Uma nova estratégia Sul-Sul

A Austrália como diferencial no reforço de um bloco do hemisfério Sul Por Marilia Melhado   A Austrália como diferencial no reforço de um bloco do hemisfério...

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A Austrália como diferencial no reforço de um bloco do hemisfério Sul

Por Marilia Melhado

 

A Austrália como diferencial no reforço de um bloco do hemisfério Sul. É essa a estratégia defendida pelo professor André Roberto Martin, do departamento de Geografia Política da Universidade de São Paulo (USP) e docente da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp). Baseado em textos de Gramsci, Martin defende a criação de um bloco político e solidário que englobe os quatro continentes, possibilitando que as maiores potências geopolíticas liderem o projeto, mas sem excluir os países menores que hoje estão restritos à opção
de alinhamento ou não com a política estadunidense.

Fórum – De onde surgiu a idéia de um bloco que represente o hemisfério Sul?
André Martin – Pensei na abordagem meridional de fazer política por uma questão geográfica. Antes de mais nada, o conceito veio pela posição geográfica do Brasil. Nas aulas de geografia, aprendemos que o país está 100% no hemisfério ocidental, 92% na zona intertropical e 93% no hemisfério meridional. Pensando sobre isso, cheguei à conclusão que o ocidental traz uma idéia de vínculos com a Europa que a tropicalidade brasileira desmente um pouco. A nossa população índia e negra é muito grande, portanto não somos plenamente ocidentais.
Por outro lado, existe uma população de origem européia que também é considerável, o que não permite que a gente se considere exclusivamente um país tropical. Então, em termos puramente geográficos, percebemos que há três condições e a meridional era a que atendia melhor ao caso brasileiro. E a leitura de Gramsci caiu como uma luva porque, discutindo a questão meridional na Itália – ou seja, do Sul da Itália, que não fazia parte integral do Estado italiano, pois estava de maneira subordinada nesse contexto – gerava uma questão regional.
A partir dessa idéia do Gramsci, cheguei à conclusão de que existia uma questão meridional mundial. Ou seja, a parte do hemisfério Sul, embora ligada ao hemisfério Norte por laços históricos, não está totalmente integrada no sistema mundo, porque vive uma situação marginal como era o caso do Sul da Itália perante o Norte. Então, como responder a esse problema? Do mesmo modo que Gramsci propunha, temos que ver a totalidade. Ou seja, não existe uma solução só para o hemisfério Sul, já que a solução encontrada para o Sul também será para a humanidade.
Trazendo isso para o âmbito das relações internacionais, a questão é a do poder político. Então, o hemisfério Sul não se resume ao terceiro mundo e a grande diferença é que no conceito de terceiro mundo está a China e não está a Austrália. Mas, no conceito de bloco meridional, está a Austrália e não está a China, porque já é uma potência mundial de primeiro nível e a Austrália, mesmo tendo uma renda per capita alta, é um país fraco.
Para completar as minhas reflexões tenho que incluir outro italiano, o Noberto Bobbio, que diz que o grande drama internacional é a disjuntiva entre um hemisfério com excesso de poder e outro com excesso de impotência. Juntando a minha aula de geografia da posição do Brasil no mundo mais o Gramsci, mais o Bobbio, cheguei a essa teoria meridionalista.

Fórum – A existência de um bloco econômico com Brasil, África do Sul, Índia e Austrália teria que tipo de impacto?
Martin – O grande problema é a Austrália. Ainda não foi possível enquadrá-la em um conjunto próximo a nós, apesar desse país, em termos mundiais, ter uma posição parecida com a do Brasil. Os australianos também têm uma inserção subordinada como exportador de primários, em termos de comércio mundial. E o bloco formado por Índia, Brasil, África do Sul (Ibas) sente a falta de elemento a mais que consiga dar um significado político mais claro, senão o grupo quase reproduz a idéia de um conjunto de países subdesenvolvidos. Apesar de essas iniciativas do Ibas terem um sentido forte na Organização Mundial do Comércio (OMC), ainda não foi possível traduzir a força delas, por exemplo, em um apoio conjunto para assegurar a entrada do Brasil no Conselho de Segurança da ONU. A política e a economia ficam dissociadas.
Por essa razão, acho que há a necessidade de um “Ibasa”, para se constituir como um conselho do Sul. Quatro continentes representados por suas maiores potências e, obviamente, nessa relação seria garantido o acesso dos países menores que eventualmente poderiam se sentir incomodados com a participação de um dos membros na posição de liderança.
O Brasil até hoje enfrenta a resistência argentina, por exemplo, em nos apoiar para o Conselho de Segurança. E por que isso, se por outro lado somos parceiros no Mercosul? O que ainda incomoda a Argentina para não apoiar nossa reivindicação? Falta clareza em saber o que o Brasil vai representar ali, que posições irá tomar. Em um modelo como o que apresento, que é mais amplo e abarca o hemisfério Sul como um todo, isso também mudará de figura.

Fórum – Como os países menores poderiam se colocar perante o bloco?
Martin – Primeiro, o Brasil precisa desenvolver uma diplomacia muito ativa, tentando convencer seus vizinhos latino-americanos de que ele deveria ser o representante da América Latina. Acho que às vezes o brasileiro médio, ou até gente responsável pela política externa brasileira, confunde muito as coisas. O Brasil tem uma posição de destaque na América Latina, pois é a grande potência geopoliticamente falando. Mas ele não construiu uma liderança entre os hispano-americanos.
Em outras palavras, os vizinhos não confiam muito que nós seremos defensores dos interesses latino-americanos. Logo, a primeira tarefa é buscar o convencimento. E como fazer isso? Colocando as questões em âmbito mundial. Nenhum país hispano-americano hoje tem condições de enfrentar isoladamente a pressão dos EUA. Cuba, que tem heroicamente resistido, provavelmente não vai permanecer isolado e fechado, e os países latino-americanos é quem vão começar a se relacionar mais estreitamente com Cuba. A Venezuela já começou isso e a tendência é se ampliar. E posteriormente nós entramos em rota de colisão com os Estados Unidos.
O ponto-chave, não apenas para o Brasil, mas para todos os países do mundo atual, é se relacionar com os EUA. Porque são uma grande ameaça à soberania das nações no momento atual. E os países muito pequenos ficam pressionados a ponto de ter apenas duas opções: alinhamento ou resistência à cubana. Como o sacrifício desse tipo de resistência é muito grande, é possível que a tendência majoritária seja se associar ao mais forte. Contudo, fazer isso significa perder identidade e soberania e colocar a maior parte da população em condições precárias de vida.
Logo, o modelo de um bloco meridionalista busca a associação a partir da vizinhança. Primeiro no âmbito de Mercosul, com os países com os quais se tem mais afinidade, até as relações se estreitarem um pouco mais, assim, montamos um bloco. Uma perspectiva social e, portanto, não antiamericana. Acho que a grande vantagem de se articular um bloco Sul–Sul, hemisférico, é justamente a quebra desses dois grandes mitos de que qualquer atitude dos países em desenvolvimento é uma atitude do ponto de vista de pobres e caloteiros, ou antiamericana.

Fórum – A política externa do governo Lula segue nesse sentido ou ainda está muito aquém do ideal? Martin – Creio que o Brasil está tateando nessa direção. Não tem clareza porque os próceres dessa política não têm geografia na cabeça. Então, quando você vê o Marco Aurélio Garcia, o Samuel Pinheiro Guimarães e o Celso Amorim se manifestando nessa direção, ainda parece muito episódico. Chega a parecer a direção de um país altivo, com a cabeça erguida em relação às grandes potências. Mas tenho muita clareza da estratégia necessária para atingir isso. Minha análise é que se reconheceu nesse governo, pelo menos, que o alinhamento automático aos EUA e a absorção geral das políticas norte-americanas não trouxe bons resultados. Isso, não dá para negar.

Fórum – E quanto às similaridades e diferenças sociais, políticas e geográficas dos países membros desse bloco meridionalista? Como esses fatores poderiam ser combinados?
Martin – Existe um compartilhamento geográfico: todo o hemisfério Sul é mais oceânico do que continental, mais cálido do que frio e, portanto, marítimo. Exatamente o oposto do hemisfério Norte, que é frio, denso e mais compacto. Só isso é uma diferença fundamental entre os nortistas e os sulistas, pois a disputa por recursos é menos acirrada por aqui.
No Sul, a vizinhança está longínqua. Tudo é separado por grandes massas de oceano. E, aqui temos muito mais condições para o estabelecimento humano, com grande biodiversidade e fatores favoráveis para desenvolvimento de formas renováveis de energia. O Norte está mais dependente dos fósseis.
Mas, afinal, o que unifica o hemisfério Sul? A condição colonial. Todos foram criados para serem produtores para o Norte e, ainda hoje, o Sul representa uma área de exploração. Não é uma área autônoma e, portanto, esta condição comum de áreas que não se libertaram totalmente é o que unifica politicamente esse conjunto.

Fórum – E quanto aos aspectos econômicos do bloco? Seria possível imaginar até uma moeda comum?
Martin – Uma pergunta excelente. Não seria possível uma moeda comum, pois não temos reservas cambiais suficientes ou uma moeda forte, uma unificação monetária seria muito complicada. Mas aí vem justamente o problema: como faríamos o comércio se tudo é feito com base no dólar, e não temos dólar? Simples, escambo. Porque a falta de moeda é a nossa moeda. A não-moeda. Pelo escambo deveríamos começar a criar um hemisfério Sul comercialmente mais solidário.
Isso serviria para gerenciar as regiões Sul–Sul e trazer grandes vantagens para todo o hemisfério, pois você poderia vender uma tecnologia intermediária, mais barata e necessária do que aquela tecnologia cara que vem do Norte, e que não é tão necessária. Essa tecnologia que temos no Brasil e na Índia é necessária para que os demais países desenvolvam suas economias. Vejo complementaridades excelentes na área tecnológica, engenharia pesada ou indústria bélica. Os países agrários melhorariam muito o seu desenvolvimento comprando máquinas baratas do próprio Sul.

Fórum – Nesse sentido, como ficariam as relações entre países que já fazem parte de blocos?
Martin – Ficam comprometidas, não posso negar isso, já que a chave conceitual dela é o liberalismo. Os blocos foram imaginados como partes integrantes de um grande sistema de globalização. Mas pergunto a você: se o objetivo é a globalização e os capitães desse movimento são os liberais norte-americanos, por que não fazer do mundo um bloco só? Por que ainda temos que retalhar o espaço mundial em blocos regionais? Qual seria a resposta para essa enigmática pergunta?
Ora, isso responde a interesse das multinacionais regionais. São elas que querem criar reservas de mercado para si próprias. Então, uma União Européia só tem sentido se as matrizes multinacionais conservarem um grande mercado interno reserva para os seus produtos. Essas empresas são fortalezas protecionistas contra os produtos estrangeiros, pois garantem o monopólio europeu e as zonas de expansão.
Minha premissa é um pouco diferente, pois não parte das multinacionais e sim dos Estados nacionais e, portanto, tenta uma aproximação geográfica e cultural entre os povos. O Mercosul nunca teve uma identidade muito bem definida e a União Européia também está com problemas em relação à Rússia e à Turquia. O modelo de unidade econômica, que vem acima da política, eu rejeito.
Agora, devemos jogar o Mercosul fora? Não. O Mercosul tem uma experiência de intensificação comercial entre países do Sul. Imagino o contrário, que isso deva ser alargado; e temos que saber até onde queremos levar o Mercosul. É curioso que agora os maiores próceres do Mercosul, que diziam que era inevitável, assim como a globalização era inexorável, acham que o bloco está com os dias contados. Bastou que partidos e posições políticas que não são liberais cheguem ao poder para tudo entrar em colapso? Não.
Isso será um desafio para os próximos anos, encontrar o equilíbrio entre uma posição nacional de potência para o mundo e uma estratégia regional que possa conviver com os avanços das instituições para facilitar o comércio. Essa seria a perspectiva do bloco meridionalista, algo para os mercados internos. Isso que interessa para a humanidade: uma distribuição justa do poder mundial. Não como é hoje, em que a globalização e o globalismo se voltam apenas para as elites, para o Norte e para as camadas que têm o domínio do dinheiro e do poder.



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