos gratuitamente; a seleção brasileira disputaria um jogo amistoso, cada ano em um estado diferente; jogadores de destaque do passado seriam homenageados, por exemplo com sua nomeação para um “Salão da Fama do Futebol Brasileiro”, escolhidos pelo voto popular; filmes e peças de teatro sobre futebol seriam exibidos gratuitamente.
Minha preocupação, aqui, não é com um possível lucro financeiro que esse evento pudesse trazer, mas sim com um reforço da conscientização sobre a importância do futebol como patrimônio cultural do Brasil. Pelo menos uma vez por ano, em uma ocasião desvinculada da disputa de uma Copa do Mundo, gostaria que a população se envolvesse com o esporte, podendo desfrutar de seus benefícios e refletir sobre sua importância em nosso cotidiano. F



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