Yes, we can

Companhia de dança britânica explora potencialidades dos diferentes corpos, muito além das deficiências Por Maurício Ayer   “This is the perfect human, in a room with no...

180 0

Companhia de dança britânica explora potencialidades dos diferentes corpos, muito além das deficiências

Por Maurício Ayer

 

“This is the perfect human, in a room with no boundaries” – “Este é o humano perfeito, num quarto sem fronteiras”, diz a voz nos alto-falantes enquanto seis dançarinos permanecem imóveis, ocupando a região central do palco. Recomeça: “This is…”. Um humano perfeito… aí está uma boa definição do que se espera encontrar num espetáculo de dança: corpos perfeitos, verdadeiras esculturas em movimento, mostrando força e elasticidade, habilidade em coordenar-se uns com os outros em situações inusitadas e de difícil realização, ocupando os espaços em desenhos plásticos, rompendo os limites daquilo que imaginamos ser possível para a nossa espécie.

Mas rapidamente a frase que poderia apenas confirmar um lugar-comum se colore com uma sutil ironia, e se transforma em questão: existe mesmo um humano perfeito? Que conceito é este de perfeição? Seria o de um corpo sem “defeitos”? Sendo fisicamente “melhor” também seria moralmente superior? A trilha sonora e a locução vão ganhando espaço em nossos pensamentos enquanto perscrutamos os corpos em cena, e descobrimos que uma das dançarinas tem um braço mecânico.

Mesmo sabendo de antemão que se trata da CandoCo, companhia britânica cujo elenco integra pessoas com e sem deficiência, é diante da cena que começamos a rever nossas expectativas quanto à aparência que um dançarino deve ter e que tipo de movimento se pode esperar dele. Completando o mote que ressoará por toda essa coreografia, a voz em off acrescenta ao seu bordão: “Why does he move like that?” – Por que ele se move dessa maneira? É a deixa para que um dos dançarinos comece a mover os braços como se fosse invadido por uma onda de energia vibratória, num ciclo constante de expansão e recolhimento que rapidamente toma todo o seu corpo. Os outros dançarinos deixam o palco e ele então se torna uma figura perfeitamente elástica, um ser de borracha, e nos vemos transportados a um universo visual que lembra a animação gráfica, produzido pelo simples movimento de um corpo…

Entre a ficção e a realidade, o espetáculo dará outras rasteiras em nossos preconceitos, sobretudo para quem esperava ver em cena corpos limitados. Como uma dançarina com uma única perna pode mover-se no palco com tamanha plasticidade? E se de início isso poderia ser um desafio, a CandoCo trata de tornar natural a sua presença em cena. Não são as limitações, mas as potencialidades próprias de cada corpo que são exploradas ali.

A CandoCo nasceu há 18 anos, inicialmente como um trabalho terapêutico realizado por dançarinos em uma clínica para pessoas com deficiência, em Londres. Mas logo, instigado pela crítica a redimensionar esteticamente o seu trabalho, o grupo percebeu que poderia ser inclusivo de um modo muito mais radical se não se limitasse a um trabalho relacionado à terapia e se considerasse como uma companhia de dança igual às outras, porém com uma especificidade: trabalhar com a diversidade de corpos – na forma e no visual, nos movimentos e possibilidades.

“Queremos forçar os limites da dança contemporânea e ampliar a percepção das pessoas sobre o que é dança e sobre quem pode dançar”, declara a Companhia em sua página na internet. Segundo Ann Hanauer, uma das dançarinas que esteve no Brasil, “[trabalhar com deficientes] não é o nosso ponto de chegada, o objetivo final é estético, é fazer um bom trabalho. Mas claro que essa é uma característica inseparável da companhia”. Bettina Carpi, também dançarina, acrescenta que “algumas organizações de deficientes na Inglaterra não gostam da CandoCo, pois acham que ela não os representa bem, porque não damos visibilidade suficiente para as deficiências no palco. Mas o que queremos basicamente é ser vistos como uma companhia de dança que trabalha com diferentes corpos.”

“Já exploramos alguns ‘truques’ que impressionavam o público, alguns movimentos das cadeiras de roda, por exemplo, mas logo isso se esgotou”, conta Pedro Machado, brasileiro que é um dos diretores da companhia. Pedro mostra como o simples fato de se considerarem iguais aos outros pode romper com a expectativa corrente. “Em um de nossos espetáculos, a gente trabalha com cenas de muita violência e erotismo, e isso assusta porque as pessoas não estão acostumadas a pensar que deficientes podem ser pessoas violentas e dotadas de sexualidade”, revela.

O diálogo das diferenças
Esta foi a primeira excursão da CandoCo ao Brasil, com sete dançarinos, dois técnicos e um diretor artístico. Foram duas apresentações nos dias 7 e 8 de outubro, no Teatro Alfa, em São Paulo, totalizando um público de 750 pessoas. Além das apresentações, a CandoCo realizou um workshop nos dias 3 e 4 de outubro e, no dia 6, coordenou uma sessão aberta de improvisação, juntamente com o Coletivo MR – grupo de dança que desenvolve em Diadema, na Grande São Paulo, um trabalho na mesma linha da CandoCo (ver quadro na página XX). Ambos os eventos foram realizados no Centro Cultural São Paulo.

Observar como os integrantes da CandoCo trabalham no workshop ajuda a compreender sua abordagem da dança inclusiva. Com cerca de 90 inscritos, dos quais 56 foram selecionados para participar, o workshop sobre “Dança Integrada e Acessibilidade” reuniu um público composto, sobretudo, de terapeutas que trabalham com dança, bailarinos com e sem deficiências e professores de dança. Dentre estes participantes, havia profissionais da AACD e do Coletivo MR.

Já durante o aquecimento, uma cadeirante esforça-se para massagear o pé de seu colega. Em seguida, deve massagear a base de sua cabeça. Os dois se olham por um segundo, então ele se senta e os corpos novamente se adaptam um ao outro. Pode-se dizer que esses segundos de olhar mútuo contêm o essencial do trabalho do CandoCo, que é a “desnaturalização” da interação corporal entre as pessoas. Ou seja, o encontro com o outro não deve ser passado como “natural” ou algo que é dado a priori, pois é aí que os preconceitos se instalam. Quando as diferenças acontecem, ao contrário, não é possível ligar o “automático” na interação com os outros. Anne acredita que nesse trabalho “abrem-se oportunidades especiais, pois às vezes aquilo que normalmente você faria [na interação com o outro] não é uma opção, então você é obrigada a pensar ‘o que mais eu posso fazer?’”.

É o que se chama genuinamente de diálogo. Mas um diálogo que é ao mesmo tempo anterior e posterior às palavras. Anterior, porque é feito com o próprio corpo, uma comunicação sutilmente construída com o olhar, o toque, a sensação do corpo no espaço, tudo isso numa relação direta com o outro. Mas também posterior às palavras, porque quem está ali já refletiu sobre todas essas questões, todos conhecem o discurso politicamente correto, sabem o que se deve e o que não se deve dizer, mas preferem superar todos os tabus e colocar-se com simplicidade diante do outro, interagindo com ele tal como ele é.

Valdir Zeller foi um dos participantes do workshop. Ele era dançarino profissional e trabalhava nos shows de Zezé di Camargo e Luciano, até que, retornando de uma apresentação em Caldas Novas, o ônibus em que o elenco estava se envolveu num acidente. A principal consequência para Valdir foi ter os movimentos de uma perna limitados. Animado com o trabalho realizado no workshop, Valdir sintetiza que “o corpo, seja ele como for, encontra maneiras de se comunicar, e se for verdadeiro de dentro para fora sempre vai ser belo”. “O complicado no Brasil é a profissão. Como bailarino, você consegue se movimentar e se expressar, porém para o mercado de trabalho você é inválido”, lamenta.

Outra participante, Andrea Braga, que há dez anos trabalha com dança com um grupo de pessoas com deficiência múltipla e veio de Porto Alegre especialmente para acompanhar a passagem do CandoCo por São Paulo, observa: “tem um momento em que a deficiência desaparece, a plástica do trabalho é tão maravilhosa, tão envolvente, que a gente começa a se ligar principalmente no lado artístico”. Nas palavras de Bettina, o que a CandoCo procura é “traduzir a questão da inclusão no próprio corpo. Muitos dos exercícios que fazemos são bastante livres, e cada um é estimulado a realizá-los a partir das potencialidades de seu próprio corpo”. “Não existe um único meio de fazer qualquer coisa, e é o que trabalhamos no workshop”, complementa Anne. “A questão é ‘como posso obter o melhor de você, você e você como indivíduos’?”

Inclusão em todos os níveis
A companhia fez também apresentação especial para instituições que trabalham com pessoas com deficiência. No público de 1.015 pessoas, estiveram representadas mais de 27 instituições, entre elas Apae, Fundação Dorina Nowill, Associação Rodrigo Mendes, Projeto Redigir, Associação Morungaba, Projeto Semear, Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida, Clube dos Paraplégicos de SP, entre muitas outras.

Esta apresentação contou com “tradução” simultânea em libras – a língua brasileira de sinais. As aspas em tradução se devem ao fato de que o principal conteúdo para a intérprete não era uma fala, mas sim as múltiplas camadas de sons e ruídos que formam a trilha sonora. Além disso, foi disponibilizado um recurso ainda raro em espetáculos no Brasil: a audiodescrição para o público de cegos. Transmitida por rádio para receptores individuais com fone de ouvido, trata-se de uma interpretação verbal, agora da parte visual do espetáculo.
Pelo seu processo de trabalho e pelos resultados que obtém, a CandoCo poderia ser comparada com qualquer companhia de dança de ponta, mas o seu ponto de partida – mesclar no elenco pessoas com e sem deficiência – nos obriga a recolocar a questão do lugar do deficiente no mundo contemporâneo. O grupo britânico materializa uma espécie de utopia: um tempo em que já não será preciso esforço para defender-nos de nossos próprios preconceitos, para educarmo-nos contra aquilo que aprendemos ser o “normal” (e que na verdade é sempre a tentativa de reduzir a diversidade a um modelo qualquer).
Embora vivamos num mundo em que ainda é preciso falar sobre os deficientes, em que ainda é preciso dar-lhes toda visibilidade, a CandoCo nos faz sonhar com o tempo em que toda a luta que hoje é necessária para reconfigurar os espaços sociais que habitamos figurará apenas em nossa memória. É uma maturidade no trato com as diferenças que hoje é difícil de imaginar, mas que teremos que conquistar.

Saiba mais sobre a CandoCo na página eletrônica da companhia: www.candoco.co.uk.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de outubro. Nas bancas.



No artigo

x