Viagem de trem enriquece o vocabulário

Sufocado dentro de um carro, gastando duas horas para percorrer oito quilômetros em São Paulo, e ainda com medo de que chovesse e a coisa se complicasse mais ainda, eu reclamava muito a um...

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Sufocado dentro de um carro, gastando duas horas para percorrer oito quilômetros em São Paulo, e ainda com medo de que chovesse e a coisa se complicasse mais ainda, eu reclamava muito a um amigo que dirigia.

Por Mouzar Benedito

 

Sufocado dentro de um carro, gastando duas horas para percorrer oito quilômetros em São Paulo, e ainda com medo de que chovesse e a coisa se complicasse mais ainda, eu reclamava muito a um amigo que dirigia.

Tentávamos mudar de assunto, não falar do trânsito, mas não tinha jeito. O que conseguimos foi relembrar do Brasil dos tempos em que não havia tanto carro, viajávamos de trem, de ônibus, de carona em caminhão e às vezes de barco, fosse pela costa brasileira, fosse por alguns rios, como o São Francisco.

As viagens longas eram demoradas, com trens eram lentas e barcos muito mais. Para descer o São Francisco de Pirapora, no norte de Minas, até Juazeiro (Bahia) e sua vizinha Petrolina (Pernambuco), que fica na outra margem do rio, eram sete dias de viagem. Para subir, contra a correnteza, eram doze. Mas era divertido.

Imagine, você conversando com todo mundo, andando de um lado pra outro, paquerando, bebendo cerveja, observando calmamente a paisagem, enquanto viaja. Parece impossível, hoje em dia, né? Se a gente se levantar no ônibus ou avião e ficar andando de um lado pra outro, vão suspeitar que você é doido ou bandido. Se sair do seu lugar e for puxar conversa com algum desconhecido (ou alguma desconhecida), vão logo pensar que é assédio sexual ou qualquer coisa esquisita.

No trem a gente fazia isso. Era normal andar pelo trem inteiro e puxar conversa com qualquer pessoa, parando no vagão restaurante pra “molhar a conversa” tomando cerveja.

Quando percebi que a rede ferroviária brasileira estava sendo desmontada, aproveitei pra viajar o máximo de trem. Fui de São Paulo a Corumbá, São Paulo a Uruguaiana, Fortaleza a Crato, Belo Horizonte a Salvador e muitos outros lugares.

O governo militar acelerava o processo iniciado por Juscelino, submisso à indústria automobilística. Para começar, logo depois do golpe de 1964 a propaganda dos golpistas que diziam ter evitado o comunismo (!), que seria implantado no Brasil pelo fazendeiro João Goulart, louvava a maior possibilidade das pessoas terem carro num sistema capitalista do que no socialista: no rádio e na TV propagandeava-se o tempo todo que na União Soviética, que tinha uma população de quase o dobro da brasileira, havia menos da metade dos automóveis que tinha aqui. Quem sonhava ter um carro, tinha que ser anticomunista, este era o princípio.

E foi-se sucateando as ferrovias, até que FHC acabou de vez com o transporte ferroviário de passageiros, com sua privatização escrota. Sobraram umas poucas possibilidades de viajar de trem, em linhas mais turísticas do que de viagem pra valer.

Conversando com meu amigo, fui lembrando de algumas das minhas viagens de trem. Além de me divertir, aprendi muito nelas. Conversei muito com gente de todo tipo, assimilei bastante a cultura de cada lugar.

Minhas conversas preferidas eram com velhos, principalmente os de aparência simples. Levava sempre num embornal uma garrafa de cachaça e duas canequinhas. O convite pra tomar um gole dava início a uma conversa boa, e com alguns goles a mais a conversa se tornava mais divertida.

Na viagem de Fortaleza a Crato, puxei conversa com um velho e ele me contou que era ferroviário aposentado, tinha trabalhado naquela própria ferrovia. E antes disso trabalhou na construção dela.
Com mais um gole de cachaça, ele se lembrou que na construção daquela estrada de ferro, por uma companhia inglesa, os engenheiros eram todos ingleses e os operários eram quase todos cearenses. Entre os engenheiros ingleses, havia vários homossexuais – ele me contou quase como segredo. Claro que o termo que ele usou não foi “homossexuais”.

Os ingleses tinham muita dificuldade para aprender português e não conseguiam, por exemplo, pronunciar corretamente a palavra bitola. Falavam baitola (com acento circunflexo na pronúncia, “baitôla”).
Muito gozadores, os operários reparavam isso e, quando algum deles fazia algum trejeito, meio pra homossexual, os outros gritavam: “Olha o baitola aí”. E assim baitola virou sinônimo de homossexual.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 86. Nas bancas.



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