Uma história de segregacionismo

No bairro de Pinheiros, zona oeste de São Paulo, um grupo de moradores e comerciantes tentou manter longe de suas casas um albergue que abriga moradores de rua. Um episódio que revela a desigualdade e as contradições da capital paulista

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No bairro de Pinheiros, zona oeste de São Paulo, um grupo de moradores e comerciantes tentou manter longe de suas casas um albergue que abriga moradores de rua. Um episódio que revela a desigualdade e as contradições da capital paulista

Por Igor Carvalho

Colado na grade que divisa a calçada da rua Cardeal Arcoverde com o imóvel no número 3.041 está Fábio Vasconcelos. Aos 34 anos, ele se viu como alvo do julgamento moral de moradores de uma região nobre, que fica a pouco menos de dois quilômetros do lugar em que habita há quatro meses. Enquanto está reunido com os amigos, ele parece animado e falador, mas muda quando é indagado sobre a celeuma que envolveu recentemente o albergue onde mora. Nesse momento, este migrante muda completamente a expressão e o ritmo da fala.

Preocupado com a escolha das palavras, ele se desculpa e diz que tentará se defender. “Estou no albergue para não pagar aluguel, sou chapeiro [trabalha como ajudante de cozinha, preparando pratos na chapa do restaurante], tenho quatro filhos no Norte com a minha mulher. Esse pessoal da classe média, eles acham que só porque você está em um albergue é ladrão”, lamenta. “Trabalho, com carteira assinada, a maioria aqui trabalha.” Fábio é um dos moradores do Albergue Cor, que deve ser transferido do atual endereço para uma área mais nobre de Pinheiros, ainda na mesma rua. Mas seus futuros vizinhos não o querem por lá.

No dia 27 de setembro, em uma reunião na Associação Comercial de São Paulo do bairro de Pinheiros, uma comissão informal de moradores e comerciantes da região entregou ao subprefeito Sérgio Teixeira Alves e à presidenta do Conselho de Segurança de Pinheiros Mirian Ito, uma petição com 1,2 mil assinaturas, na qual solicitavam que fosse impedida a transferência do albergue para a sua vizinhança. A representação foi encaminhada ao Ministério Público, mas o promotor Maurício Antonio Ribeiro Lopes indeferiu o pedido e julgou ser discriminatória a representação. “A fúria pequeno-burguesa insurge-se contra a instalação de albergue para moradores de rua pela Prefeitura de São Paulo no bairro de Pinheiros. Naturalmente os mesmos signatários nada teriam a objetar se o referido albergue fosse instalado no último rincão da periferia da cidade”, escreveu o promotor.

Joacy, que pediu para não ter o sobrenome revelado, comerciante da região e uma das organizadoras do movimento que tentou impedir a mudança do albergue, alega que a culpa pela repercussão do caso na mídia foi do promotor. “Não fizemos nada demais, nós estamos corretos e não me arrependo da petição. Esse promotor gosta de aparecer.” A revolta dos moradores foi por conta da alegação de Lopes que, quando indeferiu a representação, escreveu que a atitude dos moradores era de “provocar inveja a qualquer higienista do Terceiro Reich”. Em sua resposta ao abaixo-assinado, o promotor rechaça a associação entre pobreza e criminalidade, discurso comumente ouvido nas travessas de Pinheiros.

A convivência com os atuais vizinhos

Na carta que acompanha o abaixo-assinado, os signatários mencionam o medo do convívio com os alberguistas como uma de suas preocupações. “Mesmo que o efetivo da polícia dobre, vai ser difícil acabar com a insegurança (pois já temos históricos, na própria rua Simão Álvares, do ataque de cachorros de Moradores de Rua a crianças e idosos, com BO registrado na delegacia em 17/03/2006)”, escreveu a comissão. Ao longo de todo o texto do documento, mesmo quando o enfoque é a questão da insegurança, há apenas um apontamento factual sobre as alegações, que é esse “ataque de cachorro” ocorrido nos arredores.

Joacy contextualiza a preocupação da comissão. “75% dos moradores de rua são dependentes de droga ou álcool. Isso é um perigo para a população”. Indagada sobre os números que foram apresentados, a comerciante diz que foram extraídos de uma matéria do portal IG, do dia 31 de maio de 2010. Porém, o texto da matéria informa que “74% dos entrevistados utilizam álcool, drogas ou ambos” e não diz que são “dependentes”. Para o coordenador de projetos da Associação Rede Rua – ONG que luta pela inserção na sociedade de pessoas em situação de rua –, Alderón Pereira da Costa, associar o usuário de albergue com a violência é “um absurdo, de uma falta de informação e digno de dó. Não consigo nem nominar isso”, afirma.

Doutora em economia pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e professora de Teoria Econômica pela mesma FEA, Silvia Maria Schor foi coordenadora das quatro pesquisas realizadas pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) na última década, sendo a última em 2010, sobre a população de pessoas em situação de rua na capital paulista. Ela também comenta a associação da imagem do morador de rua com a criminalidade, o uso de drogas e álcool. “Minha avaliação é que o crescimento das drogas se estendeu, também, à população de rua. Ou seja, eles não ficaram imunes à expansão que atinge a cidade toda. Quanto aos demais crimes – assassinatos, roubos etc. – entendo que não houve nenhuma mudança significativa.” A assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo não tem qualquer estudo que relacione a presença de albergues ao aumento da criminalidade nos locais em que são instalados.

No local onde está atualmente o albergue, prevalecem os estabelecimentos comerciais. Essa área fica próxima ao tumultuado Largo da Batata e é menos valorizada que o próximo endereço, que deve abrigar 100 pessoas, um aumento de 25% da capacidade atual. Há um ano e meio, Carlos Roberto é gerente de um hotel que fica em frente ao Albergue Cor e, para ele, a violência nunca foi uma realidade na relação com os usuários do abrigo. “O único inconveniente que nós temos com a presença dos mendigos é que eles sentam na minha calçada, falam mais alto, usam palavras de baixo calão, mas só isso. Nunca tive problema de violência, tanto que já coloquei duas pessoas do albergue para trabalhar comigo de manobrista, e foram ótimos funcionários”. Na doceria de Gilmara Souza, os usuários do albergue são clientes. “Com os que vivem aí, tenho uma ótima relação, eles frequentam a loja e pagam corretamente, nunca tive problemas”, disse ela.
 
A poucos metros do albergue, Roberto Fontanese gerencia um restaurante. Durante a noite, ele observa o movimento em frente ao seu estabelecimento e enumera os seus problemas, porém não cita a criminalidade como um deles. “Eles normalmente dormem aí, têm o hábito de fazer rodinhas, isso incomoda porque afasta os clientes, a gente tem que tomar cuidado e não deixar, porque se deixar eles tomam conta. Mas de violência, isso eu nunca tive problema, é só visual”.
Uma das alegações na petição é o prejuízo comercial que o albergue pode trazer. “O comércio possivelmente não vai sobreviver, uma vez que a população local será acuada em suas residências e os visitantes de outros bairros vão nos trocar por outros centros comerciais mais tranquilos e seguros”, afirmam os signatários. Edmar Honório é manobrista no estacionamento que funciona ao lado do albergue, mas não crê que a presença do abrigo influencie na decisão dos clientes em deixar ou não o carro ali. “Desde que eu entrei aqui são os mesmos clientes, não atrapalha em nada”, assegura. “Eles [os usuários do albergue] respeitam, não passam dos limites, se começa uma briga eles próprios se juntam e não deixam continuar, ninguém abusa, não tem problema”.
 
À espera de Veja
 
“Agora estão todos contra nós por causa do documento”. A afirmação é de Roseli Bauduíno, comerciante que colaborou com o abaixo-assinado. Alguns signatários da petição reclamaram do conteúdo da carta, pois, segundo eles, o documento original, encaminhado aos moradores e comerciantes da região para colher as assinaturas em nada lembra o que foi entregue ao Ministério Público. “Quando recebi o documento, não tinha a carta. Aliás, ainda não vi, trabalho muito aqui, não tive nem tempo de entrar na internet para ver”, diz Jason Franco, outro comerciante que afirma ter assinado a petição, porém sem conhecer o conteúdo que foi redigido após o recolhimento das assinaturas.
 
Fórum teve acesso ao documento original, entregue aos moradores para que assinassem. O texto é mais curto e elenca outros motivos para o impedimento da transferência do albergue, que não constaram na carta final, como o fato de ser um lugar em que existe um “corredor de ônibus com grande movimentação de ônibus e pessoas” e “grande movimento de entrada e saída de veículos em garagens de edifícios e casas”. Agora, os moradores desistiram da petição e vão aguardar a decisão da Delegacia de Polícia Especializada em Crimes Raciais de Delitos de Intolerância (Decradi), para onde os nomes de seis signatários foram encaminhados pelo promotor Lopes.
 
Antes da decisão, os moradores decidiram aguardar o posicionamento da revista Veja, em sua edição impressa de 26 de outubro. Segundo uma comerciante, que preferiu não se identificar, a revista recebeu uma carta da comissão que deveria ser publicada na íntegra e havia a expectativa de que fosse publicada uma matéria favorável à demanda dos moradores. A edição acabou trazendo um perfil, com angulação depreciativa, do promotor Maurício Ribeiro Lopes. Em seu blogue no portal da revista, o colunista Reinaldo Azevedo diz: “Bairros costumam rejeitar albergues; cidades costumam reagir mal a presídios ou a casas que abrigam menores infratores. Será que isso tudo é só preconceito? Não haveria aí a expressão de um problema real, que afeta mesmo a vida das pessoas?”
 
Um modelo que não atende a demanda
 
Para Alderón Pereira, da Rede Rua, o modelo de albergues precisa ser repensado e ampliado para que possa atender as demandas da população de rua na capital paulista. “O albergue, em sua origem, era uma política emergencial, para o imigrante que passava pela cidade. Hoje, em São Paulo, esse modelo não atende a demanda, que não é mais rotativa, é permanente”.
A Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe)  divulgou em maio de 2010 o censo da população de rua de São Paulo, coordenado pela professora Silvia Maria Schor. Segundo os dados apresentados, moram nas ruas da cidade ou em albergues 13.666 pessoas. O número representa um crescimento de 57% em relação à primeira pesquisa, em 2000, quando havia 8.706 pessoas em situação de rua. A assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads) informou que, hoje, “são 56 Centros de Acolhida instalados em todas as regiões da cidade, e que, juntos, somam mais de 10 mil vagas”, esse número evidencia que São Paulo não tem capacidade para abrigar sua população de rua.
 
Para a professora Schor, “uma forma de abordar o problema é considerar as condições que encontramos associadas à ida para as ruas: desemprego, álcool e rompimento dos laços familiares. Claramente, políticas de emprego são prioritárias”. A intervenção pública se faz necessária para frear o crescimento demográfico da população de rua, além de estabelecer melhores condições de vida aos que lá estão. De acordo com Schor, quanto antes a pessoa for retirada da situação de rua, mais fácil sua reinserção na sociedade. “A variável chave para a discussão da reinserção dos moradores de rua é o ‘tempo de rua’. A sociabilidade que se desenvolve ali fica mais dominante com o passar do tempo e a ‘volta às condições’ anteriores à rua fica mais problemática.”


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