Universidade Popular dos Movimentos Sociais

O Fórum Social Mundial em processo Por Moacir Gadotti   Foi o sociólogo da Universidade de Coimbra, Boaventura Souza Santos, que propôs pela primeira vez a criação...

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O Fórum Social Mundial em processo

Por Moacir Gadotti

 

Foi o sociólogo da Universidade de Coimbra, Boaventura Souza Santos, que propôs pela primeira vez a criação da Universidade Popular dos Movimentos Sociais (UPMS), durante a realização da terceira edição do FSM, no final de janeiro de 2003. O objetivo da idéia lançada em Porto Alegre era “proporcionar a auto-educação dos ativistas e dirigentes dos movimentos sociais, bem como dos cientistas sociais, dos investigadores e artistas empenhados na transformação social progressista”, como ele afirma em seu livro O Fórum Social Mundial (p.136).
A criação da universidade já havia sido comentada no Fórum Social Europeu, realizado em Florência, em 2002, com a finalidade de recuperar e sistematizar os conhecimentos acumulados pelos movimentos sociais no Fórum Social Mundial. A idéia de Boaventura foi recebida com entusiasmo e a proposta da Universidade Popular foi sendo debatida e enriquecida com a participação de diversas organizações. Argumentava-se que a prática do FSM é mais rica do que a reflexão sobre ela e que seria preciso avançar na produção de conhecimento contra-hegemônico.
Muitas experiências e iniciativas, já consolidadas, contribuíram para o aperfeiçoamento da proposta inicial. Um dos primeiros trabalhos da UPMS foi fazer um mapeamento atualizado de processos que se aproximavam da sua proposta, para não partir do zero. Esse mapeamento permitiu a constituição da UPMS como rede de conhecimentos transformadores em múltiplos espaços e lugares, físicos e virtuais, tanto nas práticas presenciais quanto nas práticas não-presenciais. Esse mapeamento incluiu não só experiências de movimentos, mas de redes, organizações não-governamentais, sindicatos e universidades.
A UPMS é a emergência de algo novo e necessário dentro do FSM e está ligada sobretudo à própria memória e à sistematização do Fórum. As teorias sociais vêm se produzindo principalmente nas universidades, muitas vezes distantes do espaço de lutas pela transformação social. Cientistas sociais e intelectuais isolados das novas práticas dos movimentos sociais não têm contribuído de forma significativa para o avanço dessas lutas e de seus atores. Seus conceitos e teorias se adequam pouco às novas realidades e é preciso romper com a tradição elitista e academicista da investigação social. É necessário que o FSM produza sua própria teoria, revalorizando o conhecimento dos seus atores, atrizes e organizações. E para isso a UPMS pode dar uma grande contribuição.
Uma das debilidades do formato do FSM está na dificuldade de se chegar a grandes sínteses e sistematizações. Ele se converteu em um poderoso instrumento de conhecimento novo, mas, ao mesmo tempo, não tem possibilitado a sistematização desse conhecimento. A UPMS, como um espaço entre outros, pode contribuir nesse sentido e ajudar o movimento altermundista. Além dessa contribuição teórica, ela, como espaço de intercâmbio e de aprofundamento dos temas e desafios atuais, pode ajudar também a fortalecer novas alianças e parcerias entre os próprios movimentos que participam da construção do FSM.
Ninguém tem uma receita teórica universalmente válida para todos. A alternativa à teoria geral é buscar a inteligibilidade recíproca por meio de uma “ecologia de saberes”, por meio de uma “tradução cultural”, como afirma Boaventura. A proposta da UPMS destina-se a contribuir na promoção da aprendizagem de ativistas e líderes comunitários dos movimentos sociais e das organizações que lutam no interior do FSM, fornecendo-lhes quadros analíticos e teóricos que lhes permitam aprofundar a compreensão reflexiva da sua prática de modo a melhorar a sua eficácia e a sua coerência. Por outro lado, a Universidade pretende, também, promover a aprendizagem de cientistas sociais, intelectuais e artistas interessados no estudo dos novos processos de transformação social, dando-lhes a possibilidade de um diálogo direto com os seus protagonistas e, assim, identificar e na medida do possível eliminar a discrepância entre os quadros teóricos e analíticos em que foram treinados e as necessidades e aspirações concretas das novas práticas transformadoras.
O FSM já avançou muito, mas se nota ainda, a necessidade de uma maior inteligibilidade recíproca proporcionada por metodologias adequadas e sistemáticas que os poucos dias das realizações das suas edições não permitem. A carência desse encontro de saberes e experiências entre movimentos e organizações é ainda maior do que a carência de intra-conhecimento. Há necessidade de produção de metodologias que permitam detectar o que há de comum e de diferente entre os vários temas, movimentos e práticas para identificar os pontos e modos de articulação, sem perda de identidade e de autonomia de nenhum deles. A UPMS pretende, justamente, contribuir nesse processo. F



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